Apaixonados por facas, desde a infância. Essa frase traduz a motivação dos sócios Rafael Padilha e Felipe Straub Gomes para montar a Cutelaria Guarany, empresa que produz facas artesanais.
“A sinergia para desenvolver o negócio iniciou quando ambos perceberam o gosto, em comum, pelas peças artesanais, pois sempre que acontecia um churrasco com os amigos, apareciam com peças diferentes e únicas, gerando sempre muita curiosidade dentre todos, diferentemente, quando se utilizavam peças industrializadas”, conta um dos sócios, Rafael Padilha.
Início
Segundo Rafael, o negócio iniciou em meados de 2017, revendendo facas de diversas cutelarias do Brasil. “A Cutelaria Guarany surgiu por meio do colecionismo e da visão dos sócios em disponibilizar no mercado peças com uma identidade própria. A partir de 2020, a Cutelaria Guarany passou a produzir suas próprias facas e, também, tábuas artesanais. Em 2021, além da produção e comercialização de facas e tábuas prontas, iniciamos um trabalho de fornecimento de alguns insumos para a fabricação de facas, fomentando a produção de outros artesãos”, comenta.
Empresa
Atualmente, explica Rafael, a Cutelaria Guarany não é a principal, mas sim uma importante fonte de renda para os sócios da empresa, em que parte da família trabalha em dedicação exclusiva ao negócio, porém, o envolvimento no desenvolvimento de novas peças, novos mercados, fornecedores, e demais atividades é realizado por todos os membros da equipe.
Cutelaria
“Cutelaria é o ofício que tem por objetivo transformar uma matéria-prima em lâminas para corte ou perfuração. No nosso caso, transformamos aço, madeira, couro, chifres e ossos de animais em facas, espadas, cutelos, machados, entre outros. Cada peça é produzida pelas mãos de um artesão que realiza o forjamento das lâminas, desbaste, tratamento térmico, montagem dos cabos, confecção de bainha, acabamentos, entre as diversas fases de construção das facas. O resultado final é uma peça única e exclusiva que servirá para funções como uso no churrasco, caça, atividades campeiras, entre outros fins”, explica.
Identidade própria
Ele afirma que a grande motivação para a criação da Cutelaria Guarany foi a vontade de disponibilizar peças com identidade própria e com inspirações históricas. “Referências familiares sempre foram muito importantes, pois as facas sempre estiveram presentes no meio de convívio, sendo no churrasco, como ferramenta de trabalho e, também, pelo fato de o avô de um dos sócios ter sido guasqueiro e ter produzido bainhas para uma afamada cutelaria da região das Missões. E, mesmo após esta cutelaria ter sido extinta, as facas ainda são muito procuradas pelos colecionadores e muito valorizadas pelas pessoas que entendem o valor das peças artesanais. Portanto, a motivação também é deixar um legado para as próximas gerações, fazendo com que ao longo dos anos a marca seja ainda mais reconhecida e continue despertando o desejo dos admiradores da cutelaria artesanal”, afirma.
Local de trabalho
O principal local de trabalho da Cutelaria Guarany é na loja física, conta Rafael, no centro da cidade de Erechim, e a produção ocorre na cutelaria, onde se tem a disponibilidade de todos os insumos e ferramentas para a produção.
Produção
Ele explica que entre as principais ferramentas para a produção das facas, pode-se citar a forja a gás, que aquece o metal para ser maleado e, também, para o tratamento térmico; as lixadeiras de diversos modelos e diferentes funções para desbaste, modelagem e acabamentos; serras para corte de madeira e demais materiais; bigorna e marretas para o trabalho de forjamento; prensa hidráulica; tanque de óleo para resfriamento no tratamento térmico; máquinas de costura para as bainhas, entre outros. “Normalmente algumas ferramentas não se encontram no mercado e são desenvolvidas pelo próprio artesão, isso devido à cutelaria artesanal possuir características próprias no processo produtivo”, disse.
