Todo este sistema dos Data Centers (DC), que emprega tecnologia de ponta, eu não tinha um conhecimento mais detalhado e apurado. É um “mundo novo”, desconhecido para a maioria das pessoas.
Hoje lembrei que, no tempo da faculdade, na Universidade Federal de Santa Maria, há 50 anos, tínhamos uma matéria de computação cuja linguagem era denominada “Fortran”. Para fazermos textos e cálculos, tínhamos que codificá-los na linguagem do computador, usando uma espécie de máquina de escrever que furava os cartões. Estes eram deixados para o dito supercomputador fazer os cálculos e a impressão. Havia um andar inteiro no prédio da Reitoria, no Campus da UFSM, para abrigar o “supercomputador”, e todo o andar era refrigerado. Aquilo era algo surreal, até então inimaginável.
Passados estes 50 anos, hoje levamos um computador — notebook ou tablet — numa pequena pasta. Um celular, que não deixa de ser um minicomputador, no bolso.
Há alguns anos surgiram os Data Centers, como escrevi na matéria anterior. Trata-se de uma “fábrica sem chão de fábrica”, porque, depois de prontos, rodam quase sozinhos; o grosso dos empregos está na construção.
O boom, que começou em 2023, teve investimentos de R$ 6,6 bilhões. De 2024 a 2026, a previsão é de mais de R$ 50 bilhões.
- Quanto custa montar um data center? Depende do tamanho, mas o valor é altíssimo. Por exemplo, um Data Center pequeno ou médio — empresa ou colocation —, de 5 a 10 MW de capacidade, custa de R$ 200 milhões a R$ 500 milhões. Só os geradores e nobreaks já custam de R$ 40 milhões a R$ 80 milhões; a refrigeração industrial custa de R$ 30 milhões a R$ 60 milhões; os servidores variam, e cada rack com servidor pode ir de R$ 300 mil a R$ 2 milhões. Os hyperscale, como Google, AWS e Microsoft, de 30 a 100 MW, custam de R$ 1,5 bilhão a R$ 6 bilhões por campus. Como exemplo real, o campus da Scala, em Barueri-SP, tem 100 MW e custou R$ 3 bilhões. Só a conta de luz de um DC de 30 MW gasta R$ 15 milhões por mês em energia.
- Por que é tão caro?
Energia: precisa de subestação própria, geradores a diesel para backup e nobreaks gigantes;
Refrigeração: ar-condicionado de precisão, mais chillers, sendo que 40% do custo operacional é só para resfriar;
Segurança: piso elevado, combate a incêndio com gás e redundância de tudo;
Conectividade: link de fibra dedicado e redundante, custando milhões por ano;
Terreno: tem que ser perto de subestação, fibra e longe de alagamentos e terremotos.
- Quanto gera de emprego na fase da construção? Um campus hyperscale de R$ 3 bilhões gera trabalho por 2 a 3 anos:
a) de forma direta, sendo na obra civil: 800 a 2.000 pessoas, desde pedreiro, eletricista, encanador e soldador; engenharia especializada: 200 a 400 pessoas, técnicos de HVAC, energia e automação;
b) empregos indiretos: restaurante, transporte e hotel na cidade.
Como exemplos reais: em Barueri-SP, a construção dos DCs tipo Scala gerou 2.500 empregos; em Campinas, o DC da Microsoft gerou 1.800 empregos simultâneos em 2023.
Após a construção, na fase de operação, gera bem menos empregos. Depois que o sistema entra em operação, tudo fica automatizado. Um DC de 30 MW roda somente com 30 a 80 pessoas. Os cargos que ficam são os técnicos de data center, que têm a função de trocar HD, plugar cabos e monitorar 24 horas. O salário vai de R$ 4 mil a R$ 8 mil. Já o engenheiro de rede/energia tem como função cuidar dos links e geradores. O salário vai de R$ 12 mil a R$ 25 mil. A parte da segurança patrimonial gera de 4 a 5 empregos por turno. E ainda tem o pessoal da limpeza, jardinagem e manutenção predial. No total, necessitam de 50 pessoas diretas para um prédio que custa R$ 1 bilhão. Entretanto, tem volta, surgem os provedores de nuvem — AWS, Azure e Google — que contratam devs, suporte e vendas, gerando muitos postos de trabalho.
- Como eles se conectam com o mundo? Os DCs se conectam com o mundo por cabos de fibra óptica. Pense no DC como um aeroporto: sem pista, nenhum avião decola; sem fibra óptica, não há transmissão de dados.
E pensar que estes cabos de fibra óptica são lançados em rios e oceanos para interligar cidades, estados e países. Os “cabos submarinos” que saem do Brasil passam por Fortaleza.
Você, leitor, sabia que 95% da internet mundial passa por cabos no fundo do mar? E que eles têm o tamanho de uma mangueira de jardim? Sabia que, no Brasil, em 2023, o setor empregou 12 mil pessoas diretamente e mais 60 mil indiretamente? E que a previsão para 2026 é de 25 mil empregos diretos com os novos campus, com salário médio de R$ 9.200,00 por mês?