A maternidade alterou rotinas, adiou projetos e exigiu reorganizações na vida acadêmica de Leila Hausen, Suélen Pawelkiewicz e Roberta Malinowski. Em comum, as três compartilham a experiência de conciliar estudos, trabalho e responsabilidades familiares em diferentes etapas da formação universitária.
“Formamos um verdadeiro time no dia a dia”
Leila Hausen, de 41 anos, cursa o 9º semestre de Direito na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), em Erechim. Mãe de Rafael, de 15 anos, e Felipe, de 11, ela iniciou a graduação depois de já ter constituído família.
Atualmente, divide a rotina entre as aulas pela manhã, o estágio na Justiça Federal durante a tarde e os estudos para o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e para o exame da OAB, no qual já foi aprovada. “A rotina é bastante intensa, por isso a organização precisa ser rigorosa”, relata.
Segundo ela, os filhos participam ativamente da dinâmica da casa. “Formamos um verdadeiro time no dia a dia, sempre nos ajudando mutuamente.”
Leila também fala sobre a importância da rede de apoio formada por familiares e amigas para auxiliar nos deslocamentos e compromissos dos filhos.
“Todos os momentos que eu tinha disponíveis, eu estava estudando”
Suélen Pawelkiewicz, de 36 anos, cursa o 9º período de Licenciatura em História na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), campus Erechim. Mãe de Paola, de 14 anos, e Isabela, de 8, ela ingressou na universidade em 2022, após anos adiando o sonho da graduação.
“Quando a universidade chegou na nossa região, eu já era mãe da Paola, e pouco depois veio a Isabela. O sonho da graduação foi sendo adiado”, conta.
Durante grande parte do curso, conciliou a graduação com o trabalho em uma farmácia. Hoje, atua como bolsista do PIBID, realiza estágios obrigatórios e participa de atividades ligadas à Livraria & Sebo Agridoce. “Todos os momentos que eu tinha disponíveis, eu estava estudando”, afirma.
Ela relata que precisou adaptar constantemente a rotina da casa aos horários das filhas e às demandas acadêmicas. Em alguns momentos, chegou a levar as crianças para a universidade. “Muitas vezes precisei levar minhas filhas para dentro da sala de aula, e elas foram muito bem acolhidas”, diz.
“Precisei aprender a aceitar meu novo ritmo”
A professora Roberta Malinowski, de 42 anos, cursa o 3º semestre do Doutorado em Ciência e Tecnologia Ambiental na UFFS Erechim. Ela é mãe de Daniel, 9 anos, e atua como assessora do Setor de Vantagens da Carreira da 15ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE).
Roberta conta que interrompeu a graduação em Arquitetura e Urbanismo ao descobrir a gravidez. “Era um curso que exigia muita dedicação prática e presencial. Naquele momento, entendi que precisava priorizar minha saúde e a do meu filho”, relata.
Anos depois, buscou alternativas em cursos a distância e retomou a vida acadêmica presencial em 2024, ao ingressar no doutorado, 17 anos após concluir o mestrado.
Hoje, divide a rotina entre o trabalho em dois turnos e os estudos realizados à noite e nos finais de semana. “Precisei aprender a aceitar meu novo ritmo e entender que nem tudo sairia da forma como eu gostaria”, afirma.
Ela conta que a principal dificuldade atualmente é encontrar tempo para desenvolver as pesquisas e a escrita da tese. Apesar dos desafios, Roberta relaciona a permanência na pós-graduação à importância da produção científica e da presença das mulheres na academia.
“Acredito na importância da inclusão das mulheres e mães com maior equidade na ciência”, conclui.
“Cada conquista carrega muitas histórias”
Apesar das diferenças nas trajetórias, as três entrevistadas relacionam a formação acadêmica a processos de transformação pessoal construídos ao longo dos anos. Entre aulas, trabalho, maternidade e rotina doméstica, a permanência na universidade passou a representar também resistência, adaptação e realização profissional.
“Conciliar maternidade, estudos e rotina não foi fácil, mas foi profundamente transformador”, afirma Leila Hausen.
Para Suélen Pawelkiewicz, a graduação representa a concretização de um projeto antigo. “Esse diploma carrega cada dificuldade enfrentada, mas também cada pequena conquista”, diz.
Já Roberta Malinowski salienta que é importante respeitar os próprios limites e trajetórias. “Cada mãe vive realidades diferentes. É importante aprender a aceitar o próprio ritmo”, ressalta.