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Cultura

HQs: Paixão sem idade

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Foto: Marvel
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Por Najaska Martins - najaska@jornalbomdia.com.br

Em razão da Passagem do Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos, comemorado neste sábado (30), o Jornal Bom Dia foi em busca de colecionadores para entender qual é o diferencial deste formato de se contar uma boa história

Neste sábado (30), comemora-se o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos, popularmente conhecidas pela sigla HQs. Instituída em 1985 pela Associação dos Quadrinhistas e Cartunistas do Estado de São Paulo (AQC-ESP), a data celebra um dos formatos mais populares de se contar uma boa história no papel.

Neste gênero literário, a história é narrada através de sequências de imagens, desenhos ou figuras impressas. A sua linguagem é formada por elementos como requadros, balões e traços que formam os personagens e os cenários, roteiro (com palavras e as onomatopéias), entre outros. Os diálogos entre os personagens, seus pensamentos e a própria narração aparecem sob a forma de legendas ou dentro de espaços irregulares chamados de balões. Nas histórias em quadrinhos é inegável a influências de outras áreas artísticas como a literatura e o cinema.

Para tentar entender os diferenciais das Histórias em Quadrinhos, o Jornal Bom Dia foi em busca de erechinenses que, além de gostar, colecionam este formato de obra:

 “Uma forma de registrar a história e vê-la mudar”

Foi ainda na infância que o analista de sistemas Daniel Cristiano Soares da Silva descobriu os quadrinhos. “Certa vez ajudando minha avó a arrumar o quarto onde meu avô falecido guardava seu pertences, encontrei vários quadrinhos antigos das décadas de 60, 70 e 80 alguns eram da minha tia também. A partir daí passei a comprar os meus próprios com a mesada que ganhava”, recorda.

Hoje com 30 anos, ele possui um acervo com mais de 1,2 mil HQs de Super-Heróis, fantasia medieval e espacial e também de terror. A justificativa? “Me inspiram a ter perseverança diante do inimaginável”, explica Daniel, que tem preferência pelos quadrinhos da DC Comics, que publica Batman, Superman, Mulher-Maravilha, Liga da Justiça, entre outros porque “os personagens e histórias sempre se adaptam e mudam conforme o que acontece culturalmente no mundo real”, afirma.

Daniel acredita que visualmente um artista de HQs é capaz de fazer algo que “nem o melhor filme de efeitos especiais consegue com a tecnologia atual”. Ele destaca que nos quadrinhos podem haver batalhas épicas que se fossem filmadas custariam muito dinheiro, “mas claro que ainda será necessário um bom roteirista. As pessoas se queixam que a temporada de sua série ou filmes favoritos acabaram, mas mal sabem que tem muito material de origem de onde aquilo foi inspirado nas HQs”, salienta.

Entre todo seu acervo, que conta também com bonecos/action, figures de heróis animes e mangás novos e antigos, Daniel tem uma revista que considera especial, ela se chama “O Reino do Amanhã” e, conforme o analista de sistemas, mostra o que aconteceria se os heróis envelhecessem, como seria o choque com os ideais e anseios da nova geração. “Se for ver é algo que está acontecendo hoje comigo, pois o mundo está mudando, eu estou ficando velho, meus heróis estão mudando para se adequarem à nova geração”, compara, salientando que isto o faz refletir e prova que “HQs não são só para crianças, mas fazem nós adultos sermos pessoas melhores”, completa. (Confira abaixo o vídeo em que Daniel explica “O Reino do Amanhã”).

 

 

O analista afirma ainda que vê as histórias contadas nas HQs como metáforas para os problemas da vida real. “As pessoas precisam entender que personagens de HQs são mitos modernos, como os heróis da mitologia eles não foram feitos para fazerem um sentido literal e serem realistas. Eu sei que não é possível ter superpoderes, sei que certas histórias são absurdas para as leis da física, mas penso nelas com uma metáfora para problemas reais, uma forma divertida para lidarmos com eles. Quadrinhos são também uma forma de registrar a história e vê-la mudar”, completa.

De Turma da Mônica a Dragon Ball

Para o servidor público Gabriel Morganti Contini, de 28 anos que possui um acervo de 3,5 mil exemplares de HQs, a preferência é pelos mangás – os quadrinhos japoneses – embora ele tenha também edições especiais de quadrinhos ocidentais e tudo o que lhe parecer interessante. “Prefiro os mangás porque a história flui de forma mais interessante, com o uso de mais quadros para mostrar o andamento de alguma cena. Também existe uma variedade maior de gêneros e os títulos não são intermináveis, o que permite uma renovação constante de histórias, ao contrário de quadrinhos como os da Marvel e da DC, por exemplo, que utilizam os mesmos personagens há tanto tempo”, declara.

O que atrai Gabriel quando o assunto são as HQs são as boas histórias, sejam elas drama, cotidiano ou ficção científica mais elaborada. “Mas meus autores favoritos são o Neil Gaiman, entre os ocidentais, e Naoki Urasawa dentre os orientais”, afirma. O servidor público conta que seu apreço pelo formato HQ começou com as revistas da Turma da Mônica e da Disney. “Quando eu tinha por volta de 13 anos, meu irmão desistiu de comprar HQs e me deu a sua pequena coleção da Marvel, que tinha revistas dos X-Men, Homem Aranha, Hulk... Ainda tenho essas guardadas, mas as da Mônica já repassei pros meus irmãos mais novos”, diz.

No entanto, sua coleção de fato começou quando a editora Conrad lançou Dragon Ball no Brasil em 2001, com a mesma ordem de leitura utilizada no Japão, da direita pra esquerda. “Depois vieram outros títulos pela JBC, como Samurai X, e desde então não parei mais de comprar. Nesse começo os mangás ainda eram baratinhos, custando entre 3 e 4 reais, mas com menos páginas”, lembra Gabriel.

