21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Geral

“Dia de lutar, disputar espaços e conquistar direitos”

teste
Data representa um dia de luta e conscientização
Geógrafa e professora na UFFS, Paula Lindo
Por Amanda Mendes
Foto Divulgação

Hoje pode ser considerada uma data festiva, preenchida com presentes, flores e chocolates, mas a história por trás do Dia Internacional da Mulher, comemorado anualmente em 8 de março, marca a luta por equidade social entre homens e mulheres.

“E isso só ocorrerá quando houver o reconhecimento das diferenças biológicas, sem que tais diferenças se tornem pretextos para subordinar e inferiorizar as mulheres”, essa é a posição da geógrafa e professora na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Paula Lindo.
Em entrevista ao Jornal Bom Dia, Paula conta a origem da data, a importância dela nos dias atuais e os principais desafios para a conquista da equidade.

Jornal Bom Dia: Como surgiu essa data?

Paula Lindo: O Dia Interna cional da Mulher foi proposto pela alemã Clara Zetkin (18571933) em 1910, durante o 2ª Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, sem definir uma data precisa. Ela militava junto ao movimento operário, se dedicava à conscientização feminina e solicitou a criação de uma jornada de manifestações anual, a fim de paralisar as fábricas para chamar a atenção da sociedade às demandas das mulheres. No entanto, essa data é muito frequentemente associada a um incêndio que ocorreu em Nova Iorque, em 1911. Com as crises industriais de 1907 e 1909 houve reduções salariais dos trabalhadores e a oferta de mão de obra era imensa, dada a numerosa imigração proveniente da Europa.
 
Jornal Bom Dia: Além dessas, quais foram as primeiras demandas das mulheres?

Paula Lindo: Em fevereiro de 1908, mulheres socialistas dos Estados Unidos fizeram uma manifestação a que chamaram Dia da Mulher, reivindicando o direito ao voto e melhores condições de trabalho. No ano seguinte, em Manhattan, o Dia da Mulher reuniu 2 mil pessoas. No dia 25 de março de 1911 um incêndio na fábrica de roupa Triangle Shirtwaist em Nova Iorque, matou 145 trabalhadores, a maioria mulheres. A tragédia escancarou a exploração 
da mão de obra de homens, mulheres e crianças, que trabalhavam em jornadas de 12 a 14 horas, em semanas de seis dias inteiros, incluindo muitas vezes, as manhãs de domingo, com salários baixos.
 
Jornal Bom Dia: E no Brasil, como a data começou a ser inserida na luta das mulheres?

Paula Lindo:  A socióloga Eva Blay, afirma que no Brasil a luta das mulheres contra a ditadura de 1964 unia no dia 8 de março, mulheres que se autodenominavam membros do "movimento de mulheres", para reivindicar o retorno da democracia, denunciar prisões arbitrárias e evidenciar os desaparecimentos políticos. 

Jornal Bom Dia: Na sua opinião, qual a importância dessa data na luta pelos direitos delas?

Paula Lindo: O dia 08 de março é um dia importante para recordar mulheres que lutaram para romper com estruturas conservadoras, preconceituosas e excludentes da nossa sociedade. É uma data importante para divulgar e discutir dados e pesquisas científicas que revelam as desigualdades de gênero e raça, em temáticas como mercado de trabalho, educação, violência, etnia, participação política, trabalho doméstico, saúde, entre outros. É um dia para escancarar que em pleno século 21ª mulheres são mortas por parceiros e ex-parceiros que se consideram seus donos, para lembrar que 30% das mulheres sofrem violência sexual, para lembrar que mulheres ganham menos que homens, para dizer que diante de tantas desigualdades e dificuldades mais de 30 milhões de lares no Brasil são chefiados exclusivamente por mulheres, que batalham diariamente para sustentar seus filhos. É uma data marcante para dar visibilidade às lutas das mulheres, para defender a democracia e para combater o machismo. 

