Essa é a melhor frase que define a relação entre o padre Valter Girelli e o gato Bello. Há seis anos o animal apareceu ao lado das churrasqueiras do Santuário de Fátima. Populares ouviram miados e avisaram o padre. “Eu não era acostumado com animais, sempre gostei e respeitei, mas com aquele pensamento: eu no meu canto e eles no deles”, contou o padre.
Quando informado sobre o gatinho perdido, Girelli pediu a ajuda de sua secretária, que gostava e possuía muitos bichinhos de estimação, e decidiu resgatá-lo. “Acho que sozinho ele não teria conseguido sobreviver, então, tomamos a decisão de adotá-lo. No início pensávamos que fosse uma fêmea, damos o nome de Brigite. Depois ele cresceu e descobrimos que ele era macho, aí optamos pelo nome: Bello”, revelou Girelli.
Só quem convive com um animal de estimação sabe a alegria que eles trazem para o dia a dia e com o padre não foi diferente. “Muita coisa mudou na minha vida após a vinda do Bello. Costumo dizer que “ele me derrubou do cavalo”. Sinto que ele harmonizou nosso ambiente de trabalho no Seminário e manifesta um carinho e ternura muito grande pelas pessoas, e por mim, e eu por ele”, destacou.
O gato é conhecido por ser um animal independente e autossuficiente, comparado a outros, como o cachorro. Mas isso não significa que não precise de atenção, carinho e cuidados especiais. Girelli conta que durante o dia, enquanto está realizando suas atividades, Bello fica sossegado, dormindo e passeando pelo santuário. Já durante a noite, o bichano tem espaço garantido no próprio quarto do padre. “Ele dorme comigo, nos meus pés. Quando eu saio ele aguarda meu retorno e sinto o quanto ele fica feliz com isso”, enfatiza o padre.
É claro que existem pessoas que não simpatizam com animais, e os respeitam, o que não está fora da normalidade. Mas às vezes acontece como o caso do padre Girelli: nem sempre somos nós que os escolhemos, mas eles nos escolhem. “Mudei muito como pessoa. Hoje tenho uma sensibilidade maior para com os animais e a natureza, como um todo. Se soubesse teria adotado o Bello uns 10 anos antes”, frisou.
Estudos realizados por psiquiatras da Clínica Médico-Psiquiátrica da Ordem, na cidade do Porto, em Portugal, cujos resultados foram publicados na revista científica Journal of Psychiatric Research, revelam uma pesquisa feita com 80 pacientes diagnosticados com distúrbio depressivo grave – metade mantendo contato com animais durante o tratamento, enquanto a outra metade seguiu sem adotar nenhum animal. A metade que se relacionou com pets mostrou, em sua totalidade, melhoras significativas em seu quadro, já a outra metade não revelou melhora alguma. “Tenho certeza que quem adota um animal, começa a gostar e observa o bem que eles fazem. Sei que o animal é usado para muitas terapias, mas independente da pessoa estar doente ou não, ele é um sujeito que nas relações familiares, traz harmonia, por isso faz bem demais”, ressaltou Girelli.
“Hoje compreendo São Francisco”
São Francisco de Assis é considerado o padroeiro dos animais, na religião católica. Indagado se compactuava com as ideias do santo, Girelli revelou que falou muito sobre ele em sua vida, mas nunca imaginava que fosse tão real. “Senti na pele. Chamavam São Francisco de louco por ele manter diálogo com os animais. Todos os dias eu converso com o Bello, e ele comigo. Nós nos entendemos muito bem e na medida em que o tempo foi passando, isso foi melhorando ainda mais. Hoje entendo tudo que ele quer e ele também me entende, eu sinto. Não tenho dúvidas, os animais fazem parte desta “teia” que é a criação. Quanto mais harmonia existir entre os seres humanos e os animais, maior será a fraternidade”, evidenciou Valter Girelli.
Companheiro de sempre
Recentemente, o padre enfrentou o coronavírus. Durante os 15 dias de isolamento, o gato Bello lhe acompanhou na quarentena. “Ele ficou o tempo inteiro comigo, só saía pela manhã para fazer suas necessidades. Isso foi algo inexplicável. Só quem possui um animal entende o amor que eles sentem por nós humanos”, conclui o padre.