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Paixão por pianos antigos

Luís Augusto Zamboni adquiriu um piano de 1915 da Igreja Anglicana e Gleison Wojciekowski tem um modelo fabricado em 1835

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Desde os sete anos de idade, Luís Augusto Zamboni, é encantado por piano
Instrumento de Gleison, um Broadwood Square Piano, fabricado em 1835
Por Emerson Carniel
Foto Emerson Carniel

Todos os dias, após o término das aulas, Luís Augusto Zamboni saía correndo da escola onde estudava em turno integral para praticar música no piano da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, no centro de Erechim.  “Eu pegava a chave e iria estudar, das 18h às 21h, todos os dias eu ensaiava. Por muito tempo minha rotina de estudo foi nesse piano”, relembra Zamboni, que hoje, aos 22 anos, divide o tempo como acadêmico de engenharia mecânica e professor de violino, piano, canto erudito e teoria musical.
Piano de 109 anos
O instrumento de aprendizado era um piano da marca Essenfelder, fabricado em 1915, em Curitiba, pelo alemão Florian Essenfelder. “Eu passei muitos anos estudando nele, porque ele pertenceu a Igreja Anglicana. Quando sai de lá, fiz o possível para comprar o instrumento. Na época, eles não tinham interesse em se desfazer dele”, conta.
A igreja acabou fechando em 2020 e o piano foi vendido para um fiel. E mais uma vez Luís pode fazer uma proposta, negociou o piano e levou a peça para casa. “No final, o piano acabou parando em minhas mãos”, disse sorrindo.
Uma marca apagada
“Essa é a lástima desse piano”. A frase define a decepção do professor ao relatar que havia uma assinatura do próprio Essenfelder, escrita à lápis na primeira tecla, porém foi apagada pelo antigo dono. 
“Metade dele acabou não vindo, as teclas, os mecanismos e tudo mais. Tivemos que ajuizar uma ação, enfim, conseguimos resolver, mas uma curiosidade é que na primeira tecla tinha uma assinatura à lápis do próprio Essenfelder, com mais de 100 anos ali. Tinha, quando adquiri, ele (proprietário anterior) acabou apagando a assinatura antes de me entregar os restantes das partes”. 
Condições
Segundo Luís, apesar do piano ter mais de um século de fabricação, precisa de uma restauração e afinação. “Falta algumas cordas, outras estão estouradas, precisa de feltros dos abafadores. Quanto a parte da madeira e estrutura está em ordem, ainda é o mesmo verniz, embora tenha marcas de riscos feitos por crianças, e de vasos de flor que eram colocados em cima dele”.
O primeiro de três
O Essenfelder foi o primeiro piano adquirido pelo amante da música. Após, surgiram outras oportunidades para aumentar o conjunto, com um piano de fabricação brasileira e o outro inglesa.
“Posteriormente, comprei um Fritz Dobbert, 1986, que eu uso para estudo, esse está mais em ordem e é o mais novo. Era de uma antiga aluna do maestro, Gleison Wojciekowski, que não estudava mais e acabou vendendo. No último ano, adquiri um Danemann inglês, feito em Londres na década de 40, que também está precisando de restauro e está na fila para ser feito. Esse era da gerente do hotel onde eu trabalhava. A família não praticava mais e ela soube que eu gosto de piano, assim acabei negociando o instrumento”.
“Sou um acumulador”
Questionado do motivo que levou a ter três pianos em casa, a resposta foi a seguinte: “Eu sou um acumulador. Eu coleciono várias coisas como chapéus, gravatas, carros antigos. Eu tenho essa tendência em acumular coisas e isso acaba sobrando para os instrumentos musicais também. Tenho dois violões, uma guitarra, um bandolim, um trompete. Aliás, tentei ser trompetista uma vez, não deu muito certo, mas está lá guardado”, explica Luís.
O início
A paixão pela música surgiu de um desenho animado que assistia quando criança. “Minha mãe colocava uma fita VHS de um episódio do Tom e Jerry que tinha um duelo de piano. Desde então me encantei com a música clássica e decidi que queria aprender. Com sete anos de idade entrei para o Centro de Belas Artes Osvaldo Engel e até hoje sigo estudando”, conta.
O pai, Luís Antonio Zamboni, 51, comentou que o incentivo na formação musical do filho começou cedo e o esforço e dedicação não faltaram. “Muitas vezes, eram 10h, 11h da noite, uma da manhã, e o Luís estava praticando e incomodava nós e os vizinhos. Os dedos ficavam todos marcados e os pulsos e mãos machucados”, disse Zamboni.
As orquestras e os mestres
Luís já integrou a Orquestra de Concertos de Erechim (OCE), Sinfônica Getuliense, Orquestra do Belas Artes e, atualmente faz parte da Orquestra de Câmara do Alto Uruguai (OCAU). Ele cita Gleison Wojciekowski, Estela Bregoli e Liliane Tramontini como os professores que fizeram parte de sua formação no aprendizado do piano. “Eu costumo dizer que a música é 60% prática, 30% boa instrução e 10% talento”, destaca.
Sobre o primeiro instrumento que fez parte da infância e hoje está na sala da casa, Luís declara que “esse piano vai até o vim da minha vida, não pretendo me desfazer de nenhum deles”.
Som do século XIX
O maestro e músico, Gleison Wojciekowski, é uma pessoa que adora antiguidades e toca em um Broadwood Square Piano, fabricado no ano de 1835, pela John Broadwood & Sons, uma construtora inglesa de cravos e pianos fundada em 1728.
“Comprei no site Mercado Livre de uma família judaica de Ribeirão Preto/SP. Eles estavam precisando de espaço e de dinheiro para uma reforma”, revela.
Quando o instrumento chegou em Erechim, a transportadora passou para Gleison o contato de um colecionador que também queria o piano. “Disseram que era para mim ligar para esse interessado, que se nós acertássemos eles nem descarregariam o piano. Ele me ofereceu quatro vezes o valor que eu havia pago, mas preferi ficar com ele”, afirma.
Dos tempos de Mozart
Um dos motivos que fez Gleison adquirir esse piano do século XIX, era ter a oportunidade de tocar em um instrumento construído no mesmo período em que grandes músicos viveram e ouvir o mesmo soar da época.
“Porque é um tipo de mecanismo próprio do período histórico de Clementi e Mozart. O toque dele é uma forma de estudar esse repertório histórico. É a melhor forma de trabalhar a articulação desse período”, conclui.

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