Para uma pessoa que consegue caminhar, que enxerga e não tem uma perna amputada, entrar numa loja é algo corriqueiro e simples, não exigindo mais do que a sua atenção. Contudo, para quem tem alguma deficiência, como por exemplo o cadeirante, essa mesma tarefa requer diferentes necessidades, e, também, alguns requisitos, como acessibilidade ao ambiente, do contrário, a pessoa fica impedida de entrar no local. E, além disso, e o mais importante, requer a compreensão da sociedade, que o diferente também tem o direito de viver, de ir e vir, e que a normalidade precisa ser a inclusão da diferença.
Num depoimento seguro, forte e emocionado, em alguns momentos, a psicóloga, Vandriane Truylio, de Erechim, que é cadeirante, postou um vídeo nas redes sociais, na semana passada, para mostrar como é a vida de uma pessoa cadeirante em Erechim.
“Ser cadeirante em Erechim é se humilhar por uma rampa, é se humilhar por uma vaga, uma calçada, é se humilhar para as pessoas entenderem o que é capacitismo, é tentar fazer com que as pessoas entendam que preconceito existe. Agora ser cadeirante em Erechim é viver sob ameaça”, desabafa.
O relato feito num vídeo de quase seis minutos foi motivado por uma situação que Vandriane vivenciou no centro de Erechim, numa sorveteria localizada em frente à Catedral.
Segundo ela, os carros estacionam nas vagas de cadeirantes, bem em frente à sorveteria, ligam o alerta, para comprar sorvete. Mas as pessoas que estacionam lá dificilmente têm deficiência.
Ao reclamar para a pessoa que estava na vaga para deficientes, ela respondeu que já ia retirar o carro. “Eu entendi, porque não sou ignorante que não posso esperar um pouco”, diz. Ela comenta que todos os lugares que ela vai e vê que não tem o cartão de autorização para estacionar, ela reclama. “Tudo que é de meu direito eu reclamo, porque está na Constituição”, diz.
O problema foi que “uma das atendentes da sorveteria teve a capacidade de dizer, enquanto estava indo, que era pra me cuidar, porque essa pessoa que eu reclamei ia me cagar a pau”, ia dar uma surra violenta.
“Levo pau todos os dias e não tenho medo de ameaças. Levo pau todos os dias tendo que reclamar, vendo a minha cadeira de rodas despedaçada, passando por humilhação. Vendo a minha saúde mental se deteriorar, tendo que fazer terapia, por muitos e muitos anos, pra fazer com que eu entenda que a sociedade é preconceituosa, coisa que a sociedade deveria mudar, porque a sociedade não entende que existe diferenças”, afirma.
E, acrescenta, “essa pessoa dizer que eu iria levar uma surra de alguém que nem conheço, é obvio que fiquei com medo, não dessa mulher, mas da sociedade em geral, por não me respeitar, por todo dia eu ter que sofrer, pedindo só o que é meu direito. E, aqui, estão vendo não a Vandriane psicóloga, mas a Vandriane pessoa, que sofre todos os dias pedindo só que as coisas melhorem, e não é só pra mim, mas pra todos.
Conforme Vandriane, não adianta só as pessoas serem legais, ajudar a carregar cadeira, se não tem rampa na loja. É preciso ter uma estrutura que atenda as necessidades dos deficientes. “Todos temos que nos mobilizar, esse é um apelo não só meu, mas para as pessoas que não tem deficiência, para as pessoas com deficiência, pra que a gente possa mudar”, disse.
Opinião do jornalista
Depois de editar a matéria, fui à rua buscar uma foto para ilustrar o conteúdo do texto. E não foi difícil achar um exemplo. Dos quatro pontos de acesso ao viaduto Rubem Berta, um deles não tem acessibilidade. Ah, mas é só os outros três tem acesso, pode-se argumentar. Bem, a conta é a seguinte, somente um lado do viaduto tem acessibilidade, pois onde o cadeirante subir numa ponta não terá como descer na outra, assim, não tem como se deslocar. E isso já basta para ser impeditivo de circulação de quem tem uma deficiência. Isto é, de impedi-lo de ter uma vida normal.
Outro ponto da falta de acessibilidade do viaduto, os cadeirantes não têm como cruzar a rua pela faixa de segurança, porque não tem rampa que dá acesso a elas. Eles teriam que se esgueirar pelo asfalto, se colocando em perigo entre os carros. Outra questão, nessa caminhada à procura de exemplos pude ver rampas íngremes, com um elevado ângulo, o que dificulta e requer um esforço gigantesco para subir. Sem contar que muitas das rampas são íngremes, tem um elevado ângulo, o que dificulta e requer um esforço gigantesco.
As placas e os espaços para vagas de deficientes são evidentes e muito específicas, não tem porque ocupa-las se o motorista não for deficiente. Nem mesmo momentaneamente.
Para quem consegue caminhar, um degrau representa uma pequena dificuldade, mas para um cadeirante, um obstáculo intransponível, frustração e impotência frente à uma dificuldade que pode ser resolvida com mais compreensão e sensibilidade do poder público e da população em geral. Ainda há muito o que se fazer quando o assunto é acessibilidade.