A continuidade da agricultura familiar depende da sucessão familiar. 70% dos alimentos produzidos no país são pelas mãos dos agricultores familiares. E no Rio Grande do Sul, segundo dados do Ibge, 30% das propriedades não tem mais sucessor. Nos outros 70% existem jovens, mas não significa que eles vão permanecer no campo.
O coordenador do Sutraf-AU, Douglas Cenci, destaca que segundo alguns estudos feitos pela Uergs, mais de 30% das propriedades do Alto Uruguai também não tem sucessor, o que acompanha o cenário gaúcho. “Temos percebido que há algumas atividades que tem propiciado que os jovens consigam permanecer, como é o caso das agroindústrias. Boa parte das agroindústrias da região tem um jovem envolvido na gestão ou na produção. Assim como outras atividades há mais dificuldade de o jovem permanecer no campo por causa da penosidade do trabalho”, diz.
Qualidade de vida para permanecer no campo
“As políticas públicas que construímos e conquistamos, desde aposentadoria, habitação, crédito, seguro agrícola deram conta de segurar o êxodo rural como um todo. Nas décadas de 70 e 80 e meados dos anos 90 os agricultores saíam com as famílias para a cidade, mas este cenário reduziu a um nível aceitável. Hoje as pessoas vão para a cidade quando se aposentam. O processo de migração reduziu bastante a partir dos anos 2000 quando foi criado esse conjunto de políticas públicas, assim como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e Pnae (Programa Nacional de Alimentação Escolar) que vão dando suporte para o agricultor poder permanecer no meio rural”, diz.
Todas essas políticas públicas junto com a telefonia móvel, que ainda apresenta problema, mas em boa parte já é uma realidade, a internet que também já é realidade. Ou seja, as pessoas conseguiram melhorar sua condição de vida. Porque segundo Cenci, existia uma diferença muito grande até os anos 2000 da qualidade de vida oferecida no meio urbano e na área rural. Porque as pessoas não tinham renda para comprar o que era permitido. Hoje pode-se dizer que o problema da renda não é mais o principal problema na agricultura como um todo.
Todavia, essas condições não garantem que o jovem possa permanecer no campo, pois tem uma série de outras influências. Porque o agricultor, quando já está estabelecido ele tem a terra e tem uma condição de permanecer e o jovem tem que dividir a terra com os pais. “E tivemos um processo com o passar dos anos que as famílias foram dividindo as terras e chegou a um ponto que não suporta mais do que duas famílias em uma mesma área de terra. Com o passar do tempo, a questão da terra se tornou um ponto fundamental”, diz.
Geração de conflitos
Além disso, o jovem que vai suceder os pais tem que ter uma boa relação na gestão, divisão dos lucros e isso nem sempre isso acontece. Cenci explica que a geração de hoje cresce e estuda com o computador na mão, acesso à internet e uma agricultura que evolui a passos largos, tecnologia de produção é grande e existe um confronto de gerações, porque seus pais vieram de outra geração e seus pais aprenderam boa parte de seus pais que vieram da colonização derrubaram mato para plantar e, a principal tarefa era produzir. Com o passar do tempo, os custos de produção foram aumentando, assim como o custo de vida foi aumentando e a qualidade de vida encareceu. Essa diferença de geração gera conflito. E se não se consegue fazer o dialogo pode inviabilizar a sucessão.
Assim como vários outros fatores, por exemplo, há o diálogo, a propriedade tem estrutura, mas não tem o conforto.
Cenci comenta ainda sobre a masculinização no campo. Segundo ele, as jovens mulheres têm mais dificuldade em permanecer no meio rural. Na divisão do trabalho acaba desfavorecendo a permanência da mulher, que muitas vezes ela tem papel secundário e ela escolhe ir para a cidade.
“Em suma, são vários fatores responsáveis pela permanência do jovem no campo que tem que andar em consonância”, destaca.
Valorização da figura do agricultor
A região é produtora de grãos, leite, frangos e suínos. Mas dentro das últimas três atividades a sucessão é restrita conforme Cenci. Segundo ele, são atividades que exigem mão de obra sete dias por semana, incluindo o fim de semana tirando a possibilidade de lazer dos jovens. Diferente do que é a produção de frutas, hortaliças e agroindústrias.
“E aí entra uma questão importante, a valorização do ser agricultor”.
Estamos no dia do colono e motorista, que surge a partir da colonização e que é entendida por alguém atrasado e isso pesa muito na imagem do agricultor, do jovem, quando ele vai decidir o que vai ser no futuro. “Todo mundo escolhe uma profissão que espera ser valorizada economicamente e profissionalmente. E a imagem do agricultor acaba sendo atrelada a imagem do Jeca Tatu, para fazer com que os agricultores servissem de mão de obra para a indústria. Tem toda uma história para isso. E boa parte da sociedade cultiva essa imagem. E isso gera problemas que o filho do agricultor tem vergonha de dizer que é agricultor. E o fato de agroindústria acaba valorizando acaba destacando o que ele faz, além da questão econômica acaba diferenciando e valorizando o ser agricultor”, destaca.
‘Não existe agricultura sem pessoas’
O coordenador do Sutraf-AU diz que no cenário nacional, talvez Mato Grosso e São Paulo, se faça agricultura com poucas pessoas, por ser totalmente mecanizado, mas na região do Alto Uruguai são cerca de 29 mil propriedades, com geração de empregos. “Temos uma economia que se fortalece a partir da agricultura. Tem municípios que só a cadeia das carnes representa mais de 50% da economia do município”, pontua Cenci.
A agricultura familiar sempre foi o laço do desenvolvimento na região. “Temos conseguido que os pequenos agricultores não produzam somente alimentos, mas também gerem empregos, reduzam os índices de pobreza. Eles trabalham com a qualidade dos alimentos, preservação cultural, questão social e a sucessão é imprescindível, pois se não tiver não existe agricultura. Existem municípios que talvez em 15 anos reduza em 50% o número de agricultores. O impacto tem que ser refletido e pensado. E a solução dos problemas parte de uma iniciativa do governo, mas também da sociedade, valorizando o agricultor”, conclui.
Políticas públicas que influenciam na sucessão rural
*Entre as políticas públicas que se destacam Cenci pontua a aposentadoria, que na região do Alto Uruguai são mais de 30 mil agricultores aposentados. “Muitos continuam ainda na atividade. Além de dar suporte, muitos esperam se aposentar e a aposentadoria acaba incentivando a permanecer no campo. Esta é uma das principais políticas públicas”, acrescenta.
*O Pronaf (programa de crédito, subvenção de juros), permite que o produtor faça um conjunto de investimentos, desde a produção para a compra de insumos, e também aquisição de máquinas e equipamentos. *Seguro agrícola, uma política importante, luta histórica, mas nos últimos cinco anos o agricultor tem usado pouco, porque o clima tem sido favorável.
*Habitação “enquanto sindicato, fizemos na região mais de 3 mil unidades entre casas novas e reformas, e isso influencia diretamente na sucessão”. *Crédito fundiário, onde boa parte dos investimentos são feitos por jovens.
*Programas institucionais como PAA e Pnae, que o governo compra os alimentos dos agricultores e fornece para escolas, instituições e hospitais. Em Erechim o Coperfamília tem um contrato de R$ 600 mil e 11 entidades recebem os alimentos como frutas e hortaliças.