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Crise hídrica: suas causas, consequências e soluções

Desde meados de 2020, a região sofre com os efeitos do La Niña, que reduz a precipitação de chuvas

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Crise impacta diretamente o agronegócio e a economia.
Por Assessoria de Comunicação
Foto Tainá Binelo/UPF

Baixa produtividade no campo, racionamento de água na cidade e reduções na economia. Esses são os reflexos das consecutivas secas que atingem o Sul do Brasil nos últimos anos. Desde meados de 2020, a região sofre com os efeitos do La Niña, que reduz a precipitação de chuvas.

O fenômeno, oposto ao El Niño, ocorre em função do resfriamento das águas do Oceano Pacífico, sobretudo na costa oeste da América do Sul, próximo a países como o Equador e Peru. Quando há incidência de baixas temperaturas na superfície oceânica da região, principalmente por um período igual ou maior a nove meses, considera-se que há um cenário de La Niña. Isso provoca a maior incidência de chuvas no Norte e Nordeste do país e o contrário no Sul, que sofre com a estiagem por longos períodos.

O professor do curso de Agronomia da Universidade de Passo Fundo (UPF), Dr. Mateus Bortoluzzi, destaca que situações de falta de chuva e déficit hídrico são frequentes nas culturas de verão no Rio Grande do Sul, mas que nos últimos anos o cenário foi agravado. “Nem sempre as estiagens abrangem praticamente a área de todo o estado com tanta intensidade quanto à verificada em três das últimas quatro safras agrícolas de 2019/20, 2021/22 e 2022/23”, relata o professor.

A falta de chuvas afeta, de maneira geral, as culturas anuais de verão, como milho, soja e feijão, além de frutíferas como a macieira. As condições meteorológicas mais quentes nessa estação propiciam um elevado consumo de água pelas cultivares, o que reduz o armazenamento de água no solo mais rapidamente, gerando os problemas com déficit hídrico. Conforme a Série Histórica de Produtividade da soja, publicada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra 2021/22 no estado teve uma produção média de 1.433 kg/ha, o que representa uma redução de 48% em relação à média da década de 2010, que é de 2.760 kg/ha.

Pode-se pensar que a alta nos preços da soja desde 2020 compensam a baixa produtividade, mas Bortoluzzi lembra que essa é uma afirmação relativa. Em um primeiro momento, muitos produtores se beneficiaram, pois, adquiriram os insumos baratos e venderam a produção já com alta nos preços, porém, posteriormente a alta atingiu também os insumos, como fertilizantes e defensivos agrícolas, reduzindo assim a lucratividade. “Atualmente, o que se verifica é uma redução no custo dos fertilizantes, mas também uma redução expressiva no preço da soja, o que acaba por reduzir as margens de lucro dos produtores”, acrescenta o professor.

Bortoluzzi destaca que, por outro lado, as culturas de inverno são favorecidas com a La Niña, pois com a menor ocorrência de chuvas, há maior disponibilidade de radiação solar e menor ocorrência de doenças. “A região de Passo Fundo é uma das menos afetadas em relação ao noroeste e à metade sul do estado. Isso se deve fundamentalmente a três fatores: maior acúmulo de precipitação pluviométrica; menor demanda hídrica em função da maior altitude e menor temperatura do ar média; e solos com maior capacidade de armazenamento de água”, relata.

Além das culturas sementeiras, as pastagens para o gado de corte e leite também são prejudicadas, já que as plantas sob déficit hídrico apresentam redução drástica no crescimento e produção de matéria verde para os animais. A rentabilidade do produtor é diretamente impactada, em que a substituição da pastagem por rações, silagem ou pré-secado se faz necessária. Bortoluzzi. “A falta de chuvas impacta muitas vezes de maneira direta, pois ocorre a falta de água para dessedentação animal”, ou seja, para matar a sede do gado.

 

O que esperar dos próximos meses

Após três anos dos efeitos da La Niña, as previsões são de novos ares. Em março deste ano, a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA) anunciou o fim do fenômeno, pois recentemente observou-se o aquecimento das águas oceânicas na costa do Peru e do Equador. Entretanto, o término da La Niña não significa o estabelecimento de um cenário imediato de El Niño. Além dos dois “extremos”, as temperaturas oceânicas podem passar por um período de neutralidade, seja ele de curta ou longa duração.

A notícia, em um primeiro momento, parece significar o fim da estiagem no Sul do Brasil, mas não é bem assim. Conforme a MetSul Meteorologia, a estiagem ainda pode permanecer mais um pouco antes de o cenário mudar, pois a atmosfera continua respondendo por um certo tempo ao padrão que predominava. O episódio de anos consecutivos de La Niña não ocorria desde a virada do século, ou seja, há mais de 20 anos, por isso seus efeitos ainda vão ser sentidos por algum tempo. A tendência é de que aos poucos ocorram episódios de chuvas mais frequentes.

