O amor pelo campo fez o casal Cassiane e Ademar Szefer seguir os passos dos pais e permanecer no meio rural. Hoje com 26 e 39 anos e casados há oito anos e pais de dois filhos, trabalham em 20 hectares divididos em 5 hectares com parreiras, noz pecan, e o restante com pastagem e lavoura. Ademar conta que tudo o que tem na cidade ele tem na área rural e nunca pensou em trabalhar na área urbana. Eles residem na comunidade Santo Isidoro, interior de São Valentim.
“No campo temos de tudo, tecnologia, fazemos nosso próprio horário, estamos sempre com nossos filhos, temos qualidade de vida. O que teríamos na cidade temos aqui. E com relação a renda, ganhamos mais do que se estaríamos na cidade. Nunca pensamos em sair e queremos que nossos filhos sigam nossos passos, se gostarem do campo”, diz.
Conforme o censo do Ibge de 2010, o cenário regional no Alto Uruguai é de 39.227 propriedades rurais, sendo que destas, 12.710 tem jovens. Mas o panorama aponta que 26.500 propriedades não possuem sucessor. E conforme a assistente técnica regional Social da Emater, Fernanda Tacca Angonese, os números seguem a mesma tendência do Estado.
Institucionalmente a Emater avalia como um problema de sociedade porque se reflete na produção de alimentos já que a agricultura familiar é responsável por 80% da produção de alimentos que chega à mesa dos consumidores e também, uma questão social de continuidade da agricultura familiar que movimenta a economia regional. “Pois com exceção de Erechim e Getúlio Vargas, a grande maioria dos municípios da região tem como base da economia a agricultura”, diz.
Ações voltadas aos jovens rurais
Diante deste cenário, a Emater tem realizado algumas ações voltadas aos jovens rurais, como atendimentos direcionados ou individuais como as visitas domiciliares, orientação técnica, intercâmbio dos jovens com outras famílias e também ações de qualificação profissional. “Na Emater, de acordo com nossos dados de registro de jovens, no Alto Uruguai, trabalhamos com 7.300 jovens rurais que são acompanhados com assistência e extensão rural nos 32 municípios”, diz.
O trabalho da Emater vem ao encontro das necessidades de qualificação técnica para a agricultura familiar, tanto diretamente nas propriedades, como estimulando a participação em dias de campo, como em atividades no Centro de Treinamento de Agricultores de Erechim (Cetre) que promove atividades de qualificação. “E o que temos visto é que existem vários fatores que determinam a decisão do jovem permanecer na propriedade ou migrar para a cidade”, salienta.
Fatores que determinam a decisão do jovem permanecer na propriedade
Os principais fatores relatados pelos jovens, assim como levantados em pesquisa são: questão do diálogo intrafamiliar; envolvimento do jovem nas atividades produtivas e também uma certa dificuldade em confiar ao jovem algumas atividades para que ele tome conta delas – autonomia; que o jovem não se sente dono daquela terra, é um empregado e muitas vezes não remunerado - renda, participação do jovem nessa renda, nos lucros da propriedade ou um salário. Esses três fatores são os principais, mas tem outros como o fato da profissão agricultor não ser muito valorizada pela sociedade.
“É importante que a sociedade valorize o agricultor quanto profissional que gera renda, que produz alimentos e movimenta a economia dos municípios”, diz Fernanda.
Além disso, também é uma questão relatada por jovens é que a educação, quando chega no final do ensino médio, não fornece muito vínculo com o rural.
Resultados e exemplos de permanência no campo
De acordo com Fernanda, existe um movimento ainda pequeno, mas de retorno de jovens que saíram do meio rural, fizeram suas escolhas de trabalho na indústria e que analisaram o rural como oportunidade melhor, não só de renda, mas de qualidade de vida. Da lógica de ser dono do próprio negócio, ter domínio sobre sua carga horária.
Um exemplo é no município de Áurea, onde muitos jovens estão cursando o ensino superior, com o objetivo de retornar e aplicar o conhecimento na própria propriedade.
A Emater tem trabalhado dentro das atividades técnicas, dias de campo, de fruticultura, bovinocultura de leite, entre outros, uma estação que faz uma reflexão sobre a sucessão familiar: quais são os fatores para esta tomada de decisão e como a sociedade pode contribuir para esta decisão.
Em Erval Grande, a Emater tem uma parceria com a Cooperval, através de um projeto denominado Jovem Cooperativo, que prevê ações durante dois anos, voltadas a qualificação profissional do jovem, bem como de gestão da agricultura familiar. Participam jovens de Erval Grande, São Valentim, Faxinalzinho, Benjamin Constante do Sul, e serão inseridos alguns jovens de Itatiba do Sul. “Avaliamos um projeto piloto que depois possa se estender para outras cooperativas, porque as cooperativas também precisam de sucessão”, diz.
Políticas públicas
Os jovens rurais se enquadram dentro da faixa etária de 15 a 29 anos. Conforme Fernanda, hoje existe uma escassez de políticas públicas especificas para a juventude rural e não existem programas que incentivem a permanência do jovem no campo. Há uma necessidade que os gestores construam um olhar sobre o jovem rural e que essas políticas públicas possam viabilizar a permanência do jovem no campo e contribuir que ele permaneça com renda e qualidade de vida.