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As aventuras de um cabeludo de chinelo

Aos 18 anos, o erechinense Eduardo de Godoy Psidonik resolveu refletir sobre a existência e decidiu viver ‘fora da caixa’. De mochila nas costas, pegou a estrada e viajou pelo País. Ao BD ele conta sua experiência.

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“Eu nunca soube exatamente como essa ideia surgiu. Nunca fui do tipo de pessoa em que a vida era v
Por Salus Loch
Foto Arquivo pessoal

Com a proposta de ‘se encontrar’, o erechinense Eduardo de Godoy Psidonik resolveu refletir sobre a existência e decidiu viver ‘fora da caixa’. O primeiro passo nesta direção veio com a realização de um mochilão, experiência que deu vida ao perfil no Instagram @Cabeludo de Chinelo. É a história dele, narrada pelo próprio autor, que contaremos a seguir. Confira:

“Eu nunca soube exatamente como essa ideia surgiu. Nunca fui do tipo de pessoa em que a vida era viajar, muito menos viajar sozinho. Não fazia grandes planos, nem acreditava que todos meus sonhos iriam se realizar (nem sequer arriscava em sonhar). Mas eu queria viver, valorizo muito nosso tempo, especialmente a juventude, que é a maior causadora de arrependimentos em todos nessa terra. Então cheguei ao fim do ensino médio, aquele momento em que você só quer respirar e processar tudo que aconteceu... mas o mundo não vai ser paciente assim. Começam a te exigir respostas, planos, objetivos; você mal começou a caminhar sozinho e já querem que decida o resto da sua vida. Eu não estava pronto – talvez até hoje não esteja – não tinha uma grande vocação, emprego dos sonhos ou que anseio por um diploma. Eu queria viver, experimentar coisas diferentes até me encontrar, e isso nunca aconteceria se eu continuasse parado. Então o sonho começou: vou fazer um mochilão. 

 

II

Pra muitas pessoas o que aconteceu a partir daqui pode parecer loucura e irresponsabilidade, e eu lhes respondo: foi mesmo. Eu poderia muito bem ter saído viajar tranquilamente com segurança, planejamento e objetivos; mas assim seria fácil demais. Trabalhei 2020 já pensando em economizar para essa viagem, eu tinha apenas um objetivo: viajar o máximo possível. E para isso teria que economizar. Foi aí que abri minha mente para métodos “alternativos”. Se for analisar apenas no necessário, uma viagem é definida por 3 coisas: alimentação, estadia e transporte. Meu orçamento era baixo, então precisava me adaptar a esses obstáculos para que pesassem o menos possível em meu bolso. Mas como se resolve o transporte? A gasolina já está a R$ 7,00 e eu sequer tinha um carro... mas será que eu precisava de um? 

III 

Eu viajei de carona. Não sei se foi imprudência, porém viajar com um desconhecido era um preço que eu estava disposto a pagar para seguir meu sonho. O medo sempre vai existir para qualquer desafio da nossa vida, mas é preciso ao menos tentar. E isso é o que eu recomendo, não digo que todas pessoas deviam largar seus carros e apenas viajar de carona, entretanto acredito que devia ser uma experiência vivida por todos. Você ficará impressionado com a beleza da humanidade, quando pessoas se ajudam sem esperar nada em troca. E sobre as caronas, não precisei ficar no sol durante horas com uma placa de papelão na BR esperando pelo meu salvador (por mais que isso também funcione). Desenvolvi um método um pouco mais eficiente, ficava em postos de gasolina e conversava com todos os viajantes que passavam por ali, até conseguir uma carona. Pasmem, mas fui de Erechim até o Rio de Janeiro assim. Todavia, como resolver a estadia? O que fará quando chegar em seu destino? Vai montar uma barraca e dormir por ali mesmo? Sim, foi exatamente o que fiz. 