Os estudos debruçam-se agora nas previsões da chegada do El Niño. As projeções de probabilidade do fenômeno realizadas pela Universidade de Colúmbia, em Nova York, passam de 24% no trimestre de abril a junho para 62% no trimestre de setembro a novembro. Isto é, observa-se um aumento considerável nas chances de estabelecimento de El Niño e inclusive de Super El Liño, em que os efeitos do fenômeno são mais acentuados.

Ainda segundo a MetSul, eventos de El Niño intensos ocorrem, em média, uma vez a cada 15 anos. O último grande episódio foi em 2015/2016, quando as temperaturas globais médias atingiram recordes. A chance de retorno do fenômeno levanta receios sobre como ele pode acelerar o aquecimento global e as mudanças climáticas. A ocorrência de El Niño aumenta consideravelmente as chances de enchentes no Sul do país e secas no Norte e Nordeste, preocupando pelo maior risco de queimadas na Amazônia e no Cerrado brasileiro.

Essa apreensão se reflete no campo. Bortoluzzi lembra que o plantio do trigo tem avançado no Rio Grande do Sul, mas que a expectativa é de manutenção ou leve redução da área em relação ao ano passado, em que a área ultrapassou 1,5 milhões de hectares. O receio dos agricultores se dá fundamentalmente pela queda no preço do produto, que não tem perspectiva de aumento expressivo, além da previsão da ocorrência do El Niño, que geralmente aumenta a ocorrência de chuvas. “Esse aumento reduz a disponibilidade de radiação solar ao longo do ciclo, aumenta a chance de excesso hídrico no solo, a ocorrência de chuvas excessivas na colheita, bem como a favorabilidade à ocorrência de doenças”, pontua o professor.

Em suma, são esperadas mais chuvas nas próximas safras, o que reduz a chance de déficits hídricos. Apesar dos sinais positivos, a cautela sempre estará presente, pois um cenário de El Niño, além da probabilidade de excessos de chuva, também não descarta episódios de estiagem. Ou seja, os fenômenos climáticos não são 100% determinantes, já que mudanças na pressão e na circulação atmosférica também são levadas em consideração.

 

As soluções à crise hídrica

É preciso olhar para a crise hídrica e pensar nas suas causas e possíveis soluções. Bortoluzzi lembra que a ciência genética é uma das áreas que contribui para mitigar esses danos, em que se busca encontrar materiais com maior tolerância ao déficit hídrico por meio de tecnologias HB4, bioinsumos e rizobactérias. “Um avanço genético recente, a tecnologia HB4, em que houve a incorporação de um gene proveniente da cultura do girassol e promove tolerância ao déficit hídrico para culturas como a soja e o milho”, ele comenta.

Além disso, iniciativas de eficiência hídrica e economia de água também são importantes. Bortoluzzi diz que tais alternativas devem ser consideradas antes mesmo de se estabelecer um sistema de irrigação, por exemplo, que possui menor adesão em relação a outras opções. “A implantação de um sistema de rotação de culturas eficiente, com cobertura de solo durante todo o ano, possibilita a melhoria do perfil de solo”, ressalta acrescentando que isso permite o aproveitamento da água de camadas mais profundas do solo, a redução das perdas de água por evaporação, além da geração de um grande aporte de matéria orgânica e umidade no solo.

Outra ação fundamental é a proteção das matas ciliares, ou seja, da vegetação no entorno de vertentes d’água e nascentes dos rios. Elas são essenciais para reduzir as perdas de água por evaporação e os processos erosivos, como o assoreamento, além de manter um fluxo de infiltração adequado. “Nesses últimos anos, verificamos diversas vertentes de água em propriedades rurais secando, muito em função de um manejo inadequado nas áreas de lavoura”, relata o professor.

Por fim, é necessário lembrar que a Amazônia, maior floresta tropical do mundo, atua como um grande regulador hídrico e térmico em nível global, exercendo grande influência sobre as chuvas no Sul do país. Bortoluzzi pontua que, apesar da difícil avaliação, o desmatamento acentuado da Floresta Amazônica tende a modificar o fluxo hídrico e pode sim estar associado à redução de chuvas no Rio Grande do Sul. Dessa forma, ações preventivas aos danos causados pelos fenômenos climáticos extremos se fazem necessárias, como preparação das cidades em casos de alagamentos e preparação do campo em longos períodos de estiagem.

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