A erechinense Gabriela Szuchman, 26, tinha 15 anos quando a Agência Judaica no Brasil bateu à porta de sua casa para convidá-la a estudar dois anos em Tel-Aviv, Israel, com tudo pago, considerando sua origem judaica. Com autorização da família, ela foi - e se apaixonou pelo país, decidindo, depois de idas e vindas, se estabelecer por lá, mais precisamente, em Tel Aviv, onde trabalha há quatro anos na IBI-Tech (Israel Brasil Innovations), empresa que conecta o ecossistema de Inovação Israelense com o mercado Brasileiro, além de ter um segundo ‘job’ na Monetize Lab, marca global de Marketing Digital.
Todavia, depois de anos morando no Oriente Médio, no mês passado, pela primeira vez, Gabriela sentiu-se apavorada - e não foi em razão da covid-19, que Israel tirou de letra antes de qualquer nação do mundo, já tendo voltado ao (‘normal’), mas por causa do conflito entre o Hamas e o governo israelense, que deixou mais de 250 mortos em 11 dias de combate. Nesta entrevista, a jovem revela momentos de angústia, no entanto assegura estar feliz - e deve seguir por lá. Confira:
BD - Israel superou o desafio da covid-19, mas, logo em seguida, veio o conflito entre o Hamas e Israel. Como foram esses dias para você?
Gabriela - O conflito chegou de surpresa em Tel Aviv. Estava num bar com uns amigos e de repente ouvimos a sirene tocar. Cada vez que a sirene toca, temos 90 segundos para procurar abrigo e nos protegermos (dependendo da cidade o tempo pode ser de apenas 30 segundos, conforme a distância em relação à Gaza). Foi um pânico geral. Desde o primeiro dia, Israel, que estava cheio de vida, no alto do verão, parou. As crianças não foram para as escolas, os trabalhos voltaram a ser virtuais e, novamente, bares e restaurantes foram fechados, uma vez que os empregados estavam com medo de sair de casa. Eu não tive como evitar o pavor e o pânico, apesar de me sentir muito segura aqui e confiar no sistema de defesa israelense (The Iron Dome), que faz com que os mísseis explodam no ar. Dias depois que o conflito se intensificou, o Hamas avisou que seu principal alvo da noite seria Tel Aviv. Eu e meus amigos viajamos para outra cidade buscando um lugar protegido, pois no bairro em que eu moro, em Florentin, os prédios são mais antigos, portanto não tem bunker. Quando estávamos em casa, nos restava ir para as escadas nos andares do meio do prédio. Já nas edificações mais modernas, é obrigatório que haja um bunker subterrâneo ou um quarto dentro do apartamento com o triplo de espessura, garantindo mais segurança. Lembro que certo dia, no auge do conflito, caiu um míssel - já defendido pelo Iron Dome - na rua ao lado em que eu moro. Se houvessem pessoas passando por ali, poderiam ter ficado gravemente feridas.
O conflito afetou principalmente o estilo de vida que levamos por aqui, acredito que depois da Covid, o trabalho virtual se tornou comum, então isso foi tranquilo. Mas não pudemos sair de casa, no verão de 40 graus não pudemos ir até a praia, pois não era um lugar seguro. Saímos de casa apenas por necessidade e sempre atentos e com medo, afinal, a qualquer momento poderia tocar a sirene e teríamos que procurar abrigo imediato.
BD - Depois de 11 dias de combates, que causaram a morte de cerca de 250 pessoas, a maioria de palestinos, está em vigor um cessar-fogo assinado no dia 21 de maio. Você imagina que o pior já passou?
Gabriela - O conflito entre o Hamas e Israel é antigo. Sinceramente, não vejo possibilidade de um fim, infelizmente. A qualquer momento pode acontecer de novo.
BD - Sobre a covid-19, como está é a situação de Israel hoje?
Gabriela - A covid-19 já virou história em Israel. Desde o início de 2021 começamos a sentir que a normalidade estava voltando. Hoje, não existem mais restrições devido à pandemia. Todos os bares, festas e festivais estão abertos, não se usa mais máscaras, tampouco em lugares fechados. Teremos, até, a parada Gay no dia 25 de junho, que reunirá pelo menos 200 mil pessoas nas ruas.
BD - Qual foi o 'segredo' do país para voltar à normalidade?
