Fricassê
Calma! Não chegamos a esse nível. Na democracia não é suposto publicar receitas culinárias. Mas vamos falar de proteína. É o que sustenta os nossos ossos e nos dá força para seguir em frente.
Frango ou carne
Há quem goste de frango e há quem prefira carne. Tudo depende do bolso. Embora o primeiro também seja carne, não goza da mesma realeza que a proteína bovina. Também há quem goste de molho e um bom fricassê não dispensa um molho branco, nem que seja de caixinha. Do contrário, é frango frito. E já que a carne é um artigo de luxo, vamos hoje ao fricassê, mesmo sabendo que, no fundo, no fundo, o desejo de todo brasileiro é sempre o de comer um bom estrogonofe, para não dizer outra coisa.
Origens
Diferente do estrogonofe, cuja receita original remonta à aristocracia russa, o fricassê nasceu na França. O termo é a junção de dois verbos: frire, que significa frito e casser, que significa partir em pedaços. Na composição histórica podia ser feito à base de frango ou coelho. Até hoje é uma comida saborosa e barata. Na falta de grana para comprar carne de gado, usa-se o bom e velho frango. O molho é o que ajuda a lembrar do estrogonofe e assim dá para satisfazer um pouco o desejo, apenas invertendo a proteína. Porque é o molho que ajuda a enganar e não a carne.
Harmonização
E por falar em desejo, só mesmo a criatividade é capaz de suprir aquilo que desejamos, mas que não temos condições de comprar. Nós, brasileiros, somos os reis da gambiarra. Aqui em Portugal, onde resido, não há um português que não reconheça a brilhante habilidade que os brasileiros têm de resolver problemas. Na falta de dinheiro, na falta da carne, come-se frango e ainda assim dá-se ao prato um nome francês, cheio de requinte: fricassê. Se os franceses não tivessem inventado, certamente que um brasileiro daria um jeito. Que nome seria? Não sei. Até sugiro, para acompanhar a iguaria, um vinho branco para harmonizar. De preferência um moscato ou “uva francesa – a da casca dura”, comprado de algum colono das redondezas. Mas vinho seco! Deixe a doçura para o sagu, este, de uva bordô ou isabel. Sagu de vinho branco dá anemia.
Jogo de cintura
Comparar o fricassê com o estrogonofe é coisa que não se faz. Não em época de eleição. O primeiro só entra em pauta quando o segundo se torna uma opção inacessível. Embora as promessas de que os brasileiros iriam comer carne de gado tenham ficado pelo caminho, sempre há chances para o fricassê. Nem digo picanha, para não ser mal visto. O fato é que, aos olhos de quem está acostumado a comer estrogonofe, ver o fricassê como ameaça poderia ser uma boa oportunidade para refletirmos sobre a tal da desigualdade social.
O juízo final
Chegamos à reta final das presidenciais. Até aqui, em se tratando de culinária, parece que o povo brasileiro, aquele que ficou à espera do estrogonofe, passou a dar mais valor ao fricassê. Se pensarmos bem, somos a própria alegoria do prato. O trabalhador brasileiro - e não o malandro carioca - se rala e se frita, mas não perde a esperança. Só troca o molho. É o molho que engana. Então, entre as promessas de estrogonofe e o garantido fricassê, escolhe-se não passar fome, mesmo sabendo que o molho é que engana.