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Por quem os médicos morrem

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Alcides Mandelli Stumpf,
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

A trajetória de nossas vidas de médicos é muito semelhante. Diria que são vidas paralelas e convergentes, extremamente parecidas. Já no início, na adolescência, temos que transpor o rigoroso filtro do vestibular. O curso é longo e penoso. Conteúdo formado por matérias complexas desde o começo: anatomia, citologia, bioquímica, fisiologia e outras igualmente inesquecíveis.

Depois vêm os estudos dos sinais e sintomas das doenças, a visão conjunta das partes, além das cadeiras específicas referentes à cada órgão ou sistema do corpo humano. Por fim os respectivos estágios e práticas hospitalares.

Logo adiante, os primeiros passos da carreira:  a opção por um segmento ou especialidade. São anos de treinamento ou aprimoração. Desse modo se passa uma década ou mais de estudos e formação para depois estarmos disponíveis aos nossos pacientes ou ao mercado – como dizem alguns.  

A vida passa a ser um embate direto com a doença, sempre na defesa dos enfermos. Há necessidade de dedicação extrema aos cuidados físicos e mentais dos doentes. Essa luta intensa e ferina atravessa dias e noites e a nossa própria existência. Algumas vezes somos vencidos, pois a dor é inclemente e a morte inevitável.

Outras vezes somos alvejados neste campo de batalha que nos embrenhamos e vitimados por terríveis inimigos como vírus, bactérias, doenças crônicas e tumores. O vírus da pandemia Covid-19, por exemplo, abate centenas de médicos e paramédicos dedicados em todo mundo, inclusive no Brasil.

A população entende e aplaude a luta dos profissionais, o que gera entusiasmo e força para seguir no ofício.

Mas muitas vezes as pessoas não lembram dos médicos-heróis que sacrificam suas vidas e das suas famílias na luta quase inglória do dia-a-dia do pronto socorro, das UTIs, Postos de Saúde, Blocos Cirúrgicos e hospitais.

E assim, recordo que há poucos dias sofremos a perda do colega e amigo Dr. Dilvo Nazzari; médico dedicado que engrandeceu a categoria com imensa dedicação profissional.

Por último lembro os versos do poeta inglês John Donne, que serviram de preâmbulo ao grande romance, obra prima de Ernest Hemingway, ‘Por Quem os Sinos Dobram’.

"Nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo. Se um torrão de terra for levado pelas águas até o mar, a Europa ficará diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti".

Sim, os sinos dobram por todos nós, especialmente pelos médicos dedicados.

 

Médico e Membro da Academia Erechinense de Letras.

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