No Brasil, o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial é comemorado no dia de hoje, 3, data que se refere à aprovação da primeira lei brasileira contra o preconceito. O País tem registrado avanço nas políticas afirmativas em relação à dívida histórica com a população negra, escravizada durante três séculos.
Pesquisas apontam que, mesmo com um aumento na inclusão nas universidades, em cargos públicos e em posições de liderança, essa população ainda hoje representa a maioria a viver nas periferias e favelas e a ser assassinada, todos os dias.
Estudiosos sobre o tema também garantem que a promoção da equidade, da justiça social e dos direitos está longe de ser garantida, ou seja, ainda há muita luta e muita resistência pela frente para enfrentar um racismo que é estrutural e, por consequência, institucional.
O racismo estrutural, resumidamente, mostra como a sociedade se fundou na ideia de que o negro ocupa um lugar diferente, menor, subalterno, de competência questionável. Já o institucional é um reflexo de como o racismo estrutural é implantado pelas e nas instituições.
Daniel De Bem
Para o professor de Antropologia da UFFS Campus Erechim, Daniel De Bem, o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial é mais uma dessas datas lacradoras, conforme denomina a mesma “afinal somos todos iguais perante Deus e as leis do Estado-Nação. Muitas vezes é difícil ter a empatia e tentar saber ou imaginar o que a outra pessoa passa, o que é estar na pele dela... E existem tantos tons de pele e tantas relações históricas, sociais e psicológicas, tantas relações de afeto, é verdade, mas também de poder e de violência marcadas, ou não, nessas várias peles”.
Daniel lembra que, quando era jovem e morava em Porto Alegre, acontecia direto, “a blitz da P.M. parava o ônibus em que eu estava e algumas pessoas eram escolhidas para descer e serem revistadas, eu sempre passava pela revista. Não importava se era de dia e eu estava indo pro trabalho, se era no fim da tarde e eu estava indo pra faculdade, se era na madrugada e eu estava voltando de uma festa. Eu e pessoas parecidas comigo eram revistadas, as outras pessoas não. Mesmo que eu não “devesse nada”, eu tinha medo da incomodação, se o policial estivesse mais exaustado ou brabo com a vida. Eu tinha vergonha e raiva da humilhação perante os outros passageiros que ficavam olhando pela janela, indignados com a demora causada pelos “maloqueiros”, “marginais”, os típicos suspeitos”.
“Nessa época eu tinha medo de morrer de bala perdida. Graças a Deus, sobrevivi, algumas estatísticas apontam que a chance de um jovem pardo ser morto pela polícia é mais de 3 vezes maior que de um jovem branco.
“Coisa de uns 3 anos atrás, vindo de POA para Erechim, pela BR- 386, com outro professor, fomos parados por uma blitz. Dois agentes, portando metralhadoras, nos fizeram descer do carro, nos separaram enquanto conferiam nossos documentos e nos faziam as perguntas padrão. Tudo certo, podem seguir viagem”, disse um agente. Quando nos afastamos, o meu colega expressou, quase chorando a sua indignação pois “nunca tinha sido abordado com tanta violência”, eu respondi pra ele que, pela minha experiência, os agentes foram muito gentis”
Para ele, esse tipo de situação constrangedora, ocorre com uma frequência maior do que a saudável, “pode demorar pra acontecer, mas quando acontece me enche de tristeza e incertezas”.
“Aliás, essa é uma constante na minha história. Éramos poucos negros no antigo 1° Grau do colégio, no 2° Grau menos ainda. Quando entrei na faculdade, éramos 3 negros entre 80 calouros, ao final de 5 anos, entre os 20 formandos, só eu e um menina éramos os negros. Eu só tive uma colega uma única negra no mestrado e no doutorado. Dos mais de 600 professores da UFFS, nos seus 6 campi, se somos 15 professores negros, é muito”.
“Anedotas, umas mais tristes, outras mais engraçadas, e olha que eu não contei outras histórias sobre o meu cabelo, sobre a minha religião, sobre o meu comportamento, sobre a diferença de cor com a minha mãe ou com o meu filho, sobre como as pessoas não acreditam que eu seja gaúcho. Em todas essas histórias cotidianas, eu estava sendo julgado por estar fora de uma norma esperada do que deveria ser o certo, num país onde mais 50% da população é parda ou preta. Falta espaço pra explicar o que estas histórias amarram sobre racismo e discriminação e sobre todos os sentimentos que elas trazem. Quem vive algo parecido sabe, quem não vive, talvez possa imaginar.
Até o dia em que a cor da pele deixe de ser um constrangimento, um obstáculo ou um privilégio, precisamos de datas como essa e políticas públicas antirracistas e cidadãos empáticos e engajados em construir um futuro de igualdade de tratamento e oportunidades para todos, livre de preconceito e discriminação racial, religiosa, de gênero, identidade sexual, perspectiva política etc”, finaliza.