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Crise hídrica: preocupações e possibilidades em âmbito regional

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Rio Leãozinho é um dos que abastecem o lago de captação da barragem da Corsan em Erechim
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Por Izabel Seehaber
Foto Divulgação

Além de toda situação pandêmica causada pelo Coronavírus, o país vivencia outra fase desafiadora no que se refere a questão hídrica. Na região Alto Uruguai, isso não é diferente.

Para compreender um pouco mais desse cenário, os motivos relacionados à escassez de água e o que pode ocorrer, em breve, caso a realidade não se altere, o Bom Dia conversou com o coordenador do curso de Ciências Biológicas da URI Erechim, professor Vanderlei Secretti Decian.

Segundo ele, as chuvas expressivas que podem ocorrer até o fim deste mês, ainda não serão suficientes para reverter a crise hídrica a nível de região Sul/Sudeste. No Rio Grande do Sul, as barragens, em sua maioria, estão com o nível muito baixo, o que demanda índices pluviométricos acima dos históricos para poder gerar certa normalidade. “Sabemos, também, que haverá a atuação moderada do efeito do fenômeno La Niña para a região sul, principalmente nos meses de outubro, novembro e dezembro, provocando irregularidades na quantidade e precipitação na região sul. Diante disso, pode-se prever que não haverá reservação e enchimento dos reservatórios de forma a suprir as demandas de água para as diversas atividades e usos múltiplos”, destaca o biólogo.

Fatores relacionados

Sobre os motivos das estiagens e diminuição das chuvas no sul do Brasil e que afetam a Bacia do Rio Uruguai, há várias especulações. Segundo o docente da URI, entre as quais, estão os desequilíbrios ambientais, as mudanças climáticas que afetam o regime das chuvas, a falta de eficiência na reservação de água com construção de mini-barragens e açudes, além do efeito já conhecido do La Niña, que ronda nestes últimos anos o sul do Brasil.

Reflexos e consequências

Diante das irregularidades das chuvas para o fim deste ano e entrada de 2022, além da diminuição dos volumes dos reservatórios, professor Vanderlei cita que há dois problemas associados. São eles: a capacidade de geração de energia elétrica e de fornecimento de água para o desenvolvimento de atividades essenciais, como consumo humano e animal, bem como para as atividades industriais, afetando de diversas formas a retomada da economia ainda fragilizada pela pandemia do Coronavírus.  “Do mesmo modo, é evidente com um expressivo crescimento no acesso a tecnologias e equipamentos, tanto no meio rural como urbano, que demandam por energia elétrica. Todos estes novos equipamentos, mesmo que mais eficientes com a melhora e eficiência energética, produzem uma demanda por geração de energia para o cotidiano da vida humana, bem como para poder exercer suas finalidades”, assinala.

Possibilidades e investimentos

Cabe salientar, afirma o professor, que devem ser buscadas novas alternativas sustentáveis para a produção e diversificação da matriz de energia elétrica, desonerando a extrema dependência da hidroeletricidade e apostando em ampliação de energias produzidas com a captação de energia solar, eólica e nuclear.

No gráfico abaixo pode-se observar o exposto em relação a matriz de energia elétrica em âmbito de Brasil e de Subsistema Sul. “Relativo ao Subsistema Sul observa-se a baixa diversidade e pouca contribuição de geração de energia elétrica eólica e nuclear. Em contrapartida há um incremento significativo de geração de energia elétrica gerada a partir de termoelétricas, com alto custo e que ocasiona o acionamento das bandeiras encarecendo o valor a ser praticado pelas concessionárias”, explica.

O pesquisador observa que os indicadores apontados sobre o Volume Útil dos Reservatórios (%) a nível de sul do Brasil, bem como a matriz energética, dependente, para nossa região, em sua maioria da hidroeletricidade e da termoeletricidade, são muito preocupantes. “Digo isso, com base na dependência de se ter um bom volume de água nos reservatórios, o que pelos dados apresentados não irá se concretizar, pela baixa quantidade existente no momento, bem como pelas previsões climáticas para 2021 e 2020, e, ainda, o aumento nas demandas industriais”, salienta, pontuando que, outro fato que preocupa é a dependência da termoeletricidade que gera custos econômicos e ambientais em sua geração, fazendo com que a energia se torne mais cara.

Eventos El Niño e La Niña

Segundo Vanderlei, a questão de deficiência hídrica a nível de sul do Brasil tem uma dependência cíclica com os eventos El Niño e La Niña, ou seja, é preciso estar preparado para que, a cada cinco ou oito anos, ocorra a ação mais expressiva do La Niña, atuando com diminuição dos índices de chuva. “Um problema maior é a extrema dependência da vazão natural dos mananciais de abastecimento dos rios, ou seja, necessitamos do que os rios nos fornecem, sem uma maior preocupação em regulação de vazão e armazenamento de água (reservação) para períodos de estiagens. Eles, ciclicamente, irão ocorrer. Precisamos aprender a trabalhar como o tempo e com o clima, gerando forma de precaução para momentos de estiagem”, orienta.

Complicações em um futuro próximo e medidas possíveis

Quando se pensa em problemas que a falta de água pode causar, eles podem ser para um futuro muito próximo. O coordenador de Ciências Biológicas justifica que, é sabido que no decorrer de 2021 houve a necessidade de algumas empresas de Erechim lançarem mão do uso de água com abastecimento por meio de carros pipa, para não haver a paralização de suas atividades econômicas. Da mesma forma a Corsan, como concessionária de fornecimento do serviço de água, teve que lançar mão de bombeamento quase que contínuo por mais de seis meses do manancial do Rio Cravo, com altos custos no consumo de energia elétrica para acionamento das máquinas. “Nesse sentido, algumas alternativas propostas pela AGER, URI e demais entidades, preocupadas com estes problemas, na audiência pública realizada em agosto, propôs a inserção do edital público em andamento, para construção de reservatório para armazenamento nos períodos de estiagem. A capacidade, de 5.000.000m³, é capaz de suprir por aproximadamente cinco meses de estiagem o município de Erechim”, acrescenta professor Vanderlei.

Conservação de água no meio rural

Outra proposição foi a implementação de práticas de conservação de água no meio rural, com recomposição das Áreas de Preservação Permanentes (APPs) nas margens de rio, tratamento de efluentes e auxílio técnico e financeiro aos agricultores nos locais que são considerados produtores de água.

Ao mesmo tempo, um ponto a ser considerado é quanto ao desperdício de água, que deve ser levado em conta para minimizar os reflexos negativos da escassez hídrica.

 

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