Jornal Bom Dia: Na sua opinião, como a sociedade observa essa data atualmente?

Paula Lindo: Nos últimos anos, observamos colegas, familiares, meios de comunicação associar o Dia Internacional da Mulher com distribuição de pequenos mimos e mensagens de “parabéns”. Essa data virou dia de mulher ganhar rosa. Eu compreendo que muitas gostam e sente-se felizes com isso e que muitos homens acreditam que mandar flores seja um gesto de generosidade, no entanto, isto significa uma banalização de um dia que deveria ser de luta e de conscientização. Me parece que nos perdemos e fomos envolvidos pelo “Dia Internacional de Como o Capitalismo Transforma Qualquer Ideal em Lucro", um dia onde o machismo cotidiano é disfarçado de gentilezas. 

Jornal Bom Dia: Para a senhora, quais são os principais desafios das mulheres:

Paula Lindo: Há inúmeros desafios para atingirmos a equidade entre homens e mulheres. Na política, por exemplo, a maioria dos cargos é ocupado apenas por homens, precisamos incentivar a participação de mulheres. Nossa sociedade precisa reconhecer que existem discrepâncias salariais, para posteriormente entender onde estão as disparidades e como superá-las. Temos que compreender que há muitas especificidades e necessidades diferentes entre mulheres negras, mulheres indígenas, mulheres quilombolas, mulheres ribeirinhas, mulheres trans, mulheres em situação de vulnerabilidade, mulheres de privilégios, etc. Precisamos aprender criar redes de apoio e de luta por nossos direitos. Precisamos dialogar sobre machismo, aprender identificá-lo e parar de reproduzi-lo. 

Jornal Bom Dia: Como superar esses desafios?

Paula Lindo: Acredito que em nossa sociedade, só superaremos os desafios que nos cercam por meio da educação. Afinal, ela é fundamental para a construção de uma nova percepção da responsabilidade e respeito. 

Jornal Bom Dia: Qual sua mensagem para o 8 de março deste ano?

Paula Lindo: Sou professora, geógrafa, mãe e uma cidadã que pensa nas relações sociais cotidianas. Ao circular pelas ruas e bairros de Erechim procuro compreender quem somos, por que somos, como nós nos reconhecemos, com o que nos identificamos, sob que premissas construímos e vivemos na nossa cidade. Em 2020, a população estimada de Erechim é de aproximadamente 106 mil habitantes, sendo que aproximadamente 52% são pessoas do sexo feminino. Mulheres que circulam, produzem e se apropriam do espaço urbano e rural do município. Mulheres mães, avós, crianças e adolescentes. Mulheres solteiras, casadas, heteronormativas, homoafetivas e transexuais. Mulheres chefes de indústrias metalmecânicas, professoras, enfermeiras, coletoras, delegadas, autônomas, manicures, médicas, terceirizadas, empregadas domésticas, jornalistas, diretoras, mulheres sem especialização e desempregadas. Mulheres brancas, negras, indígenas, senegalesas, haitianas. Mulheres de baixa, média, alta renda e sem renda. Mulheres chefes de família. Mulheres vítimas de violência (física e/ou psicológica). Mulheres solidárias, consumistas, escravizadas por uma cultura heteronormativa, eurocêntrica. Mulheres oprimidas e opressoras. Mulheres que desfrutam do lazer, que viajam, que ocupam o espaço público. Mulheres sem opção de lazer, que se confinam no espaço privado, que mal circulam pela cidade. Mulheres excluídas. Mulheres autossegregadas. Mulheres de diferentes posições políticas.

Somos muitas e com necessidades diferentes, mas o que nos unem é o direito à vida, direito ao respeito, o direito de andar pelos espaços públicos sem medo, independente das características (sexuais, raciais e econômicas) dos nossos corpos. Oito de março é uma data para pensar sobre o que nos diferencia e nos une. É dia de lutar, disputar espaços e conquistar direitos.

 

Leia também

Publicidade

Blog dos Colunistas

;