A cada dia que se inicia, seja no meio rural ou urbano, não há como prosseguir sem que haja a presença de água. A água é fundamental para o planeta, sua evolução e manutenção de seus processos ambientais e ecossistemas. Na água foi onde surgiram as formas de vida primitivas, que com a evolução das espécies proporcionou que estas se desenvolvessem para as formas de vida terrestres.
Salienta-se, pois, na atualidade é premente a necessidade de conservação da água, haja visto que segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), aponta que em pleno século 21, há pelo menos 1,21 Bilhões de pessoas que têm acesso abaixo do mínimo preconizado para uma boa qualidade de vida.
A água cobre 71% da superfície do planeta, mas 97,5% dessa água é salgada e está nos oceanos. Apenas os 2,5% restantes são de água doce e a maior parte está concentrada nas geleiras. Menos de 1% do total da água está disponível para o consumo humano.
O Dia Mundial da Água existe para reforçar a necessidade de preservação desse bem tão precioso, que é comemorado em 22 de março. Pensando nisso, a reportagem do Bom Dia conversou com o professor, Vanderlei Decian, coordenador do Laboratório de Geoprocessamento e Planejamento da URI, que explica os fenômenos que fazem com que a região enfrente uma crise hídrica.
Bom Dia: Quais atitudes dos seres humanos vem prejudicando o abastecimento de água em livre demanda?
Embora seja um recurso renovável, a água vem sofrendo com a poluição. Quanto mais intensificado seu uso (para consumo humano, agricultura, indústria), maior é a disputa por esse recurso pelos seus usuários. Por isso, é fundamental que seu uso seja mais racional, e nessa tarefa todos podem contribuir.
Dentre as principais formas de comprometimento da qualidade e quantidade da água está associado ao serviço de saneamento incompleto, onde cuida-se muito da água para fins de dessedentação e não se cuida da água após seu uso, tendo pouco mais de 40% do esgoto tratado a nível de Brasil. Estes índices de tratamento são ainda menores quando pensado em continentes e países africanos e mesmo na América Latina. Associado a ausência do tratamento de esgotamento sanitário tem-se também a contaminação no meio rural por defensivos e fertilizantes agrícolas, nem sempre aplicados conforme as recomendações.
Bom Dia: Em Erechim, estamos prestes a enfrentar um racionamento de água, ao seu ver, porque chegamos a esse ponto, bem na semana da água?
Alguns fatores podem ser associados ao problema de racionamento no município de Erechim, em final de verão e entrada de outono. Podemos associar a estiagem que estamos enfrentando a questões climáticas de circulação continental, principalmente associado ao La Niña, que nos atinge pelo terceiro ano consecutivo.
Seria confortável aos gestores e às concessionárias de serviço de água e esgoto associar as questões climáticas, mas não podemos nos esquecer que estamos utilizando três mananciais de abastecimento: Bacia do Rio Leãozinho e Ligeirinho, Bacia do Rio Campo e Bacia do Rio Cravo.
Assim, uma pergunta que não cala: Por que ainda sofremos e somos assombrados pelo fantasma do racionamento na cidade de Erechim???
Fato 1- Não temos reservatórios com capacidade de armazenamento suficiente para prover períodos de estiagem de mais de 5 meses, pois não prevemos os mesmos com capacidade de suprimento a longo prazo;
Fato 2- Não há como gerenciar um recurso que é captado e depende das chuvas e estas necessitariam ser constantes e regulares com uma perda no sistema de distribuição superior a 40%, ou seja, é muita água tratada perdida entre os mananciais onde coletamos a água até chegar no destino. E pior, água tratada, já com altos custos de tratamento, da distribuição e gasto de energia em bombeamento e distribuição.
Temos que pensar na campanha de conscientização do uso da água, e os já tradicionais que são evitar gastos com lavação de carros, calçadas e outras demandas que pode esperar, precisamos incluir o investimento em sistemas de distribuição eficientes e que gerem as menores perdas possíveis.
Bom Dia: A estiagem vem afetando principalmente o nosso estado por três anos consecutivos, porque isso está acontecendo e, o cenário pode mudar?
Sim, o evento climático que provoca as estiagens no sul do Brasil e em especial o Rio Grande do Sul é associado ao processo de resfriamento das águas do Oceano Pacífico, fazendo com que tenhamos menos carga de umidade atmosférica circulando e assim menos chuvas. O culpado pelas estiagens é o fenômeno La Niña, cíclico, que se repete em períodos mais ou menos regulares a cada 5 a 7 anos. O que nós ainda não aprendemos é que, sendo cíclico, precisamos nos preparar com mecanismos de minimização dos seus efeitos. Alguns mais práticos seriam a açudagem no meio rural, sistemas eficientes de cisternas, melhoria no sistema de plantio direto, propiciando um maior armazenamento da água no solo, bem como o tempo que esta água permanece no solo.
Em termos gerais, as agências climáticas apontam que é o último ano de ação deste fenômeno que acarreta a diminuição das chuvas, mas ainda teremos um outono com chuvas abaixo da normalidade, e precisamos ainda de cuidados para amenizar este período final do La Ninã.