- Cercam-me, neste momento, 6 milhões de acusadores. Mas eles não podem apontar para esta jaula de vidro e exclamar para o homem que está ali dentro: “Eu acuso!”. Suas cinzas estão nas colinas de Auschwitz e os rios da Polônia as espalharam por toda a Europa. Serei, portanto, o porta-voz desses mortos e é em nome deles que pronunciarei a acusação.
Foi com essas palavras que há exatos 60 anos, em 11 de abril de 1961, o promotor principal, Gideon Hausner, deu início à sua manifestação no julgamento de Adolf Eichmann, responsável por organizar a logística do Holocausto, deportando centenas de milhares de judeus para campos de concentração e extermínio durante a Segunda Guerra Mundial.
Realizado no prédio do centro social chamado Beit Haam (Casa do Povo), transformado em Tribunal, em Jerusalém, Israel, o julgamento do arquiteto da ‘Solução Final’ e chefe da Seção de Assuntos Judeus no Departamento de Segurança de Hitler foi determinante para a construção da memória da Shoá.
No total, 111 sobreviventes do genocídio prestaram testemunho, muitos quebrando 15 anos de silêncio. Em sua jaula de vidro blindado, Adolf Eichmann assistia a tudo impassível - enquanto milhares de expectadores espalhados pelo mundo acompanhavam o desenrolar do processo transmitido pela TV, que contou com mais de 2.000 mil provas e 3.500 páginas do protocolo da polícia israelense, publicizando os horrores do Holocausto.
Em Jerusalém, acompanhando o julgamento in loco também estiveram cerca de 400 jornalistas de todo o mundo, entre eles o brasileiro Zevi Ghivelder, então com 27 anos, enviado pela revista Manchete, e a teórica política e filósofa alemã de origem judaica Hannah Arendt, 55, representando a revista norte-americana The New Yorker.
É a partir da visão destes dois profissionais, que narraram ao seu modo os 56 dias de julgamento e a consequente condenação à morte por enforcamento proferida contra Eichmann em 15 de dezembro de 1961 (a qual foi levada a cabo em 1 de junho de 1962), que vamos mergulhar um pouco mais na história, que, ao final, contemplou o pleito do porta-voz dos 6 milhões de mortos, Gideon Hausner.
A atmosfera do julgamento
Embora menos célebre do que Arendt - que transformou sua cobertura no best seller ‘Eichmann em Jerusalém’ - , a presença de Zevi Ghivelder foi igualmente marcante - e também rendeu um livro ‘Missões em Israel’, lançado em 1994, pela editora Imago.
Em entrevista ao site Café História, em junho de 2020, o jornalista brasileiro compartilhou detalhes capazes de transportar o leitor para ‘dentro’ do histórico processo. No material disponível no endereço eletrônico https://www.cafehistoria.com.br/o-reporter-brasileiro-que-cobriu-o-julgamento-de-eichmann/, Zevi lembra que, apesar da magnitude do caso, Jerusalém teria vivido de forma ‘rigorosamente normal durante o julgamento’.
Sobre o espaço destinado à imprensa, o brasileiro conta que a área dos jornalistas se situava num grande salão com dezenas de mesas ocupadas de forma aleatória, dividindo espaço com uma lanchonete sempre concorrida. Já no recinto do tribunal, Zevi teve o assento ao seu lado ocupado por um francês, com quem trocou ideias, sem gravar o nome - vindo a saber mais tarde tratar-se do escritor Joseph Kessel, de quem já tinha lido o livro “L’Equipage”, que ganhou grande fama quando seu romance, “Belle de Jour”, foi adaptado para o cinema. Amizade, mesmo, pontua Zevi, ele só fez com o jornalista americano Robert St. John, que antes do julgamento já tinha escrito consistentes biografias de David Ben Gurion e de Gamal Abdel Nasser. De Hannah Arendt, a única visão se dera na lanchonete.
Sobre a figura de Eichmann, Zevi confessa que ao vê-lo pela primeira vez já estava familiarizado com suas fotos, observadas em páginas de jornais desde a captura do nazista em Buenos Aires, no dia 20 de maio de 1960. “Quando o vi na jaula de vidro, pela primeira vez, sua figura não me causou impacto. Durante as seis semanas em que o observei, passou quase todo o tempo fazendo anotações. Quando o depoimento de alguma testemunha o perturbava, torcia o nariz para o lado direito”, descreve.
Conforme lembra o jornalista brasileiro, Adolf Eichmann foi a única pessoa condenada à morte em Israel, desde que o país existe. E, embora se diga contra a pena de morte, Zevi Ghivelder pontua que a sentença proferida em Jerusalém não poderia ter sido diferente, considerando as condenações à morte do Tribunal de Nuremberg - julgamento realizado na Alemanha contra ‘top nazistas’, ao final da Guerra.