Gabriela - Acredito que são vários os ‘’segredos’’ do sucesso da luta contra a covid em Israel. Primeiro, vamos falar das principais limitações que o país adotou durante a pandemia. Vejamos:
1- Desde o início, Israel decidiu lutar fortemente. Tivemos muitas restrições no começo. Policiais e soldados do exército estavam nas ruas cuidando e distribuindo multas de 1000 shekels para quem saísse do raio de 1km de casa, multa de 500 shekels àqueles que saíssem sem máscara. Caso o trabalho do cidadão fosse obrigatório, teria que ter licença registrada para se deslocar;
2- O país rastreou os celulares, então, se você tivesse que ficar de quarentena, não tinha como escapar. Além de rastrear os celulares, policiais vinham na porta de casa, te telefonavam e pediam para você ir até a janela mostrar que você realmente está no lugar onde confirmou que iria fazer a quarentena;
3- Se você estava perto de algum infectado pelo vírus, recebia na hora um SMS obrigando você a entrar em quarentena;
4- Quem chegasse do exterior iria direto para o ‘Hotel Corona’, com transporte especial do governo. Realmente não teve escapatória; era impositivo o respeito às regras;
5- Havia estações de teste de covid de graça espalhados nos centros de todas as cidades e você poderia pedir ‘’delivery’’ de teste, em caso de suspeita de contaminação.
Além disso, vale observar que Israel é o país número 1 em saber lidar com situações de emergência. Pela necessidade, desde a criação, a nação teve que ser criativa, rápida e eficaz para lidar com os problemas, sendo referência mundial em inovação e tecnologia. O sistema de saúde é fantástico, contando com os melhores profissionais e melhores tecnologias para tratamentos. De quebra, Israel está bem economicamente, então, pode se dar o direito de fazer parceria com a Pfizer e Moderna para receber a quantidade de vacinas necessárias com urgência. O país é pequeno, 9 milhões de habitantes, o que ajuda na distribuição das vacinas, o que foi feito de modo rápido e eficaz, com vários centros de vacinação abertos pelo menos 14 horas por dia. Era só ir, sem precisar marcar e você recebia a vacina. Eu me vacinei em fevereiro de 2021, mas, antes, recebi pelo menos 5 ligações do sistema de saúde me convidando para ir fazer a vacina.
BD - O que Israel aprendeu com a pandemia? E você, pode dizer o que mudou algo em sua rotina, ou visão de mundo, em razão da covid-19?
Gabriela - Voltamos a acreditar na força que esse pequeno país tem. Minha rotina mudou, sim. Durante a pandemia, foi difícil ficar tanto tempo sem poder viajar e ver minha família, meu trabalho me tirou para ‘’Férias não remuneradas’’ recebi como se fosse um ‘’seguro desemprego’’ do país que era 30% do meu salário então foi difícil de me virar. Durante o mês de novembro de 2020, subloquei o meu apartamento e fui morar no Bar de uns amigos que estava fechado. Acredito que isso também foi uma das coisas que aprendi, saber lidar com os problemas de uma forma criativa, rápida e eficaz.
Acredito que o mundo todo sofreu um impacto devido à covid-19, mas se não há desafio, não há mudança e o mundo estava vivendo no automático e na inércia - o que não faz bem. Tivemos que aprender a lidar com uma grande mudança global, perda de entes queridos e muitas limitações. Acho que foi o momento de ‘’olhar pra dentro’’, acalmar, aprender a dar valor as coisas e se reinventar.
BD - Depois de 12 anos, deve haver troca de poder em Israel, com a formação de um novo governo (reunindo partidos de diversos espectros políticos). Como você avalia esse momento?
Gabriela - É uma grande mudança e também muito, mas muito sensível. Por exemplo: sempre houveram partidos árabes, porém eles nunca estiveram no poder; só na oposição. É a primeira vez que um partido árabe fará parte do Parlamento.
O atual primeiro-ministro, Bibi Netanyahu, do partido Likud, se posiciona como centro/direita e assim que o país foi governado nos últimos anos. Naftalli Bennet, que possivelmente será nomeado o novo primeiro-ministro é do partido Yamina, que se posiciona como extrema direita. O partido Meretz, de extrema esquerda também ganhou seu lugar no parlamento, o que não acontecia há pelo menos 20 anos. Interessante também que o partido de Bennet, que será o possível primeiro-ministro tem o menor número de mandatos - 7. Bibi tem 32 mandatos e Yair Lapid do partido Atid tem 18 mandatos. Haverá vários corpos no parlamento, vários partidos, várias opiniões diferentes. O parlamento será composto por partidos de extrema esquerda, extrema direita e centro, que Israel não experenciou até hoje. Repito é muito sensível. A população está dividida em 50% e 50% - metade pensa que é uma catástrofe e defende que Bibi é o único que sabe defender o país e alavancar a economia e outra metade pensa que é o momento de união, de ouvir vários lados, outras opiniões e esperança de algo novo – que é especial partidos opostos terão que se unir para governar o país.