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Esportes

Copa do Mundo, quando as memórias entram em campo

Torneio mundial, que inicia na quinta-feira, 11 de junho, recupera a identificação dos povos

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“Mesmo com o esporte ficando elitizado a cada ano que passa, o torneio ainda é o auge do esporte”, d
Everton Ruchel, pesquisador de futebol, faz coleção de álbuns da Copa do Mundo
Por Marina Oliveira
Foto Marina Oliveira

Assim como qualquer manhã de inverno no interior do Rio Grande do Sul, aquele domingo, 30 de junho de 2002, fazia frio, mas diferente dos demais dias marcados por baixas temperaturas, aquela não era uma manhã qualquer. “É penta!”, na voz de Galvão Bueno, ecoa até hoje na memória de quem viveu um dos maiores marcos da história do “país do futebol” até aqui. Brasil pentacampeão, com dois gols de Ronaldo Fenômeno, sob o comando de Felipão.

Para o erechinense Everton Ruchel, pesquisador de futebol, dois momentos vêm à memória quando o assunto é Copa do Mundo. Ambos, feliz ou infelizmente, têm relação com a Alemanha. “Em 2002, a vitória do Brasil na final por 2 a 0 e a comemoração nas ruas. Eu tinha 8 anos e lembro de acordar por volta das 6 da manhã para ver os jogos daquela Copa. A final foi às 8 horas. E em 2014, a derrota para a Alemanha na semifinal, por 7 a 1, na Copa do Mundo em casa. O time não estava muito bem, mas o otimismo era maior naquele oito de julho. Me lembro dos gols saindo um atrás do outro e de ficar sem reação na frente da televisão”, relata.

 

Memórias em campo

Há, no futebol, a capacidade de registrar a passagem do tempo. Nesse país, que vive e respira o jogo, são inúmeras as memórias que se entrelaçam à história do esporte.

“Acompanho futebol desde que me entendo por pessoa. Meu irmão mais velho era assinante da Revista Placar na década de 1990, e eu peguei o hábito de colecionar conforme fui crescendo. Hoje tenho 32 anos e possuo uma coleção de revistas que vão desde 1980 até 2026. São cerca de 400 exemplares. Também mantenho no ar um blog sobre história do futebol desde 2015, o Edição dos Campeões, onde eu conto a história de clubes que venceram campeonatos através das fotos posadas, aquelas que viram pôster depois. Por fim, o hábito dos álbuns da Copa do Mundo que comecei a colecionar em 2010, mas lembro de comprar figurinhas desde os meus dez anos de idade”, conta o pesquisador.

Mas é tênue a linha entre a identificação e o cinismo. “A Copa do Mundo virou um canhão comercial ao longo do tempo. Saímos da bola de couro e da transmissão pelo rádio e tabelinhas de bolso para a bola com chip, jogos pela internet e gols em tempo real no celular. Publicidades milionárias ao redor dos gramados que acompanharam a tendência de elitização dos estádios nos principais campeonatos do mundo”, aponta Ruchel.

O pesquisador analisa ainda que o caráter representativo do esporte deu lugar a uma postura discriminatória, em que o produto, antes palpável para todos, foi transformado em instrumento midiático. “Não é mais qualquer um que pode assistir a um jogo no estádio, principalmente a Copa. Ou você tem muito dinheiro, ou tem que se contentar em ver em casa. Sorte nossa que a televisão aberta ainda é forte no Brasil”.

 

O antídoto

Ainda assim, a Copa do Mundo demonstra ser o alívio em meio ao cenário político do futebol mundial, como se, por pouco mais de um mês, as nações pudessem voltar a sonhar. É a representatividade de um povo, a conexão entre quem joga e quem assiste.

“Mesmo com o esporte ficando elitizado a cada ano que passa, o torneio ainda é o auge do esporte. É um evento que supera qualquer coisa que alguém pode imaginar. É o sonho de qualquer um que consegue ver de dentro do estádio e o ápice de um povo que nem sempre pode sorrir, principalmente naqueles países que não se classificam sempre, ou que disputam a Copa pela primeira vez. Para esses, só de estarem participando, sem chances de vitória, já é o máximo”, relata Ruchel.

Fãs do esporte ou não, que a energia da Copa toma conta do cotidiano, do Sul ao Norte, isso é indiscutível.

“Diferentemente do que muitos pensam, não vejo uma redução no interesse local sobre a Copa do Mundo. O que mudou foi a forma de manifestar esse interesse. Com a internet e a televisão cada vez mais evoluídas, deixou de valer a pena o hábito de reunir várias pessoas em um mesmo lugar, ou fechar a rua para que todos assistam os jogos do Brasil. Quando a Copa se aproxima, as pessoas vão se interessando cada vez mais, mesmo que não pareça. E no fundo acabam torcendo. É impossível ficar indiferente diante de uma Copa do Mundo, mesmo que não goste de futebol”, conclui o pesquisador, com expectativa positiva para o que pode acontecer, a partir de 11 de junho, dentro das quatro linhas.

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