Em relação a outros gêneros ele aponta que o principal diferencial das HQs é a possibilidade de contar qualquer tipo de história de uma forma única, com uma dinâmica própria e diferente de qualquer outra mídia. “Outra coisa que me atrai muito é a união entre o texto e o desenho, que deixa a obra mais completa. Um complementa o outro, e os dois são indispensáveis pra se entender bem a história”, afirma. No caso dos quadrinhos ocidentais, ele explica que é comum existir um responsável por cada etapa (roteiro, desenho, arte-final, coloração), já nos mangás o autor geralmente é responsável por tudo.

Assim como Daniel, o servidor público também reforça que as HQs não são restritas às crianças: “A maioria das pessoas quando ouve falar de quadrinhos já associa a algo infantil, muito provavelmente por causa da turma da Mônica ou dos gibis da Disney. Essas histórias pra crianças são importantes porque ajudam a formar novos leitores, mas os quadrinhos não são restritos assim. Existem histórias para todos os gostos e todas as idades, das mais simples às mais complexas, e todas acrescentam alguma coisa, se não conhecimento, pelo menos um bom período de lazer”, completa.

Uma paixão de dez mil HQs

Com um acervo de aproximadamente dez mil revistas, o publicitário Rodrigo Augusto Pavan, de 39 anos, coleciona revistas de super-heróis e mangás nacionais e importados dos Estados Unidos, Japão, Europa e países da América Latina. A decisão de iniciar a coleção, ele explica que surgiu por ele ter sido cativado pelas histórias fantasiosas dos super-heróis desde a infância. Já os mangás o conquistaram pela narrativa em forma de novela, dando continuidade semanal e estilo de desenho diferenciado. “Coleciono desde os 12 anos. Já havia tido contato com gibis infantis, como Turma da Mônica e Disney antes, mas foi aos 12 anos, com meu primeiro exemplar de Superamigos que a paixão começou de verdade”, afirma.

Para ele, o grande diferencial das HQs é a narrativa ágil. “Os quadrinhos “mostram” muito mais do que um livro. Como sou desenhista, isso sempre me fascinou. É interessante imaginar a cena lendo um livro, mas vê-la sob o ponto de vista de um artista, cria toda uma nova experiência. Te transporta de maneira mais fácil a este mundo de fantasia”, destaca.

Questionado se possui itens que considera especial em sua coleção, ele cita revistas importadas dos Estados Unidos, de edições especiais dos anos 90. “Época em que houve uma explosão na indústria americana e as tiragens ultrapassavam os milhões por mês. Nesta época se imprimiu muitas edições com extras, capa dura e efeitos de impressão diferenciados e inovadores que se tornaram itens de colecionador. Fora estas, algumas edições de mangás vindos do Japão e algumas vindas da Itália, Portugal, Argentina e Chile”, conta.

Questionado se há algum personagem preferido, o publicitário é enfático: “Batman. Sempre. Acompanhei diversas fases deste personagem e a passagem de grandes e renomados escritores que fizeram mudanças cruciais no mercado americano e mundial. Desde a década de 70, alguns grandes escritores e desenhistas causaram o amadurecimento do mercado para o que é hoje. De histórias infantis e inocentes, para um produto voltado para adultos, refletindo o crime e a violência que assolam o mundo nos dias de hoje”.

Por fim, Pavan lamenta a marginalização das HQs no Brasil e nos EUA. “Existem países no mundo que já aceitaram elas como uma forma de arte e souberam usá-las, inclusive, na educação, de maneira eficaz. Quadrinhos na França, Itália e tantos outros países europeus, são, há muitos anos, considerados obras literárias e seus desenhistas são vistos como grandes artistas. Da mesma forma que pintores são vistos. Existem museus em homenagem a estes”, afirma.

Ele cita ainda que no Japão, após a Segunda Guerra Mundial, foi dos quadrinhos (mangás) a importante tarefa de reeducar e reerguer o país do ponto de vista da educação. “Tanto, que até hoje, o Japão tem quadrinhos para diversos públicos específicos, indo da fase de alfabetização até o público adulto. Se no Brasil conseguirmos mudar essa visão errada dos quadrinhos, de que não educam e não passam de mera diversão momentânea, poderemos explorá-los para educar de maneira fácil e rápida as futuras gerações, sem tirar o papel fundamental do livro e quem sabe, até criando de maneira mais fácil, a paixão pela leitura”, finaliza.

Papel ou digital?

Para o analista de sistemas Daniel, no futuro as HQs serão históricas como os discos raros de vinil. “Mas eu apoio a preservação digital, pois por mais que eu plastifique e cuide de uma HQ, o tempo não perdoa, papel amarela, capas dobram. Depois que as mídias digitais foram inventadas, eu não empresto mais livros, filmes, HQs, etc, dou uma cópia para a pessoa, isso ajuda bastante a manter a integridade, evitando até meu próprio manuseio constante. Por mais que eu tenha HQs em formato digital, é bom se desconectar da tecnologia e sentir o cheiro do papel, folhar, admirar a arte do artista sem a tela do PC ou Tablet ficar entrando em modo de economia e desligar, sem ficar dando zoom”.

Já Gabriel afirma que não se importa em ler quadrinhos digitais mas afirma que “uma pasta no HD cheia de quadrinhos digitais não é um bom substiuto pra uma prateleira cheia, ainda que economize bastante espaço”.

Por fim, Pavan salienta que já tentou migrar de um formato de mídia para outro. “Li algumas revistas que não foram publicadas no Brasil em tablet, mas a sensação de ter o papel na mão é completamente diferente. A experiência digital se torna fria em comparação com o papel. A revista impressa tem um charme insubstituível.

 

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