Paris, capital francesa, está mais viva do que nunca. Olhos do mundo todo estão voltados para a sede de uma das maiores competições esportivas do mundo, as Olimpíadas. A cidade está mais barulhenta, as ruas mais movimentadas, os transportes lotados e os turistas nas cores de seus países. Essas percepções são de quem nunca imaginou viver de perto esse espírito olímpico.
Natural de Machadinho, Glaciane Terlan, 41 anos, trabalha como gerente de uma empresa em Paris e observa toda a agitação da cidade na acolhida dos jogos. “Está uma organização gigantesca de policiamento, segurança, preparação dos locais de provas, é algo surreal. Eles construíram praticamente uma cidade para o conforto dos participantes. Nunca vi nada igual”, relata.
Fã de praticamente todos os esportes, Gla, como é conhecida, irá acompanhar as modalidades de perto. “Admiro todo mundo que se esforça para conseguir chegar em qualquer patamar e nos jogos é isso, uma força, energia, algo que não tem como não passar para a gente”.
Frio na barriga da cidade grande
Você deve estar se perguntando como uma machadinhense foi parar em Paris, não é mesmo? O instinto curioso e o anseio em explorar seus limites fizeram com que ela deixasse o pequeno município de pouco mais de 5.700 habitantes para sentir o frio na barriga da cidade grande. “Quando fui morar em Florianópolis foi quase como ir para Nova Iorque, porque era uma coisa muito grande para mim. Quando cheguei em Floripa foi um ‘uau’. Fiquei muito feliz de ter tido essa coragem de mudar, porque a gente sai de uma cidade bem pequenininha com muitos obstáculos, dificuldades e crenças limitantes enraizadas”.
Quando Glaciane sentiu que estava cômodo onde estava, ela resolveu viver uma nova aventura. “Parece que quando tudo está tão confortável, é como se um bichinho te picasse, de vez em quando, e você precisasse reviver isso. Isso me motivou a sair do Brasil e a primeira viagem para o exterior foi para morar em Dublin (Irlanda), para estudar inglês”.
L'amour de ta vie
O curso tinha duração de oito meses, porém Gla acabou ficando um período maior já que conheceu o amor de sua vida. “Eu conheci o Joseph, hoje meu marido, no quarto dia em que cheguei lá e nunca mais nos desgrudamos”.
Joseph Carolac, 27 anos, é francês e assim surgiu o desejo da gaúcha de estar ao lado do companheiro onde ele estivesse. Faz sete anos que o casal está junto, e nesse meio tempo acabaram voltando para o Brasil, porque Gla recebeu uma proposta de trabalho. Eles se casaram em Floripa e depois de oito meses, Joseph não encontrou trabalho, devido ao pouco domínio da língua portuguesa.
“Na época, ele mandou alguns currículos para a França e foi chamado muito rapidamente. Como consegui conciliar meu emprego no Brasil trabalhando online do exterior, fiquei nesse formato durante a pandemia, o que me ajudou já que não conseguiria trabalhar na França, pois ainda não falava a língua”.
Uma machadinhense em Paris
O processo de imigração é demorado e por ser casada com um francês a burocracia continua a mesma. Gla já está renovando o visto pela terceira vez, enquadrada no pedido de reagrupamento familiar, e há nove meses espera pelos documentos.
Todas as experiências vivenciadas na Europa são definidas pela machadinhense como únicas e admiráveis. “São experiências incríveis de conhecer lugares, pessoas, países que você via em filmes e revistas quando era pequeno, com a língua, principalmente. Agora estou trabalhando 100% em francês. Ler um livro, escutar qualquer entrevista e entender é uma das experiências mais maravilhosas que estou vivendo”.
Saudade sem limites
Quando novas fronteiras são cruzadas e as distâncias se tornam mais longas, a saudade se fortalece. “Eu sinto falta de tudo. Do cheiro, das comidas, dos abraços, dos bate-papos. Diariamente sinto muita saudade da minha família e dos meus amigos. Não é uma coisa que passa com o tempo, isso só vai piorando, porque tenho a impressão que a saudade é algo sem limite. É uma pena que seja tão longe, isso me restringe de ir tão seguido quanto gostaria, mas todo o ano estou aí e já estou organizando o próximo ano para ficar três meses, porque dois da última vez não foi suficiente”, comenta Gla.
Conexão com novas culturas
Os planos ainda são incertos, Glaciane prefere viver o momento e organizar sua vida a curto prazo. “A princípio é ficar aqui por enquanto, sem planos de mudança. É um lugar que eu me sinto acolhida, amada, protegida. A família do Joseph é minha agora também. Me sinto super dentro da cultura, falando a língua, não é em cinco anos que tu aprende tudo, mas me sinto bem e feliz aqui”.
A ideia dela é passar temporadas mais extensas no Brasil. Um dos sonhos de Gla é conseguir um trabalho remoto na França que possibilite atuar em qualquer lugar. Também tenta, a partir de seu exemplo, incentivar seus sobrinhos e afilhados a conhecer novos lugares e culturas. “Sempre desejo, do fundo do meu coração, que um dia eles possam viver isso. É uma experiência difícil de contextualizar. Quando você vive, tu sente no coração”.
E quanto às olimpíadas, Gla não esconde a sua empolgação e a ansiedade de acompanhar tudo em terras parisienses.