Fu te bol
Antes que o leitor vire a página, desistindo da leitura, peço um pouco de paciência. É preciso. Em dias em que as chatices invadem o nosso espaço por todo o lado, é sempre bom alertar. Além disso, ainda temos os jogos da Copa do Mundo para ver. Portanto, apenas leia. Ao final, tudo fará um pouco de sentido.
Futebol
Já pensou. Caro leitor. Se os textos. Sim. Os textos. Fossem assim. Isso mesmo. Escritos. Desse jeito. Curtinhos. Como uma respiração. Tipo cachorrinho. Ofegante. A sensação. Ah, sim, teríamos uma, inevitavelmente. Ruim, por certo. E a leitura? Atáxica. Gaga. Trancada. Como um engasgo. Terrível. Um “tique taca”. Tipo o futebol. Esse. Moderno, horroroso. Europeu. Em que o tiro de meta se cobra para dentro do gol. Que um jogador dá, no máximo, dois toques. Bola quente. Queima os pés. Ficamos nós, assistindo aquele tique-taca. Zero criatividade. Só estratégia. Para vencer. De um a zero. Já chega. Retranca. Contra-ataque. Não importa o time. Seleção. Todos jogam assim. Parece televisão em preto e branco. Até que vieram os africanos…
Literatura
Não pode ser assim. A literatura não pode copiar o tique-taca do futebol. Deve permanecer arte. Não se presta à cópia, à inteligência artificial. Tem de ser pura, envolvente, cativante, como um texto do moçambicano Mia Couto. Como as seleções africanas. Estas, sim, estão resgatando o direito de assistirmos ao bom futebol. Quanto tempo! Que alegria é ver os negros, os “pobres”, na terra do Tio Sam. Surpreendem o planeta fazendo o óbvio: garra, criatividade e futebol. Não é à toa que estão avançando. Se vão longe, não sabemos. Já foram longe. Mas seria preconceito pensar assim? Talvez. Só não digo que é porque estou encantado em assistir ao futebol, depois de tantos anos de tique-taca. Me sinto um menino diante da televisão, como se sentisse o cheiro dos campos de areião. O bom futebol voltou!
A Olimpíada de Hitler
Nos três países da Copa, jogaram e continuam jogando centenas, talvez milhares de jogadores. Muitas nacionalidades. A quase totalidade calça chuteiras cor-de-rosa, mas em campo, jogam como homens, com a bravura de antigamente. Um contraste interessante que nos faz esquecer as guerras promovidas pelo “país da liberdade”, onde certas comissões técnicas entram e saem do ambiente hostil e colorido da Terra do Mickey e da Coca-Cola sem serem percebidas. Não há protestos. Como nas ditaduras. Talvez nem seja preciso. Basta mostrar que o futebol tem essa magnitude de envolver, cativar, encantar. Garra sem guerra. Vencer sem destruir o adversário. Ao menos o torneio, até onde consigo ver, não tem se tornado palco para geopolíticos sociopatas.
Salve a África
Nos anos Oitenta, um conjunto de músicos norte-americanos fez um lindo movimento em favor dos países africanos, devastados e recém-libertos de seus cativeiros políticos, depois de anos de exploração colonial. Hoje, passado esse tempo, vemos o futebol-arte ser (por eles) utilizado como ferramenta de inclusão. Dezenas e dezenas de atletas pouco conhecidos despertam a atenção do planeta. Um destaque para as seleções africanas que muito bem defendem as cores de seus países. Ainda não sabemos como vai terminar o mundial. Estamos ainda nas oitavas, mas o que vimos até aqui foi bem mais que futebol. Foi um resgate da dignidade de quem joga e de quem assiste. O fim de uma ditadura branca e europeia. Então, enquanto houver alguma seleção africana jogando o “foot-ball” de antigamente, continuarei a acreditar nos homens. A torcer. Que venham novos tempos! De paz.