Quarta-feira à tarde. Calorenta... suada... véspera de feriado. A criançada voltava animada da Casa do Coelho. Olhos brilhando, cheios de fantasia e sonhos como só a infância produz. E, entre o riso e o agito, uma cena me chamou a atenção. Uma menina, com um daqueles coques de bailarina, segurava firmemente a mão esquerda de um coleguinha, enquanto a direita era disputada por mais meia dúzia de crianças. Fiquei encantada ao ver o carinho com que tratavam o menino — ora alisavam seu cabelo encaracolado, ora faziam-lhe carícias no rosto meigo e delicado. Enquanto a turminha ali no corredor permanecia, também viajei naquela cena de doçura. Quando receberam o chamado de partida, aproximei-me do grupo e disse:
- Como vocês são queridos com o coleguinha. Parabéns!
Dirigi-me, então, ao pequeno:
- Como é seu nome?
Daí adveio, em coro, a resposta rápida e cuidadosa:
- Tia, ele é autista. Não fala. A gente cuida dele.
E lá se foram todos, com passos ligeiros. A professora os aguardava logo à frente. Eu, ali permaneci, imóvel, perdida, mergulhada numa palavra: silêncio. E essa palavra ecoou em mim por dias, semanas.
Silêncio que, naquele instante, não era ausência — era presença plena. Não era vazio — era linguagem inteira, feita de gestos, de mãos dadas, de olhos atentos. O menino não falava, disseram. Mas quanta coisa dizia! Dizia no modo como aceitava o toque, no leve inclinar da cabeça, na confiança depositada naquelas pequenas mãos que o guiavam pelo corredor. E diziam também as crianças, sem discursos, sem explicações - apenas sendo. Cuidavam. Cuidar é uma das formas mais eloquentes de falar.
Há silêncios que protegem. O silêncio de uma mãe que afaga o filho junto ao peito, de um pai que observa, mesmo que à distância. Há silêncios que ensinam mais do que longos discursos, como o de um professor que, ao invés de corrigir em voz alta, apenas pousa a mão sobre o ombro do aluno. Há silêncios que curam quando falta a cura, como o do médico, que diante do inevitável, segura a mão trêmula do paciente.
Mas há, também, silêncios que inquietam. O silêncio diante da injustiça, que grita mais alto do que qualquer palavra. O silêncio cúmplice que se instala quando se escolhe não ver, não ouvir, não se posicionar. Em tempos em que o mundo parece saturado de vozes, opiniões e julgamentos — nas telas, nas ruas, nas mesas — cresce, paradoxalmente, o silêncio do que realmente importa. Silenciam-se afetos, escutas, empatia e respeito.
Há o silêncio das guerras, que não é ausência de som, mas excesso de dor. É o silêncio que fica depois do estrondo, quando restam apenas escombros e olhares perdidos. Há o silêncio das despedidas definitivas. Nesses momentos, o silêncio não é escolha — é linguagem possível.
Entre os idosos, há um silêncio ainda mais delicado — o das doenças senis. Não é apenas o esquecimento que se instala, mas uma espécie de dissolução da palavra. Aos poucos, frases se desfazem, nomes escapam, histórias se fragmentam. É um silêncio que pede escuta paciente, olhar atento, presença verdadeira.
E há o silêncio de quem não consegue falar — não por falta de voz, mas por excesso de mundo dentro de si. Crianças, como aquele menino, que encontram outras formas de existir e de se expressar. Seus silêncios pedem escuta, pedem sensibilidade, pedem pausa.
Talvez o maior equívoco seja acreditar que só fala quem usa palavras. No fundo, o silêncio não é o contrário da palavra: é o espaço onde ela nasce. Seu berço. É ali que as ideias amadurecem, que a escuta acontece e que o mundo encontra algum equilíbrio entre o dizer e o calar.
Naquele corredor, naquela tarde quente, aprendi — ou talvez apenas recordei — que o silêncio também educa. Ensina a perceber o outro, a respeitar ritmos, a valorizar pequenas delicadezas. As crianças sabiam. Sabiam, com a sabedoria simples e luminosa de quem ainda não desaprendeu a sentir.
E eu, ali parada, compreendi que há silêncios que são, na verdade, as vozes mais altas que podemos ouvir — basta que o coração esteja disposto a escutá-las. Porque, às vezes, a fala mais honesta não vem do grito — vem da pausa... vem do silêncio.