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Investimentos que refletem economia de recursos e rentabilidade das áreas de produção

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O principal objetivo do trabalho é melhorar a qualidade e a disponibilidade dos recursos hídricos
Por Izabel Seehaber

Na região Alto Uruguai, diversas atividades ganham destaque no meio rural e são exercidas com muito rigor, sendo que precisam seguir cuidados específicos em prol da qualidade dos serviços e do cumprimento da legislação.

No âmbito da pecuária leiteira, um dos desafios refere-se ao volume de dejetos que é produzido diariamente pela atividade em áreas reduzidas. O manejo correto desses resíduos é parte importante do sistema produtivo, tanto para cumprir as medidas legais quanto para a melhorias dos processos, visando maior eficiência e qualidade.

Em sistemas de produção onde são gerados efluentes líquidos existe a necessidade de construção de tanques (esterqueiras) para a coleta, tratamento e homogeneização do esterco líquido proveniente da limpeza das instalações, contendo os dejetos dos animais e os resíduos de alimentação provenientes da lavagem. Saiba sobre os reflexos desse investimento nas propriedades.

Cenário de alerta

O biólogo e gestor de projetos da FAU – Agricultura e Meio Ambiente, Jean Budke, explica que a atividade leiteira é muito dependente de recursos hídricos, sendo que a água está presente em diversas fases da produção de leite, tanto na dessedentação animal como também no processo de limpeza das instalações, seja por água fria, visando lavagem de piso e outros, como também, com o uso da água quente para limpeza das salas de ordenha. “É um item fundamental, inclusive, para a irrigação das pastagens. Contudo, mesmo sendo um recurso imprescindível, ainda não é totalmente compreendida por grande parte do setor produtivo, sendo que, muitas vezes, não é feita a adequada compostagem, utilização e acondicionamento dos dejetos bovinos e, por consequência, os resíduos são despejados de forma inadequada nos cursos hídricos. Outro aspecto é que, muitas vezes, as salas de ordenha são construídas próximo às fontes de água e nascentes, o que representa que estão mal alocadas; e, muitas vezes, os animais tem acesso às Áreas de Preservação Permanente (APPs), nascentes e banhados, de forma irrestrita”, pontua Jean.

Segundo ele, isso compromete muita a conservação de nascentes e cursos hídricos, principalmente os riachos (sangas), tanto pela qualidade como também pela disponibilidade, pois acabam surgindo alterações no regime hidrológico.  

Pensando nisso, a FAU junto a outros parceiros, desenvolve projetos na região e outras áreas dos estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Goiás. O principal objetivo do trabalho é melhorar a qualidade e a disponibilidade dos recursos hídricos, por meio de tecnologias ambientais voltadas para o acondicionamento de dejetos bovinos, o isolamento de APPs e a utilização dos dejetos bovinos para a fertirrigação de pastagens e áreas de produção de grãos. Conforme a equipe técnica da FAU, a cultura do milho, por exemplo, adubada com dejetos animais corretamente maturados apresenta rentabilidade entre 20% e 68% maior em comparação com a adubação química. “Entre os pontos fundamentais está o fato de fazer com que os dejetos bovinos que são grandes causadores de depreciação da qualidade da água, sejam transformados de um problema ambiental a uma solução agronômica do ponto de vista da utilização para a melhoria da qualidade das pastagens”, explica.

Outro ponto essencial, de acordo com o biólogo, é diminuir a incidência de doenças, principalmente mastites e outros problemas decorrentes do excesso de umidade nas áreas de alimentação, por exemplo, por meio da inserção de pisos e outros tipos de revestimento que impeçam os animais de transitar nessas áreas. “Isso irá refletir na melhoria da qualidade da água que já é utilizada na propriedade mas irá chegar ao curso hídrico com uma qualidade diferenciada”, reitera.

O projeto iniciou em 2017 e é contínuo. Até o momento, foi implantado em aproximadamente 400 propriedades rurais.

Da teoria à prática

O gestor de projetos da FAU relata que, inicialmente é feito um mapeamento da propriedade rural, para que o produtor saiba aonde ele tem passivos ambientais que necessitam de uma atenção mais cuidadosa, como: nascentes, córregos, banhados e outros, e, ao mesmo tempo, é organizado o projeto da lagoa de dejetos para que ela fique localizada em um ponto que esteja de acordo com a legislação ambiental.

Na sequência, acontece a construção propriamente dita. A implantação está inserida em um sistema de lagoas vinculadas (duas em cada propriedade) para que haja um tempo de maturação dos resíduos e depois eles possam ser utilizados como fertilizantes nas pastagens e lavouras. “Num ciclo anual, é necessário retirar várias vezes os dejetos já compostados. Desse modo, a prática melhora pontos bem específicos: milhares de metros cúbicos de dejetos deixam de ir para os mananciais hídricos; milhares de reais deixam de ser gastos em fertilizantes (muitas vezes químicos) e os produtores começam a usar fertilizantes naturais/ biológicos, e, ainda, acontece a melhoria das áreas de pastagens ou de grãos, pela maior complexidade biológica que as áreas recebem. Ao mesmo tempo, amplia-se a quantidade de áreas de mata ciliar que são conservadas”, destaca.

Mudança de postura

Segundo o biólogo, a mudança de comportamento não acontece somente quando falamos sobre conservação dos recursos hídricos, mas sim, quando o produtor rural percebe uma oportunidade de negócio ao armazenar aquele dejeto e utilizá-lo nas lavouras e pastagens, ou seja, na própria produção. “Por isso, ele altera a postura quando nota que está perdendo a oportunidade de utilizar um insumo de grande valor agregado. Na mesma linha, quando ocorre a melhoria da sanidade animal, é notável a mudança de atitude de muitos produtores, que já estão sensibilizados e observam com naturalidade esses cuidados. Nossa intenção foi sempre desenvolver um projeto em que o produtor fosse o primeiro beneficiado e que a melhoria dos aspectos ambientais fosse uma consequência dessa mudança de postura, não um objetivo direto”, pondera Jean.

Durante todo o projeto monitorado pela FAU e entidades parceiras, foram registrados mais de 40 mil metros cúbicos de armazenamento em lagoas de dejetos. Em três ciclos por ano, eles somam mais de 120 mil metros cúbicos de material para fertirrigação ou fertilização de pastagens e lavouras.

 

 

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