Até onde você iria para alcançar seus sonhos? Quem você teria por perto? Como lidaria com os desafios? Essas são algumas perguntas que nem sempre paramos para refletir. Contudo, há pessoas que consideram esse assunto algo permanente. Um exemplo é João Victor da Silva Santiago, de 17 anos. Natural de Itacoatiara, no Amazonas, ele vivencia inúmeros desafios, entre os quais, a distância da família, sendo que há cerca de dois anos, vislumbrou uma oportunidade de investir em seus sonhos e mudou-se para o Alto Uruguai.
Atualmente, ele reside em Erebango e celebra as amizades conquistadas e as superações constantes.
Antes de chegar no município, João Victor residia na zona rural. Em entrevista ao Bom Dia, ele relatou que, ao passar para o segundo ano do ensino médio, teria que enfrentar muitas dificuldades para conseguir estudar. “Precisaria me dirigir de moto até uma vila onde teria escola. Além disso, a aula seria à distância, por meio de um programa que há no Amazonas. Contudo, há muitos problemas com isso, sendo o principal, a falta de energia e o acesso precário ao sinal de Internet”, afirmou.
Diante de tudo isso, ele queria encontrar um lugar com mais oportunidades, seja de trabalho ou de melhores condições para estudar.
Em janeiro de 2019, sua tia decidiu morar em Erebango após se casar. Como ela sabia da vontade do sobrinho de sair do Amazonas, o convidou para viajar junto a ela e as filhas. “Aceitei de imediato. A ideia é que ficaríamos por um tempo curto aqui e depois nos mudaríamos para Passo Fundo. No entanto, isso não aconteceu e vi meus planos “irem por água abaixo”. Minha tia resolveu retornar para o Amazonas, só que eu não queria voltar, pois, como já era o mês de agosto, teria muita dificuldade para encontrar vaga em outra escola. Como eu me congregava na Igreja Assembleia de Deus Palavra Viva, liderada pelo pastor Pedro Ferreira, ele me conhecia e sabia das minhas vontades. Com isso, conversou com meus pais e me convidou para morar com eles”, comentou.
Adaptação no RS
João Victor disse que, desde criança, seus pais o orientaram sobre a necessidade de lidar com a distância, considerando que o jovem havia comentado sobre meus planos e ideais. “Claro que, quando isso se efetivou, causou um sentimento diferente, pois somos acostumados a conviver com a nossa família, eles nos conhecem como ninguém e nós também. Contudo, aos poucos fiz amizades (inclusive mais do que na cidade onde residia no Amazonas), tanto na escola, como na igreja, na própria rua onde moro. Encontrei um acolhimento de todos. Houve, ainda, momentos delicados, como passar as datas comemorativas longe dos meus pais”, salientou.
Segundo João Victor, quando a família residia na zona rural, era ainda mais difícil a comunicação, pois lá não tem energia elétrica, nem água encanada, telefone ou sinal de televisão. “Tinha que esperar eles irem para a cidade para conversarmos. Desde o início desse ano, que eles se mudaram para a área urbana, ficou mais fácil de ligar e compartilhar os acontecimentos do dia a dia”, afirmou.
Em relação à mudança expressiva, a qual impôs que João Victor saísse de um extremo (Norte) para outro (Sul) do País, e precisasse se adaptar, ele pontua que os principais impactos estão relacionados ao clima (sendo que no Amazonas é muito calor e na região as temperaturas amenas a baixas, são predominantes); e a própria cultura e linguagem.
“A questão de alimentação também é diferente e sinto muita falta da farinha de mandioca, de apreciar peixes com mais frequência e algumas frutas como o cupuaçu”, acrescentou.
O dia a dia com a ‘nova família’
João Victor gosta muito de desenhar, assistir filmes e tem um apreço pelo ciclismo e natação. “Ao chegar em Erebango, adequei as caminhadas. Na casa onde moro não tem televisão e o único contato que tenho com o mundo virtual, é pelo celular”, comentou.
Na residência ele convive com o pastor e sua família. “A nossa relação é muito boa. Tive muita sorte em encontra-los, pois me tratam como um filho e tenho um respeito a eles como verdadeiros pais. Me acolheram com tudo que preciso, inclusive comida, roupa e moradia. Agradeço muito a Deus por isso. Só fico um pouco angustiado pois eles me sustentam e, por mais que tenho toda a atenção do mundo, sempre pensamos na independência (o contrário nos causa estranheza). Tenho muitos sonhos, enxergo muito longe”, reitera, demonstrando muita maturidade e o anseio em retribuir, num futuro próximo, o carinho recebido da família do pastor Pedro Ferreira. “Deus colocou pessoas maravilhosas em minha vida, que nos presenteiam com palavras de apoio e cumplicidade”, ressaltou.
