Como é importante a participação efetiva do cidadão na construção do bem-estar da sociedade. Lutar por direitos, por aquilo que se acredita é importante, faz sentido e toda a diferença. O relato da psicóloga, Vandriane Truylio, nas redes sociais sobre a situação do cadeirante em Erechim teve desdobramentos no poder público municipal, e se encaixa nessa lógica.
No vídeo de quase seis minutos, ela mostra a intolerância, o preconceito e as dificuldades que deficientes sofrem, diariamente, para viver. Na edição de ontem (11), o jornal Bom Dia publicou parte do seu depoimento, que num dos trechos diz: “ser cadeirante em Erechim é se humilhar por uma rampa, é se humilhar por uma vaga, uma calçada”.
Poder público
O coordenador de Segurança Pública e Proteção Social de Erechim, Emerson Andreis Santarém, entrou em contato, na manhã de ontem (11), com o jornal Bom Dia para dizer que algumas providências já estavam sendo encaminhadas em função da publicação de Vandriane.
“Quando tomei conhecimento pelas redes sociais, como pelo Jornal Bom Dia, me sensibilizei com o registro da Vandriane, e convidei ela para vir até a coordenadoria de Segurança Pública. E, prometemos que na segunda-feira (10) estaríamos com o engenheiro percorrendo os lugares onde há maior necessidade de fluxo e trânsito de cadeirantes”, disse Santarém.
O coordenador explica que junto com Vandriane, ele e o engenheiro civil da prefeitura, Jonathan Medeiros, percorreram toda a Avenida Maurício Cardozo e Sete de Setembro, todas as pontas e locais que ela indicou que necessitavam melhorias. “Foram marcados todos os pontos que precisam ser melhorados. Passamos esquina por esquina. É possível fazer”, disse.
Programação
Conforme o engenheiro civil da prefeitura de Erechim, Jonathan Medeiros, as demandas foram analisadas com a visão de quem realmente sente a necessidade de acessibilidade ao se locomover. “Foi verificado pontos críticos nas condições dos passeios e rampas de acesso de diversos pontos ao longo da Avenida Sete de Setembro e Maurício Cardoso, e entornos, sendo levantado as deficiências enfrentadas pelos usuários”, disse.
Jonathan comenta que a partir de agora será emitido protocolo com as demandas e encaminhado aos setores competentes para análise e execução destas, pois há demandas que necessitam avaliação e providências de setores e secretarias diferentes.
“Assim que concluídas as definições das demandas serão encaminhadas para execução ou fiscalização e notificação dos proprietários para regularização das condições de trânsito dos Portadores de Necessidades Especiais, caso necessário. O prazo para execução é indeterminado, mas ocorrerá dentro da maior brevidade possível, em paralelo às demandas já existentes das equipes responsáveis”, afirma.
Comunidade
Segundo Jonathan, é necessário também uma intervenção da iniciativa privada, dos proprietários, na execução das calçadas, na colocação do piso tátil para o deficiente visual. “A colaboração da comunidade é muito importante, é uma necessidade, porque hoje se está sadio, mas amanhã pode se estar enfermo, e com alguma outra necessidade”, explica.
Segundo a lei municipal, a responsabilidade da manutenção do calçamento é do proprietário do terreno. “Ele tem que ter esse cuidado, esse assunto merece a sua atenção”, diz.
Acessibilidade é universal
A psicóloga, Vandriane Truylio, esteve no Bom Dia na tarde de ontem, e respondeu que vê com certa reserva a repercussão do vídeo no poder público. Conforme ela, “em Erechim 90% das lojas não tem acessibilidade, porque eles acham que não é um público que compra. Eles preferem te ajudar, e a maioria das vendedoras são muito legais, tentam auxiliar, mas eu quero ter independência, poder entrar e sair da loja com tranquilidade”.
Ela comenta que a cadeira é motorizada e ao carregar pode danificar, como por exemplo, tirar um eixo do lugar. Ao mesmo tempo, carregar a cadeira invade a sua privacidade. “Isso te invade, é desconfortável. A cadeira é uma extensão do meu corpo”, disse.
Vandriane observa que nas avenidas centrais, Sete de Setembro e Maurício Cardoso, se encontram o maior número de dificuldades. “Principalmente nos canteiros, porque tenho que ir no meio da rua pra conseguir atravessar, e aí tenho que dividir o caminho que faço com ônibus e carros. À noite, não se consegue enxergar uma pessoa numa cadeira de rodas motorizada. E aí, fico exposta ao risco a toda hora”, diz.
Ela comenta que os representantes públicos prometeram que vão abrir uma ordem de serviço pra construir as rampas onde não tem, arrumar as que estão estragadas, e notificar alguns proprietários de terrenos sobre as calçadas que estão ruins. “De alguma maneira espero que esse vídeo tenha tocado as pessoas e mostrado a dificuldade do cadeirante, e que também possam fazer alguma coisa”, disse.
A cadeirante disse que vai continuar fazendo os vídeos nas redes sociais, e pede que a população fique de olho a esta situação. Ela agradece as pessoas que a apoiaram e compraram a sua briga. “Me apoiaram de maneira muito positiva”, afirma.
Ela ressalta que a acessibilidade é uma questão universal, e não envolve só ela, Vandriane, mas diferentes públicos, idosos, crianças, rampas, piso tátil e respeito às vagas preferenciais.