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A Covid - 19 e os Macacos

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Alcides Mandelli Stumpf
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

 

Os macacos, com seu aspecto curioso e ar de inteligência, além de inquietos e contentes, não deixam de impressionar as crianças, que costumam dar máxima importância as suas irreverentes aventuras.

E essa edificante história que aí vai, me foi contada, quando ainda menino, por minha querida avó.

Dois macacos próximos à linha do trem conversavam alegremente. Um dos macacos, vendo o trem se aproximar, começa a dizer: macaco olha o rabo, olha o rabo macaco. O macaco troca de lugar retirando a cauda da linha férrea. Enquanto isso o trem passa e o macaco que avisara o outro, perde o rabo, pois ao invés de cuidar da sua própria cola, cuidara a do amigo.

Embora possa parecer inadequada, essa pequena e inspiradora fábula me ocorre cada vez com maior frequência nesses graves tempos de pandemia.

Atualmente observo diversos tipos de macacos espalhados por todo o mundo. Todos, invariavelmente, de olho no rabo do vizinho. Essa constatação vale para continentes, países, estados, cidades e até pessoas comuns - ou mesmo incomuns.

Parece existir um pacto universal de não se focar naquilo que faz parte das suas particularidades pessoais ou coletivas e, muito menos, das ações profissionais específicas. Muitos, no decorrer da enfermidade, insistem em adotar atitudes originais estranhas e um tanto alienadas ante a tenebrosa realidade.

A seguir demonstro esse modelo de comportamento com fatos irrefutáveis e fáceis de confirmar. Basta ligar a televisão ou acessar a qualquer mídia disponível que o amigo leitor vai se deparar com uma fauna simiesca das mais variadas e jamais imaginada, com destaque para os que seguem.

Certos políticos sempre ladinos, arvoram pendores de infectologistas e debatem a Hidroxicloroquina como se a droga fizesse parte de alguma facção partidária, ora contra, ora a favor de seus interesses inconfessáveis; alguns economistas incompetentes posam de epidemiologistas e criam expressões gráficas e curvas fantásticas que levam a lugar algum; determinados jornalistas, antes respeitáveis, se tornam sectários como qualquer golpista leviano.

Mas, na minha modesta avaliação, o título de Campeões das Estultices na grande mídia, fica por conta de soberbos cientistas políticos. Geralmente ridículos, palpitam sobre tudo e todos. Pensamentos trôpegos, pontos de vista esdrúxulos, teorias furadas e teses sem qualquer fundamento razoável, não passam de pura e insultante babaquice na vigência da crise.

Na raia miúda caseira como Blogs, Facebook, Twitter e outras, a opinião de intrometidos, grosseiros e maliciosos também não falta. Aliás, abunda.

A celebridade instantânea de anônimos na internet, profetizada pelo artista plástico Andy Warhol na década de 1960, de que “um dia, todos terão o direito de quinze minutos de fama”, hoje à plenitude. O único senão, é que os quinze minutos foram reduzidos a quinze segundos nos grupos de WhatsApp e Instagram. Nunca foi saciada de tal forma e tamanha intensidade a sede e a necessidade pessoal de reconhecimento público a qualquer custo.

Certamente, no entanto, até o final da doença estaremos saturados ou surtados de palpites sinuosos, obscuros e obtusos. Acreditem, isso também é real e faz muito mal.

Chegado o auge da desgraça, a ignorância se esbalda ao patrocinar um festival de besteiras somente comparável em dimensão e propagação a própria virose.

Pelo arrazoado acima, convido as pessoas mansas e humildes de coração e a mim mesmo, na condição de primata evoluído, a recolher o rabo juntamente com as opiniões aleatórias. Eu pelo menos, por precaução, daqui para diante, me manterei afastado de redes sociais e ferroviárias. Pretendo, a exemplo dos três macacos sábios do Japão, nada mais ver, nada mais ouvir e nada mais falar a respeito da sofrida realidade. Aguardarei até que definitivamente passe o trem da pandemia.

 

Médico e Membro da Academia Erechinense de Letras

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