Arendt e a banalidade do mal
Se ler Zevi Ghivelder permite conhecer um pouco mais sobre a atmosfera do julgamento, acompanhar os relatos de Hannah Arendt leva o leitor a um contato maior com a essência de Adolf Eichmann, qualificado pela jornalista do The New Yorker como um burocrata medíocre,que encarnaria a ‘banalidade do mal’.
Para a polêmica filósofa - sobrevivente do Holocausto e que sentiu na pele as transformações do poder político do século XX -, o fanatismo ideológico seria uma das principais faces do mal no mundo moderno, arrestando consigo aqueles que ‘deixam de pensar por vontade própria’ - o que, convenhamos, dialoga de forma importante com a realidade do século XXI.
Ao longo de seus quase 70 anos, Hannah Arendt - que morreu em 1975 -, procurou, despida de tabus, promover o pensar, buscando entender o mundo como ele é, defendendo direitos individuais contra as sociedades de massa e os crimes contra as pessoas. Estudou, interpretou e explicou a formação dos regimes totalitários, que em essência buscam ‘desumanizar e tornar supérflua a condição humana’; abordou o tema dos refugiados (categoria na qual esteve inserida por mais de duas décadas); e, como dito, legou à humanidade o conceito de mal banal - que, mesmo contextado por estudiosos do Holocausto, merece a devida atenção.
Na obra ‘Eichmann em Jerusalém’, o alemão não é retratado por Arendt como um demônio; diferente da forma como os ativistas judeus o descreviam, e como ela própria esperava encontrá-lo. Conforme a autora, o nazista seria alguém ‘terrivelmente normal’, tendo orquestrado o assassinato de milhões de judeus de modo frio e indiferente. Um típico burocrata, que, em busca de aceitação/ascensão junto ao seu grupo ideológico, se limitava a cumprir ordens, descreveu - retratando a estratégia de defesa de Eichmann, que, aparentemente imaginava não estar ‘sujando as mãos’ atrás de sua escrivaninha.
Para Arendt, o arquiteto do Holocausto se apresentava como um funcionário pronto a obedecer vozes imperativas, incapaz de refletir sobre seus atos, exercitar a empatia ou fugir a clichês burocráticos, vivendo numa ‘realidade alternativa’, própria do regime do qual fazia parte. Agindo como ‘rebanho’, deixou de lado a capacidade de julgar, pensar ou refletir.
É nesse ponto que Hannah Arendt chama a atenção à confluência entre a capacidade destrutiva e a burocratização da vida pública, o que acabou por reforçar afirmação construída por ela em 1959: ‘Em nome de interesses pessoais, muitos abandonam o raciocínio crítico, engolem abusos e sorriem para quem desprezam. Abdicar de pensar também é crime’, sacramentou.
A forma de fazer justiça a essa situação seria, para Arendt, redefinir os fundamentos do agir e do julgar político.
Reflita, antes que seja tarde
A banalidade do mal, assim, se expressaria pela palavra seguida de ação - eliminando o pensamento reflexivo, vital desde Sócrates.
Semelhante mote, aliás, foi tratado com propriedade pelo franco-argelino Albert Camus em seu romance ‘O Estrangeiro’, no qual o narrador-protagonista Meursault, ‘aleatória e casualmente’, mata um homem sem sentir remorsos. Não havia, no assassino, nenhuma intenção particular ou motivo maligno candente. ‘Todo o meu ser se retesou e crispei a mão sobre o revólver’, justificaria Mersault. O crime apenas 'aconteceu'.
Quando se deixa de pensar, e se age pelo impulso, como fanáticos ideológicos ou, ainda, travestidos de ‘meros seguidores’ de ordens - seja contaminados pelas fake news das redes sociais ou pelo menosprezo ao próximo -, a chance de que práticas que levem ao sofrimento e à morte é real e perigosa.
Afinal, tais atos (e suas consequências) ‘simplesmente acontecem’.
Nem todas as vítimas, porém, terão um porta-voz para falar por elas e levar os culpados à condenação, como se deu com Eichmann.
Assim, antes de agir, pense a respeito de seus atos e palavras; depois pode ser tarde.
Saiba mais
A base legal das acusações contra Eichmann foi a Lei (da Condenação) dos Colaboradores Nazistas de 1950, sob a qual ele foi indiciado por 15 crimes, incluindo crimes contra a humanidade, crimes contra os judeus, e associação à organização criminosa. O julgamento foi presidido por três juízes: Moshe Landau, Benjamin Halevy e Yitzhak Raveh.