Ao nascer, assumimos perante a sociedade, o compromisso implícito do cumprimento de uma série de regras, mais ou menos ordenadas que garantem o convívio pacífico e se possível harmonioso entre nós e nossos semelhantes.
Assim, de certa forma, para viver em comunidade, abrimos mão de muitos impulsos pessoais e ao mesmo tempo aceitamos ser protegidos de impulsos alheios, que poderiam provocar desgraças. Fica delegada ao Estado e às estruturas políticas e de segurança, a responsabilidade de executar a tarefa comum e abrangente de garantir a individualidade ante o coletivo.
Esse conjunto de meios que tem como fim a preservação da vida e minoração de dores de cada pessoa, funciona imperceptivelmente e foi exposto com maestria por pensadores como Hobbes, na sua versão do Contrato Social. Portanto, o ordenamento da sociedade civilizada pode ser entendido como o “controle dos mecanismos dos medos”. Ou seja: eu não te faço mal desde de que tu não me faças mal – e vice-versa.
Esse acordo tácito de convivência e tolerância mútua, devidamente hierarquizado, aparece como prescrição escrita nas leis e Constituição de cada país, e exige submissão às normas vigentes sob pena de sanções.
Montesquieu, por sua vez, concebeu o modelo de divisão do Poder entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Tal modelo visa o equilíbrio de forças entre Estado e cidadão. Essa fórmula vem sendo aceita e praticada pela maioria das nações. O arcabouço tripartite de ações e reações moduladas pela moral e ética, garante que o soberano não se torne um monstro (Levitã) que tudo pode, e faz que não haja anarquia desenfreada entre os cidadãos.
Por outra, o escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, cunhou o conceito do “complexo de vira-latas”, face à inferioridade que o brasileiro se coloca voluntariamente ante o resto do mundo. “O brasileiro é um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade! Não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”. Confirmando a premissa do memorável teatrólogo, os políticos pátrios conseguem, mais uma vez, avacalhar a filosofia e a ciência política universal.
A Covid-19 gera por si uma realidade de terrível insegurança. E os gentios governantes, legisladores e julgadores se encarregam de aumentar ainda mais as angústias e medos.
Hoje no Brasil, infelizmente constatamos que as três estruturas de poder que deveriam manter a casa em ordem, brigam entre si como legítimos vira-latas.
Assim, não há possibilidade de manter qualquer estrutura ordenada sobre três pilares quando alguns desses estão visivelmente podres e corroídos por ódios e corrupção endêmica.
De minha parte, que acredito e pratico a democracia, desejo vivamente a concórdia. Espero que os canastrões envolvidos na pantomina política atuem tempestivamente e de acordo com o bom senso, dispensando estrelismos bizarros.
Nesta hora, o que o público anseia é o eficiente enfrentamento à pandemia com o mínimo de perdas. Se desse modo não acontecer, será pior para todos nós brasileiros – vira-latas ou não.
Dr. Alcides Mandelli Stumpf
Médico e Membro da Academia Erechinense de Letras