O Sapateiro de Bruxelas não se considera um animal político. Assim, tem o condão de desagradar tanto um lado quanto outro quando as conversas do café envolvem o tema. Ainda alega que, como está sujeito a variações psicológicas e fisiológicas mais ou menos intensas, tem certeza que jamais será referência intelectual ou conceitual para quem quer que seja. Previamente abdica da condição de guru. Para o Sapateiro, não é civilizado por qualquer motivo não aceitar o contraditório. Então, para manter sua integridade moral, se recusa a assumir qualquer posicionamento definitivo e permanente nessa área. Dessa forma, seguindo seus preceitos primordiais, simplesmente recusa a se submeter a qualquer aliciamento ideológico.
Ao contemplar seu próprio umbigo e conversando com seus botões, o bruxelense reconhece que no passado caiu em armadilhas por ele mesmo montadas. Hoje tem consciência que por vezes foi injusto em seus julgamentos e reações, muitas tisnadas pela mocidade fogosa e paixões evanescentes. Isso fica claro quando recorda agressivas críticas simplistas e generalizadas alimentadas por aversões juvenis e fantasiosas de outros tempos.
Com ênfase reafirma que hoje adulto, quase velho, calejado pela vida, não guarda rancor pelos simpatizantes da direita ou esquerda, civis ou militares, padres ou leigos. Porém não esconde sua antiga e profunda ojeriza aos políticos carreiristas e fisiológicos que se aprimoraram na arte de ficar em cima do muro.
E assim do nada, sem provocações, com ar solene e senhoril, anuncia à plateia do cafezinho que na próxima eleição municipal, acima de qualquer partido ou facção, cumprirá o compromisso que tem consigo mesmo. Ou seja: manterá sua lendária autenticidade ante tudo e todos. Principalmente se manterá fiel ao sistema democrático inaugurado na Grécia há precisos dois mil e quinhentos e vinte e oito anos. Simploriamente, votará no melhor sob sua avaliação, sem qualquer pejo ou outra condicionante que não a sua consciência.
E ao encerrar sua prédica diária, o bruxelense evoca novamente a Grécia ao citar filósofos pré-socráticos: sem deuses e ideais, os homens se tornam mais puros e capazes de se aturar.
Afinal, para o Sapateiro, a democracia é uma benção, embora aparentemente às vezes cobre preço alto demais.