O Brasil relembra neste ano os 100 anos da Coluna Prestes, um dos movimentos políticos e militares mais marcantes da história republicana nacional. Iniciada em 1925, a marcha liderada por oficiais tenentistas percorreu milhares de quilômetros pelo interior do país e tornou-se símbolo de contestação ao sistema político da chamada República Velha, período marcado pelo domínio das oligarquias estaduais, fraudes eleitorais e forte concentração de poder.
Mais do que um episódio militar, a Coluna Prestes entrou para a história como movimento de denúncia e de questionamento sobre os rumos do país, influenciando debates que ajudariam a moldar a política brasileira nas décadas seguintes.
Origem do movimento
A Coluna surgiu da união de grupos rebeldes ligados ao movimento tenentista, corrente formada por jovens oficiais do Exército que defendiam reformas políticas, voto secreto, moralização administrativa e maior presença do Estado no desenvolvimento nacional.
Após levantes anteriores, como a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, remanescentes militares reorganizaram forças no Sul e em outras regiões do país. A partir daí nasceu a chamada Coluna Miguel Costa-Prestes, liderada por Miguel Costa e tendo em Luíz Carlos Prestes um de seus principais estrategistas e nomes mais conhecidos.
Entre 1925 e 1927, o grupo cruzou diferentes estados brasileiros em uma longa marcha, evitando confrontos diretos prolongados com tropas governistas e buscando manter viva a contestação política.
Importância histórica
A relevância da Coluna Prestes vai além do aspecto militar. O movimento expôs fragilidades institucionais do Brasil da época e ajudou a ampliar o debate público sobre representação política, justiça eleitoral e desigualdade regional.
Ao percorrer áreas distantes dos grandes centros, os integrantes também entraram em contato com um Brasil pouco conhecido pelas elites urbanas: marcado por pobreza, ausência estatal e carência de infraestrutura. Essa experiência contribuiu para fortalecer críticas ao modelo político vigente.
Especialistas apontam que a Coluna simbolizou o desgaste da República Velha e antecipou mudanças que culminariam na Revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder e encerrou aquele ciclo político.
Família Prestes em Erechim
Para abrilhantar ainda mais esta jornada, o Grupo Bom Dia de Comunicação recebeu para uma entrevista, acompanhados pela professora Izabel Gritti da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), nada mais, nada menos que os filhos de Luiz Carlos Prestes, ou seja, Luiz Carlos Prestes Júnior, Zoia Prestes e da neta de Prestes, todos com uma vida acadêmica e profissional muito fincada na parte histórica do Brasil.
Durante a entrevista Luiz e Zóia destacaram a importância dos 100 anos da Coluna, como o papel que Prestes teve na história política do Brasil, principalmente pela relevância que alcançou na esfera brasileira e internacionalmente, mas principalmente para falarem de uma atividade que estão desenvolvendo em todos os campus da UFFS onde, com a presença de debatedores Mestrandos e Doutorandos pontuam não somente o fato histórico da Coluna Prestes no Brasil, mas também com relação a presença de mulheres, crianças e negros nesta jornada de 24 mil quilômetros Brasil afora. Uma oportunidade ímpar para conhecer, de fato, quem e o que fez o Cavaleiro da Esperança como ele é denominado dentro da história nacional.
Com relação ao legado do pai, Luiz pontua que a Coluna Prestes foi o único evento revolucionário na história do Brasil que não foi derrotado. “Foram dois anos e três meses de marcha pelo país, seguidas por tropas superiores do Exército Brasileiro e quando termina a sua luta ela vai sair organizada e atravessa a fronteira do Brasil com a Bolívia e deposita as armas.
Naquele momento a Coluna já tinha despertado o povo brasileiro, ou seja, já tinha dito que era necessário que o Brasil começasse a ter eleições livres com voto secreto e que a mulher tivesse o direito de voto para que o país fortalecesse seu setor econômico, atravessasse um processo de industrialização e que o povo brasileiro lutasse pela sua soberania. Que não permitisse que nenhuma outra nação mais rica se apoderasse de nossas riquezas”
Com uma vida focada em várias frentes de atuação e com uma boa base construída na antiga União Soviética, tendo morado por vários anos e inclusive tendo sido tradutor em um encontro entre Putin e Lula, Luiz destaca que a Coluna Prestes foi esquecida por dezenas de anos. “Não constava nos livros didáticos, as teses acadêmicas não eram apreciadas. A Coluna é um exemplo de que o povo pode lutar e pode vencer. É o único movimento revolucionário que não foi derrotado na história do Brasil. Gosto de citar que Zumbi dos Palmares foi degolado depois de preso e a cabeça foi exposta em praça pública, assim como aconteceu com Tiradentes e Antônio Conselheiro. A elite brasileira, principalmente a política e a econômica, odeiam Luiz Carlos Prestes porque não conseguiram degolar”.
“Luiz Carlos Prestes viveu 92 anos, deixando um legado de que é possível lutar e não ser derrotado, principal legado do meu pai. Uma mensagem ao povo brasileiro de que vale a pena lutar, pois na luta nós podemos ser vitoriosos, e a Coluna é a prova de que o povo brasileiro também é vitorioso, sabe o que é lutar quando ele acredita em um ideal, quando ele tem objetivos muito firmes. Com certeza ele atravessa 24 mil quilômetros entre os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Distrito Federal, Tocantins, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais e depois volta”. Para o filho de Prestes, a Coluna teria iluminado o povo brasileiro e serve de exemplo da capacidade de luta.