Ensino
Com a pandemia, as escolas precisaram adaptar as condições de estudo. Para João Victor, uma das dificuldades é fazer pesquisa. “Sei que, com o advento da Internet, tudo ficou mais fácil para a maioria. Só que vale reforçar que a Internet não ensina, ela fornece a informação, algo pronto. Isso é complicado. Aos poucos percebemos que o ensino, de modo geral, se adaptou muito rapidamente para nos oferecer mais subsídios para a pesquisa e conciliar com a nossa realidade”, avalia.
O jovem conta que realiza os trabalhos e encaminha via WhatsApp. “Não há desculpas para não estudar. No início da pandemia foi algo mais complicado para todos, mas agora, toda a equipe de professores e direção tem desenvolvido um trabalho fantástico em planejar, enviar trabalhos, corrigir, em estar o tempo todo disposta a nos atender e esclarecer as dúvidas”.
Momento atual
Agora João Victor está concluindo o ensino médio e, assim que fizer a prova do Enem, poderá retornar para a terra natal e reencontrar a família após dois anos. “No próximo ano vou buscar trabalho (seja aqui na região ou no Amazonas) e depois pretendo ingressar na faculdade. O sonho é investir no meio artístico, seja na música, dança ou atuação em teatro, cinema”, reiterou.
Inspirações
Quando consegue o acesso à Internet, João Victor aproveita para estudar e também acompanhar a inspiração no campo artístico, o grupo pop Now United. “Eles me motivam a prosseguir nos sonhos”, frisa.
Ao mesmo tempo, ele comenta que a inspiração real são os pais. “Meu pai é um homem muito sonhador, persistente, tem muita fé”, engrandece.
Mensagem
“Acredite em Deus e em você mesmo, nas próprias capacidades, nos sonhos e objetivos. Se ponha à disposição de viver a vontade de Deus. Nenhuma dificuldade financeira, racial ou, qualquer outra situação, pode se tornar barreira suficiente se estivermos decididos”.
“Um filho que nos honra”
Veja a mensagem que os pais: Wanderley de Souza Santiago e Jacilvane Gaspar da Silva, encaminharam à João Victor:
“Temos muita gratidão por ter o João Victor em nossas vidas. Agradeço a Deus por tudo que tem feito, pelo cuidado do nosso filho. Ele é maravilhoso, tem sido motivo de orgulho, alguém que nos honra com seu caráter e obediência. Criamos ele com muito amor, carinho, aqui no interior do Amazonas e ele tem retribuído isso.
João Victor tem enfrentado muitas lutas, provações, porém, permanece a sabedoria e a fé. Nunca esqueço de quando conversei com uma professora de Erebango e ela contou de um episódio que marcou muito: no inverno, na sala de aula, ele estava passando frio, pois tinha somente roupas de calor e nós não tínhamos condições de mandar para ele. Diante disso, as educadoras se reuniram e ajudaram João Vitor. Definitivamente, Deus colocou anjos na nossa vida.
Sabemos, também, que todo esse dom, talento e humildade que ele tem, vem de Deus. Acredito que meu filho terá muito sucesso. Ele tem o sonho voltado à arte e nós incentivamos muito”.

“Um aluno fantástico”
A professora de matemática, Sarise Pissetti Melo, afirmou que João Victor chegou a pouco tempo e já ganhou o coração de toda equipe. “Nossa convivência física não foi muito longa, ele chegou mais ou menos na metade do ano passado e em 2020 a pandemia alterou todo sistema de ensino. Mesmo assim, vi no João um aluno fantástico. Conseguia ver um brilho nos olhos dele durante as aulas, um desejo de descobrir coisas novas, um olhar diferente do que estamos acostumados. Sempre muito educado e gentil, foi conquistando seu espaço e ganhando a admiração e o carinho de todos.
Sua trajetória de vida, principalmente escolar, não foi fácil. Uma realidade sofrida, da qual nunca sentiu raiva ou vergonha. Esse ano atípico atrapalhou um pouco nossas vidas e com certeza a do João também. Aulas on-line, plataforma, Whatsapp. Nem todos conseguem acompanhar e administrar isso, principalmente financeiramente, e o João novamente, foi só superação. Mesmo não conseguindo acessar a plataforma de estudos por problemas com Internet, nunca deixou de entregar uma atividade, sempre muito caprichado e organizado, um exemplo. Um dia ele mandou uma atividade de matemática que estava tão bonita que brinquei com ele que eu ia publicar o trabalho.
Tenho muito orgulho deste aluno e me sinto muito feliz de ter conhecido uma pessoa assim. Sei que independente do caminho que ele escolher, se aqui na nossa região ou longe, vai ser um sucesso. O mundo precisa de pessoas com o perfil e o carisma que ele tem”.