A presença de estudantes migrantes no Ensino Médio Integral da Escola Estadual de Educação Básica Dr. Sidney Guerra, em Erechim, esteve entre os fatores que motivaram a instituição a optar pelo curso técnico em Desenvolvimento de Sistemas como itinerário formativo. A proposta passou a ser ofertada a partir de 2025, quando as escolas de tempo integral da rede estadual receberam a possibilidade de integrar cursos técnicos ao currículo regular.
Segundo a supervisora escolar Cleci Lovera, a escolha foi pensada a partir das características da comunidade escolar e das possibilidades de inserção profissional dos estudantes. “A programação é uma linguagem sem fronteiras. Em um ambiente com muitos estrangeiros, o curso promove integração e networking multicultural”, afirma. Ela destaca ainda que a disciplina de Inglês para Programação de Sistemas busca preparar os alunos para atuar em diferentes contextos profissionais.
Com carga horária de 1.200 horas, o curso pertence ao eixo tecnológico de Informação e Comunicação e oferece qualificações profissionais em Programador de Sistemas, Administrador de Banco de Dados e Agente de Inclusão Digital em Centros Públicos de Acesso à Internet.
O professor Willian Paulo Peruzzolo, responsável pela coordenação do curso no Ensino Médio Integral, explica que a implantação ocorreu a partir de uma iniciativa do Governo do Estado em conjunto com a coordenação da escola. Segundo ele, a instituição já buscava desenvolver propostas ligadas à inovação e à tecnologia.
“O curso iniciou neste ano letivo e os estudantes têm demonstrado bastante interesse pelas aulas. Alguns têm mais facilidade, outros menos, mas todos são participativos e empenhados”, relata.
Além da formação em Desenvolvimento de Sistemas, os estudantes também têm contato com conteúdos introdutórios de informática, ferramentas digitais e habilidades socioemocionais. Nos primeiros anos, as aulas abordam fundamentos da programação e uso de plataformas como Google Workspace, Canva e PowerPoint, além de digitação, lógica básica e uso consciente da inteligência artificial.
No segundo ano, os conteúdos passam a incluir linguagens de programação voltadas ao front-end, como HTML, CSS e JavaScript, além de banco de dados, documentação técnica e metodologias ágeis.
As atividades práticas são desenvolvidas em um laboratório de informática reformulado pela equipe docente. O espaço conta com computadores atualizados, monitores ergonômicos, ar-condicionado e estrutura voltada às aulas técnicas.
Projetos integradores e inclusão digital
Entre as propostas desenvolvidas no curso estão projetos integradores que unem conhecimentos técnicos e demandas sociais. Um dos trabalhos realizados pelos estudantes foi a criação de um cardápio digital acessível voltado a imigrantes e turistas, disponível em português, espanhol, inglês e italiano. O projeto também inclui recursos de acessibilidade e informações nutricionais.
Outra turma desenvolve um site sobre permacultura para divulgação de práticas sustentáveis, enquanto estudantes do segundo ano trabalham na criação de um portal de notícias para a escola.
A estudante Maria Eduarda Piccinin, de 16 anos, conta que a turma iniciou recentemente atividades de criação de sites utilizando o VS Code. “Esse é só um exemplo do site. Depois, o site que a gente vai fazer e publicar vai ser mais organizado. Esse está mais simples para a gente ir entendendo os princípios”, explica.
O professor acrescenta que a proposta é transformar o projeto em um portal de notícias da escola. “A nossa ideia depois é criar um site de notícias para a escola”, afirma.
Além das atividades ligadas à programação, os estudantes também participam de ações de alfabetização digital com turmas do Ensino Fundamental. Lucas Londero, de 16 anos, aluno do segundo ano, relata que o projeto começou com atividades introdutórias sobre computadores e digitação para estudantes do quarto ano.
“Por enquanto, a gente está apresentando para eles o teclado, a história dos computadores e os tipos de computador. Depois, a gente vai começar a fazer atividades para eles aprenderem a digitar”, conta.
Lucas afirma que já tinha interesse pela área antes de ingressar no curso. “Eu comecei a gostar mais quando fiz um curso de inglês e informática juntos”, relata. Sobre as atividades desenvolvidas nas aulas, ele conta sobre o aprendizado relacionado à construção de sites. “Estou achando bem interessante essa parte do desenvolvimento do site, do esqueleto dele”, diz.
Ao concluírem o Ensino Médio, os estudantes recebem habilitação técnica em Desenvolvimento de Sistemas, podendo atuar em áreas como desenvolvimento de softwares, aplicações web e mobile, suporte técnico, banco de dados e infraestrutura. De acordo com a supervisora, mesmo os alunos que optarem por seguir outras áreas saem da formação com conhecimentos voltados ao uso de ferramentas digitais em ambientes administrativos e profissionais.