IV

Eu acampei. Levei comigo uma barraca e, assim, pude ter um lugar pra dormir aonde fosse. Talvez tão perigoso quanto pedir carona, entretanto nunca tive problema algum em meus acampamentos. É um tanto quanto desconfortável e nas primeiras noites fiquei paranóico imaginando que alguém poderia surgir no meio do nada, mas o mundo não é tão perigoso quanto pensamos. De fato, escolher um lugar seguro e movimentado favorece sua proteção. Esse é mais um motivo para pegar caronas em postos de gasolina, porque caso não consiga no dia, vai poder acampar em um lugar com banheiro, internet e movimento.  

Comunicação é a chave, contar sua história e esclarecer seus objetivos garantem um laço de confiança junto às pessoas que você encontrar. Afinal, todos temos sonhos. Depois de um tempo até se tornou fácil acampar, porque os dias eram tão intensos e cansativos que no escurecer o corpo desligava na primeira pausa. Contudo, o acampamento foi apenas um dos meios que encontrei para conseguir estadia. O mais significativo de todos foi o “voluntariado”. Poucas pessoas sabem, mas é possível trabalhar em pousadas em troca de acomodação. As minhas favoritas foram os “hostéis”, espécies de albergues em que os ambientes são compartilhados, garantindo uma experiência social marcante. Foi dessa forma que pude morar 2 meses em Curitiba, 2 meses em São Paulo e 2 meses em Florianópolis. Recomendo a todos a experiência de um hostel, pois graças a essa vivência conheci pessoas do mundo todo, muitas culturas, amizades incríveis, e a melhor parte, aprendi inglês e espanhol apenas na convivência. Além desses 6 meses de voluntário, também fiquei muito tempo em casa de amigos que tinha pelo país, alguns que conheci na viagem e até mesmo desconhecidos que ofereceram o convite. 

VI 

Entre caronas, acampamentos e muito ajuda no meio do caminho, viajei durante 1 ano boa parte do Brasil. Comecei por Florianópolis - atualmente meu lugar favorito no mundo. Determinados destinos visitei pela curiosidade, como as capitais onde pude ter a experiência de viver em uma cidade grande. Passei muito frio em Curitiba. Fiz trilhas em Florianópolis. Conheci muita gente em São Paulo. Porém, teve lugares que visitei simplesmente por receber algum convite e abrigo para dormir. Assim foi minha semana em Santos, algumas cidades do interior do Paraná e Santa Catarina, e, é claro, Rio de Janeiro. Em cada cidade pude conhecer cenários únicos e construir memórias incríveis, porém além da jornada ou destino, para mim a viagem se trata das pessoas, e como cada uma delas marca em sua história, e vice-versa. 

VII

O mochilão teve muitos momentos incríveis. É difícil dizer qual foi a melhor parte entre tantas que experimentei nesse 1 ano de viagem. A maior lição que tirei de tudo isso, é que tem coisas na vida em que basta você começar. Eu não planejei uma rota, não tinha objetivos, nem sabia o que me esperava. Eu simplesmente queria uma aventura, e fui atrás dela, no caminho foram surgindo oportunidades e fui me permitindo ao máximo viver todas que estivessem ao meu alcance. Não me considero especial por isso, sempre gosto de lembrar que todos são capazes de fazer isso, não precisei ser o melhor, o mais inteligente, mais bonito ou mais forte, o único mérito foi ser louco o suficiente de sonhar em viajar o mundo, e a audácia de buscar esse sonho. Claro que envolvem circunstâncias que facilitaram minha iniciativa, mas acredite, o mundo não é assutador como imaginamos, é um lugar lindo com pessoas incríveis em todos os cantos. Enquanto você estiver dando seu melhor, vai atrair isso para si também. 

VIII 

Passei os últimos 3 meses em Erechim, minha cidade natal, precisava de um tempo para processar tudo que aconteceu nesse último ano, porém já tenho planos de voltar para a estrada. Neste mês de maio começo mais uma aventura, com a meta de conhecer todo nordeste brasileiro, volto apenas no fim do ano para comemorar as festas com minha família. Nas redes sociais posso ser encontrado como cabeludo de chinelo, maneira como sou chamado por muitos lá fora. Basta me seguir para entrar comigo nessa aventura.

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