Antes de contar a história deste erechinense, começo pelo fim. Ele conhece 147 países e 164 culturas diferentes. E de quebra, esteve numa base de apoio no Cazaquistão, dando suporte para um astronauta americano e um cosmonauta russo que embarcou no local. Eles bateram dois recordes mundiais de volta ao mundo em menos tempo, com três pousos. Isso foi em 2019. Voando sobre os polos Norte e Sul em uma aeronave Gulfstream G650ER da Qatar Executive, o recorde da missão foi de 46 horas, 39 minutos e 38 segundos. O projeto se chamou One More Orbit (OMO).
Recentemente deu uma guinada em sua vida e o foco é sua família: a esposa Ana Maria Caldeira Moresco e os filhos Maria Eduarda e Leonardo. E nesse final de ano esteve em Erechim visitando familiares e participando de uma confraternização de amigos e colegas da Fapes, onde concluiu o 2º grau (hoje, Ensino Médio): “acho importante que minha família conheça cada vez mais, as minhas origens”, disse.
O erechinense Fabrício Moresco, 48 anos, desde muito cedo tinha algumas certezas na vida. Estudou no Imlau, depois no Medianeira e por fim na Fapes: “nessa época minha família estava numa condição melhor financeira”, conta.
Paixão pela aviação começou cedo
Sua paixão pela aviação começou muito cedo. Seu pai era viajante e pela profissão, era sócio do clube Parque dos Viajantes”, que fica próximo do Aeroclube de Erechim. Do lado de fora da cerca, Fabrício via aqueles aviões decolarem e pousarem, planadores cortando o ar, paraquedistas despencado do céu. Era jovem, no início da década de 1980: “minha família não tinha condições e eu não tinha idade para fazer um curso de aviação, que era algo distante. Mas naqueles momentos, do lado de fora do aeroclube, tive a certeza do que eu queria para mim. Foi ali que me despertou o sonho de voar”, revela, com lágrimas nos olhos, pois começa a passar pela sua mente todo o caminho percorrido até hoje.
Em 1989, com 15 anos, queria começar a fazer o curso de aviação. Mas recebeu um não, pois a legislação permitia apenas com 16 anos. No ano seguinte, em 1990, conseguiu exame de saúde para planadores. Mas esse não, apenas o motivou mais ainda para ir em busca de seu sonho. Com 18 anos, após muita persistência, fez a carteira de motorista e também a carteira de piloto (brevê).
A carreira decolou
A partir daí sua carreira decolou, literalmente. Por onde passou pelo mundo, obteve sucesso. Mas qual o custo desse sucesso? A desconexão com sua família. Chegou um momento que precisou se reinventar e a mudança o reconectou com a família. E é isso que faz hoje, como consultor. Mas antes, um pouco de sua trajetória.
Em 1991 ele terminou o 2º grau e deixou Erechim. Foi em busca do que acreditava para a sua vida: “sempre foi muito dedicado. Realiza as ações necessárias, com foco total na aviação”, pontua Fabrício.
Muito estudo e dedicação
Foi para São Leopoldo e morou no alojamento do aeroclube para estar mais próximo do que estava em busca. Após muito estudo, dedicação, perder horas se sono, em 1996 estava apto para voar como piloto comercial: “lembro que no início, meu pai não queria que eu fosse piloto e sim viajante que nem ele. Mesmo assim, foi ele que me levou para São Leopoldo e mesmo sem me dizer nada, estava me desejando sucesso na carreira que eu escolhi”, relembra.
Em Curitiba, foi piloto de táxi aéreo (de 1998 a 2003). Em 2004, passou a pilotar jatos executivos e em 2005 foi para a TAM e começou a viajar pelo mundo em grandes aeronaves. A partir deste momento, o céu era o limite para o menino que ficava do lado de fora da cerca do Aeroclube de Erechim olhando pequenos aviões. Ele conseguiu, ele venceu. Mas queria mais, e sua inquietude o levou para os mais altos postos que um piloto pode chegar. Devido sua formação pelo ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), acabou participando de projetos que envolviam conhecimento em segurança e gestão de empresa.
Morou em Doha, no Catar
De 2013 a 2021 morou em Doha, no Catar, trabalhando numa das maiores companhias aéreas do mundo. Quando iniciou a pandemia da covid-19, Fabrício fez um voo para Wuhan, na China, bem no início da pandemia. Fabricio atuou na diretoria de segurança de voo, ocupando um cargo que tratava sobre análises de voos, chamado de Gatekeeper.
E essa experiência lhe rendeu uma indicação (considerado um grau máximo dentro da aviação) e passou a ser o piloto da elite, transportando pelo mundo celebridades, chefes de estado, artistas em geral. Por uma questão de confidencialidade evita falar sobre os seus ilustres passageiros. Uma carreira irretocável, chegou a todos os níveis possíveis.
Poderia se aposentar de forma tranquila, com segurança para a sua família. Mas seu ‘instinto inquieto’ o levou para outro caminho. Aquilo que foi escrito no início desta matéria, a busca de se reconectar com sua família, já que sentia que estava os perdendo.
O ‘insight’ que mudou o rumo de sua vida
Fabrício conta que após um voo, estava na Sibéria (Rússia) na virada do ano de 2020 para 2021, junto com dois colegas de profissão. Foi quando teve uma conexão com Deus, revela. Teve um ‘insight’: “o que adianta estar num hotel 5 estrelas e longe de minha família. Despertei a consciência que precisava dar um novo rumo para minha vida”. E foi o que fez.
Atualmente Fabrício e família residem em Barueri (SP), e aquele ‘insight’ na Sibéria alinhou sua vida, com uma mudança de mentalidade, gestão dos pensamentos. Se transformou num consultor e palestrante e repassa o que aprendeu na aviação, que serve para qualquer área de atuação: “Hoje busco repassar a Arte de Comandar, em todas as 12 áreas da sua vida e superar os seus medos, bem como acionar a liderança estratégica dentro de você”, salienta Moresco.
A mensagem que busca passar após se reconectar com sua família, é conectar propósito, abrir a cabeça, que tem muita coisa boa nos esperando: “alinhei uma extensa experiência na aviação internacional (três décadas), com a neurociências cognitivas (pesquisas e mestrado), de forma a colaborar com o desenvolvimento do ser humano de forma sistêmica. Cada um pode estar no comando da sua vida e ser membro ativo de uma grande tripulação”, pontua.
Moresco ainda revela que quando ia para as diretorias, nunca almejou cargos: “meu objetivo sempre foi buscar novos conhecimentos de uma forma multifuncional e multidisciplinar para transferir conhecimento”, finaliza.