É frequente nos perguntarmos o porquê de algumas coisas e principalmente porque as coisas ruins acontecem. E olha que já aconteceram muitas estranhezas terríveis nesse mundo de Deus... e do diabo.
Vejam que muitas dessas tragédias podem ser creditadas às contas pessoais de alguns de forma indivisível, ou mesmo composta e associada. Assim, se escolhermos a dedo os três maiores facínoras da História, facilmente chegaremos às figuras de Mao Tse-Tung, Stalin e Hitler. O terrível trio foi responsável pelo assassinato de aproximadamente cento e quarenta e três milhões de pessoas em poucas décadas do Século Vinte. Certamente o período mais cruel da História, que jamais será alcançado por qualquer Pandemia.
Talvez alguém argumente que não faltaram causas geopolíticas, sociais ou raciais para tamanhos desmandos, além de entendimentos ideológicos e sistemáticos divergentes, que, de alguma forma, sustentaram as barbáries patrocinadas pela trinca maldita e seus milhares de seguidores igualmente criminosos.
Todos sabem que existem amplos painéis históricos e conjunturais explorados em vastíssima literatura e filmografias alusivas e esses nefastos personagens, seus malfeitos e de seus asseclas, além de tratados científicos que perpassam todos os conhecimentos, desde fundamentos da retórica até a física quântica. Nada, portanto, escapa à ciência e à informação.
Mas é importante recordar que os três anjos da morte eram gente. Seres humanos feitos de carne, osso e espírito como qualquer um de nós. Agiram pelos ditames da racionalidade peculiar a cada qual. Todos os três desfrutavam do livre arbítrio e - bem por isso – foram capazes de escolher o caminho torto, mesmo sob a transcendência do Ser primordial.
E aí chegamos a Santo Agostinho, importante teólogo e filósofo dos primeiros séculos do cristianismo. Nos prova o religioso, de forma sábia e cristalina, por argumentos, palavras e tratados filosóficos que perduram há séculos, que jamais foi Deus a origem do mal.
Quando Deus criou homem, animal racional, concedeu-lhe a liberdade de escolha nos limites da razão, E, no uso fruto dessa liberdade plena, alguns escolhem o mal.
Assim, abreviando grosseiramente os ensinamentos do Bispo de Hipona, podemos dizer que o mal está onde o bem não está. Isso aflora em determinadas circunstâncias – voluntárias ou não. Explico:
Quando acontecem doenças, sofrimentos ou catástrofes individuais ou coletivas advindas da natureza e não patrocinadas por ações ou omissões, como a atual Pandemia COVID – 19, devemos – segundo Agostinho – perceber de diferente modo. Embora exista uma desgraça de extensão universal, esta deve ser percebida pelos tementes a Deus, como uma espécie de chiaroscuro das pinturas de Leonardo e outros mestres renascentistas; contraste entre luz e sombra no quadro da humanidade. Também pode ser entendida como as dissonâncias sonoras das fugas e cantatas barrocas de Johan Sebastian Bach, considerado por muitos o pai da música.
O trágico resultado desse componente pictórico ou sonoro - se aceita a Pandemia como elemento da grande obra divina – mostrar-se-á a suprema alegoria de imensa utilidade prática, diferente das artes, resultando uma existência mais colorida e harmoniosa.
No meu entender, esta crise planetária foi gerada pela dissimulação, miséria e ganância; cresceu nas mãos da ignorância, descaso e arrogância; e no Brasil, particularmente culmina com desunião, ódio e revanchismo, semeados há tempos, levando ainda a maior incerteza e medo, numa sequência malévola de ações e sentimentos.
Assim, para os que creem em Deus, durante esta doença que representa a ausência da saúde, está a surgir a grande oportunidade de uma vida nova, onde a piedade, compaixão, solidariedade, fraternidade e cooperação formarão um novo mundo mais límpido, agradável, belo e digno.
Deus foi, é e sempre será a única resposta para o bem e tudo que de bom acontece.
*Médico e Membro da Academia Erechinense de Letras