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Saúde

Existe idade ideal para ser mãe?

Gestação após os 35 anos é realidade cada vez mais presente na prática de ginecologistas

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Por Najaska Martins - najaska@jornalbomdia.com.br
Foto Divulgação

Gestação após os 35 anos é realidade cada vez mais presente na prática de ginecologistas

Não é raro no universo feminino a relação da mulher com a maternidade. Neste contexto, são cada vez mais comuns os questionamentos que envolvem as dúvidas sobre a “idade ideal” para a ser mãe. De acordo com a Dra. Rejane Lis Menegaz Ströher, ginecologista-obstetra e uroginecologista, o adiamento da maternidade se configura como um fenômeno mundial e, nos últimos 30 anos, embora os índices de nascimento estejam decrescendo, a média de idade materna aumenta progressivamente.

“A gestação após os 35 anos, é realidade cada vez mais presente na prática do ginecologista, estando associada ao melhor nível socioeconômico e maior nível educacional. No Brasil, o número de mulheres que tiveram sua primeira gestação com mais de 30 anos duplicou e ocorreu um aumento de 80% naquelas com mais de 40 anos. Os motivos para isto são inúmeros e englobam o aumento da participação feminina no mercado de trabalho, o desejo de investir na formação e na carreira profissional, a postergação da época do casamento, a constituição de novas uniões, a grande e diversificada disponibilidade de métodos contraceptivos e os avanços nas técnicas de reprodução assistida para mulheres com problemas de infertilidade”, pontua a médica.

Conforme a profissional, a idade materna avançada causa preocupação do ponto de vista obstétrico. “Os extremos da vida reprodutiva estão ligados a uma maior frequência de complicações perinatais. O Ministério da Saúde considera fator de risco gestacional preexistente a idade materna maior que 35 anos, o que exige atenção especial durante a realização do pré-natal. A idade ideal para a procriação foi considerada pela literatura entre 20 e 29 anos, uma vez que nessa fase os melhores resultados maternos e perinatais são vistos”, explica.

Segundo Rejane, a gestação em mulheres com idade avançada está associada a complicações maternas, como ganho excessivo de peso, obesidade, diabetes, hipertensão, pré-eclâmpsia, miomas, além de maiores taxas de mortalidade materna. “A hipertensão é a complicação mais encontrada e quando crônica é diagnosticada na gravidez de duas a quatro vezes mais frequentemente em mulheres com idade superior a 35 anos. A incidência de pré-eclâmpsia na população obstétrica geral é de 3 a 4% e na população maior de 40 anos aumenta para 5 a 10%”.

A médica enfatiza ainda que a prevalência de diabetes preexistente e gestacional aumenta de três a seis vezes e o risco de mortalidade materna se eleva de duas a três vezes, especialmente nos países em desenvolvimento, devido à deficiência de cuidados adequados. “Também há aumento de complicações fetais e neonatais: anormalidades cromossômicas, abortos espontâneos, mecônio intrauterino, baixo peso ao nascer, restrição de crescimento fetal, macrossomia, sofrimento fetal, admissão em unidade de terapia intensiva e morte neonatal”, esclarece.

A ginecologista-obstetra e uroginecologista explica ainda que quanto à gestação e parto, os distúrbios mais citados nesta idade são: parto prematuro, hemorragias, parto prolongado, trabalho de parto disfuncional, gestações múltiplas, apresentações anômalas, pós-termo, alterações no líquido amniótico (oligodrâmnio e polidrâmnio), ruptura prematura da bolsa amniótica e maiores índices de cesariana.

“A maior prevalência de eventos clínicos e obstétricos adversos na gravidez e pós-parto de mulheres com idade mais avançada impõe a necessidade de cuidados pré-natais especializados, com acompanhamento cuidadoso, visando minimizar as complicações obstétricas e o risco de morbimortalidade materna. Tais gestantes devem receber orientação quanto às possíveis intercorrências e cuidados necessários, além de ter seus anseios e dúvidas minimizados pela adequada atenção dos profissionais de saúde, possibilitando tornar viável o sonho da maternidade”, completa Rejane.

Mulher x maternidade

Biologicamente, ser mulher sempre esteve associado à maternidade, entretanto, socialmente esta relação foi se modificando ao longo da história. No século XVII, o papel da mulher restringia-se a gerar um filho, mas não a desempenhar a maternidade como se constitui atualmente, já que a própria concepção de infância e cuidados para com as crianças era completamente distinta. A partir do século XVIII, a mulher passou a ser vista como fundamental não só para a gestação, mas também para o desenvolvimento dos filhos. Estando nesse momento a reprodução intrinsecamente associada ao casamento, o destino da mulher já nascia traçado para casar e reproduzir. Hoje se abrem novas portas para a mulher que está livre para poder escolher, está plenamente inserida no mercado de trabalho e vem conquistando novos papeis e cargos que, até há pouco tempo, seriam impensáveis.

Nesse sentido, observa-se a ocorrência de um fenômeno diferente, pois as mulheres estão podendo escolher viver ou não a maternidade. Com o surgimento da pílula anticoncepcional e a maior eficácia dos métodos contraceptivos, as mulheres se tornaram responsáveis por sua sexualidade, podendo optar por ter, ou não, filhos e quando tê-los. Antigamente, o papel feminino centrava-se na satisfação daqueles à sua volta, enquanto que agora ele pode se voltar para seu crescimento e desenvolvimento pessoal. Aconteceram algumas mudanças sociais, tais como a crise da concepção burguesa de família nuclear, a entrada da mulher no mercado de trabalho, a separação da sexualidade da reprodução e uma política de visibilidade da homossexualidade. Produziram-se, então, novas formas de subjetivação das mulheres que puderam adiar a maternidade e optar até mesmo por não vivê-la.

Ainda hoje as que optam pelo caminho inverso ao que culturalmente se espera das mulheres – que é o de buscar a maternidade – motiva alguns preconceitos. Todavia, é sempre válido lembrar que o questionamento acerca da concepção de maternidade como um destino inevitável à mulher vem cada vez mais naturalizando os casos que fogem ao que até então se considerava praticamente uma regra.

Fonte: “Representações de maternidade em mulheres não-mães por opção” e “A não maternidade na contemporaneidade” via Scielo

 

 

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