Materiais
Os materiais para a produção das facas artesanais possuem diversos critérios para serem escolhidos, principalmente, nos quesitos de qualidade e de dimensões. “O aço utilizado pela Cutelaria Guarany é sempre material novo e com procedência, isso permite que se tenha segurança da composição química do aço e permite também que se possa obter as melhores características que o aço possa oferecer após o tratamento térmico, atingindo a dureza e resistência mecânica adequada a cada tipo de faca, proporcionando ótima retenção de fio. Aço reciclado é utilizado nas facas feitas de antigas tesouras de tosquia, limas ou grosas”, destaca.
Cabos e bainhas
“Os materiais para cabos e bainhas são adquiridos de fornecedores de madeira, couro, chifres, ossos, entre outros, normalmente situados em outras cidades. Sempre prezamos por adquirir materiais que são artesanalmente produzidos e ecologicamente corretos, sendo uma normativa a proibição de peças de origem animal ou vegetal ilegais”, observa.
Arte milenar
Rafael explica que a cutelaria é uma arte milenar de que se tem registro desde a Idade da Pedra Lascada, em que ferramentas para corte e perfuração eram confeccionadas de pedras e ossos. “Com a evolução da humanidade, a descoberta dos metais permitiu com que a cutelaria evoluísse, tornando-se primordial, seja para utilizar lâminas como ferramentas, armas de defesa e até de guerra. Atualmente, existem alguns artesãos que produzem facas com um resgate histórico fundindo o minério ferro em fornos de barro, utilizando forjas a carvão, e ferramentas totalmente manuais”, destaca.
E, acrescenta, “por outro lado, a evolução tecnológica permitiu com que a cutelaria evoluísse e pudesse ter maior produtividade e qualidade, por meio da disponibilidade de materiais de diversas características, máquinas modernas e ferramentas de melhor desempenho”.
Troca de experiências
Segundo Rafael, além dos recursos tecnológicos para a produção, o que evoluiu muito foi a troca de experiências entre os profissionais da cutelaria, em que novas gerações optam por compartilhar os conhecimentos, ao invés de escondê-los, o que colabora com uma evolução técnica da cutelaria nacional. “Há alguns anos, o cuteleiro, muitas vezes, era visto como um mago, por obter certas características em suas lâminas, trabalhando escondido e não revelando os processos de fabricação das peças. Atualmente, a ciência da metalurgia desmistificou muitas crenças e trouxe o conhecimento técnico a favor da cutelaria”, afirma.
Mercado
Ele observa que o mercado das facas artesanais se encontra muito aquecido e em ascensão, e cada cutelaria encontra o seu lugar, seja com peças mais simples, de menor custo, ou com facas mais elaboradas. “Na maioria das vezes os clientes, deste mercado, são colecionadores, portanto, a variedade de modelos é muito importante para fidelizar clientes, bem como a produção de peças de acordo com um projeto ou ambição do cliente”, ressalta.
Brasil e mundo
A empresa fornece facas a colecionadores de todos os estados do Brasil e, frequentemente, faz exportações, sendo o principal mercado externo os Estados Unidos, onde a faca artesanal brasileira tem um vasto mercado a ser explorado.
“A região de Erechim vem se desenvolvendo bastante no mercado de facas artesanais, e acreditamos que temos um papel importante no desenvolvimento deste mercado em nossa cidade. Trata-se de um mercado que gera uma importante receita, empregos e renda, seja para os artesãos, fornecedores, lojas, revendedores, entre outros”, comenta.
Rafael ressalta que, neste mercado, se costuma salientar que não existe concorrência, mas sim formação de parcerias, em função do perfil dos clientes. “Que podem se agradar por facas produzidas em outras cutelarias, com estilos diferentes, mas mesmo assim, não deixará de adquirir nossas peças, pois quem coleciona gosta de ter facas de diversos artesãos em seu acervo. Portanto, a Cutelaria Guarany preza pelo desenvolvimento do ramo em nossa região”, salienta.