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Opinião

O Sapateiro de Bruxelas: Fábulas e História

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Alcides Mandelli Stumpf,
Por Alcides Mandelli Stumpf
Foto Rodrigo Finardi

Em sua live semanal, o Sapateiro de Bruxelas, fala para o grupo do cafezinho virtual sobre La Fontaine, célebre poeta e fabulista francês, que viveu no século XVII.

Conta-nos que o criativo narrador fez fama e amizade junto a Molière, Racine e outros contemporâneos notáveis. Publicou “Fábulas Escolhidas”, inspirado em Esopo, escritor da Grécia antiga, reconhecido como o pai da fábula. Lembra que fabulas são historietas que tratam de vaidade, estupidez e maldade, nas quais os animais falam e agem em situações específicas, à semelhança dos humanos. Em geral são feitas de linguagem simples e guardam forte cunho moral. Os relatos curtos deixam mensagens edificantes de fácil assimilação, e alcançam especialmente as crianças de todo o mundo – nos explica o mestre em suas palavras preliminares.

Diz mais: cada ente ou bicho descrito representa um estereótipo no imaginário coletivo. Para dirimir dúvidas, apresenta alguns exemplos de domínio popular como A cigarra e a formiga, na qual a primeira virou sinônimo de folgazã irresponsável, enquanto a segunda leva fama de trabalhadora prevenida. Também há outros clichês, como a raposa, conhecida por sua habilidade em passar os outros para trás; o lobo, sempre cruel e injusto; e por último, o dócil cordeiro, vítima invariável dos outros ou do destino.

Nada mais corriqueiro, portanto, nos dias atuais, especialmente na esfera política federal, que nos deparar com certos tipos especiais que transitam frajola pela Câmara e Senado e associá-los a algum ser fabuloso – assevera o calçadista.

Tomado de suma e súbita solenidade, assim do nada – como diz minha filha mais nova – o artesão traz à baila uma célebre frase do sociólogo inglês, W. I. Thomas: “Se os homens definem situações como reais, elas são reais em suas consequências”.

E evolui em profundo devaneio: - Quando identificamos certas figuras agourentas, seus feitos perniciosos e nada fazemos; quando o pensamento comum se submete à força de leis urdidas por trapaceiros profissionais; ou mesmo quando nos deixamos conduzir como manso rebanho pelos editoriais pervertidos da grande mídia abutre; optamos por “definir para nós mesmos uma péssima situação real”.

Dessa forma posta e aceita por todos vocês, meus amigos do café, fica muito fácil concluir que foi a partir do passivo consentimento ovino que todos nós chegamos ao nefasto status quo em que ora nos encontramos. As inexoráveis consequências – igualmente reais – abalam as mais elementares regras de convívio civilizado e fazem mal ao ânimo coletivo – arremata o artífice.

Na prática, tornou-se normal na luta animalesca pelo poder - particularmente nos debates da atual “CPI da Pandemia”, também conhecida por “CPI dos três patetas” - alterar fatos com argumentos inverídicos e moldar verdades científicas aos gostos inquisitórios.

Tais “verdades”, bancadas pelas raposas, antas e gazelas da vez, produzem triste fábula que a perseverar, aponta um futuro escabroso ao cordato povo brasileiro, personagem débil e facilmente manipulável dessa triste historieta. Hoje, apáticos, vivemos uma medíocre aventura que logo ali pode se transformar em tragédia - completa o velho sábio.

No momento, por vingança e deleite, precisamos deixar de agir como cordeiros e resistir aos grandes falaciosos, fazendo-os cair por suas próprias falhas morais e de caráter. Ainda conseguimos sentir emoção e desprezo frente à maldade e a hipocrisia. E bem sabemos que somos maiores, mais numerosos e melhores que esses trastes – brada o calçadista.

Como nas fábulas de La Fontaine, os fracos e justos se alegram quando ao final os desonestos e depravados perdem seus mandos, pelos, garras e dentes. Mas, acreditem, não será fácil chegar à derrocada da enorme e aparelhada matilha que persiste sedenta do erário. Teremos de secar, sofrer, agir e votar muito antes do final feliz da nossa legítima História – conclui o pomposo Sapateiro de Bruxelas.

 

Médico,

Membro da Academia Erechinense de Letras,

Vice-presidente da A.A. da Biblioteca Pública do RS.

 

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