O Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, lembrado nesta quinta-feira (18), reforça a necessidade de seguir no combate a todos os tipos de violência . No Brasil, a cada dia, 80 crianças e adolescentes sofrem algum tipo de violência sexual - física ou psíquica, segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC).
Nos quatro primeiros meses de 2023, foram 9.613 vítimas. Pelo "Disque 100", de janeiro a abril chegaram ao ministério registros de 17,5 mil violações que envolvem abuso, estupro, exploração sexual, assédio sexual e abuso sexual psíquico
Nos quatro primeiros meses de 2022, foram 6,4 mil denúncias e 10,4 mil violações sexuais contra crianças e adolescentes. Se comparadas com o mesmo período de 2023, as violações representam um acréscimo de 68%
Os dados mostram também que o lugar onde ocorre o maior número de violações é a casa da vítima ou de familiares, ou da vítima e do suspeito, com mais de 5,9 mil denúncias e 10,7 mil violações.
Viver o presente e planejar o futuro para jovens que foram vítimas de violência sexual, em muitos momentos, parece impossível. Para esclarecer mais sobre o assunto, a reportagem do Jornal Bom Dia, conversou com o psicólogo especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e chefe da Divisão do Centro Especializado em Saúde do Trabalho de Erechim, Muriel Vendruscolo, que falou sobre como identificar os sinais de abuso e a importância de existir uma data de conscientização ao assunto.
Bom Dia: Por que é importante ter uma data de conscientização para o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes?
Muriel: É fundamental que assuntos como esse sejam levantados e debatidos, é preciso dar visibilidade ao tema para que, além de lembrar das crianças e adolescentes que já foram vítimas de abuso e exploração, quem ainda sofre com essas violências se sinta seguro para denunciar. Outro ponto importante da data é passar informações para pais, educadores, cuidadores, e a sociedade em geral, para que fiquem atentos aos sinais e olhem para o tema com a devida importância, tendo ações preventivas.
Bom Dia: Quais sinais os responsáveis e professores devem ficar atentos para identificar as vítimas de abuso e exploração sexual?
Muriel: É possível identificar alguns sinais de violência, como lesões físicas, dificuldades de aprendizagem, comportamento muito agressivo ou apático, tensão, afastamento, isolamento, conhecimento sexual inapropriado para a idade, ideias ou tentativa de suicídio, autoflagelação, fugas de casa, hiperatividade e comportamento rebelde.
É sempre bom ficar atento a mudanças repentinas de comportamento, como a criança se tornar muito quieta, ou muito agressiva, mudança no padrão alimentar e padrão de sono, e também regressões de comportamento, como voltar a usar fraldas, fazer xixi na cama, crises de choro sem causa aparente.
Bom Dia: Quais são os tipos de violência física ou psicológica mais comum acometidas em indivíduos nessa faixa etária?
A violência, de qualquer tipo, contra a crianças e adolescentes decorre da relação de poder na qual estão presentes e se confrontam indivíduos com pesos desiguais, com forças desiguais, e pode ser praticada de diversas formas. As principais são: negligência, violência física, violência psicológica, violência sexual, e violências institucionais, que podem envolver causas sociais, culturais, ambientais e econômicas.
É fundamental pontuar que grande parte dos abusos ocorrem na própria família ou por pessoas próximas a vítima, por isso é importante que o assunto seja discutindo pelo maior número de órgãos e instituições possíveis.
Bom Dia: Em sua opinião, quais medidas protetivas devem serem repassadas as crianças e adolescentes para evitar ou enfrentar a violência sexual e para que possam se proteger ou pedir ajuda de adulto?
É essencial que seja trabalhada a educação sexual com as crianças e adolescentes. No caso das crianças é importante que os pais conversem de uma forma mais lúdica sobre as partes do corpo humano, que seja ensinado a eles quais comportamentos são normais e quais não são, o que eles podem aceitar e o que não podem. Com adolescentes, além dos pais a escola também pode auxiliar na orientação desse assunto com palestras de educação sexual, com uma linguagem clara, através de profissionais que possam tirar as dúvidas dos alunos. Esse conhecimento vai ajudar muito para que eles entendam que estão sofrendo algum abuso ou que estão em situações de risco.
Bom Dia: De que maneira o psicólogo acolhe as vítimas e que terapias são direcionadas para superar os traumas?
O atendimento sempre vai ser pautado por acolhimento e respeito pela situação vivida pela vítima, sempre procurando deixar claro que, apesar do que tenha acontecido, aquilo de forma alguma foi culpa dela. A história de vida do paciente é sempre respeitada, entendendo que cada caso é um caso, e cada tratamento terá suas particularidades, pois o que o indivíduo sente, e as consequências da violência, podem ser diferentes.
Os traumas psicológicos causados por violência podem causar diversos problemas, como: Transtorno de estresse pós-traumático, distúrbios emocionais, aumento do risco de envolvimento com substâncias entorpecentes, problemas de aprendizado, evasão escolar, depressão, automutilação, dificuldades de relacionamento e até o suicídio.
A terapia indicada vai depender muito da consequência que aquele trauma causou na vítima. A Terapia Cognitivo Comportamental, por exemplo, é muito indicada para questões de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático.
O mais importante nessa situação é, em primeiro lugar, não ignorar o problema e buscar ajuda. Segundo, procurar por profissionais capacitados, e que façam o paciente se sentir acolhido e seguro.
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