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Família indígena transforma sonhos em realidade e inspira novas gerações

Com três filhos na Medicina, mãe celebra uma conquista que simboliza a força da educação, da perseverança e o protagonismo do povo indígena brasileiro

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Por Carlos Silveira
Foto Arquivo pessoal

 O que um dia parecia impossível tornou-se motivo de orgulho para uma família e para toda uma comunidade indígena. Da Aldeia Votouro, em Benjamin Constant do Sul, três jovens conquistaram uma das carreiras mais concorridas do país: a Medicina. Mais do que uma vitória pessoal, a trajetória representa um símbolo de superação, valorização da educação e fortalecimento do protagonismo dos povos indígenas.

 A conquista ganha um novo capítulo nesta sexta-feira, 3 de julho, com a formatura de Jéssica Flávia de Oliveira pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Sua irmã, Carina de Oliveira Ribeiro, concluiu o curso de Medicina em 2024, pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG).

Já o caçula da família, Rian de Oliveira Toniolli, de 18 anos, ingressou neste ano no curso de Medicina da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

 A história dos três filhos se confunde com a trajetória de luta da mãe, Noeli de Oliveira, que criou as filhas sozinha, enfrentando dificuldades financeiras e sociais, sem jamais abrir mão da esperança de oferecer um futuro melhor à família.

 "É um sentimento que não sei explicar. Ainda não caiu a ficha. Houve momentos em que parecia impossível, mas hoje estamos vivendo um sonho", relata Noeli, emocionada.

 Ela lembra que nem sempre conseguiu oferecer o apoio financeiro que gostaria às filhas durante a graduação. Mesmo diante das limitações, o incentivo aos estudos e o amor familiar nunca faltaram.

 "Passamos por muitas dificuldades quando elas eram crianças. Muitas vezes eu não conseguia ajudá-las financeiramente, mas o nosso amor sempre foi maior que qualquer dificuldade."

 Segundo Noeli, a realidade enfrentada por muitos jovens indígenas ainda torna o acesso ao ensino superior um enorme desafio. Além da concorrência por uma vaga, muitos precisam deixar suas aldeias, adaptar-se a grandes centros urbanos e enfrentar custos elevados para permanecer estudando.

 "Medicina é o sonho de muitos dos nossos jovens, mas muitos acabam desistindo porque não conseguem se manter longe da família e da sua realidade. Não basta entrar na universidade, é preciso conseguir permanecer nela." Para a família, no entanto, essa conquista ultrapassa os limites pessoais. Ela representa uma vitória coletiva.

 "Cada indígena que se forma em uma universidade representa o nosso povo. Estamos mostrando que temos uma cultura diferente, mas somos tão capazes quanto qualquer outra pessoa. Também podemos ocupar espaços, construir conhecimento e contribuir com a sociedade."

 A Aldeia Votouro, em Benjamin Constant do Sul, passa a escrever um capítulo singular de sua história. A família acredita ser, possivelmente, a única aldeia a reunir três indígenas da mesma família cursando ou já formados em Medicina.

 O feito é motivo de orgulho para a comunidade e inspira outras crianças e jovens indígenas a acreditarem que a educação pode transformar vidas, romper barreiras históricas e abrir novos caminhos.

Legenda: Carina de Oliveira Ribeiro, Jéssica Flávia de Oliveira, Rian de Oliveira Toniolli

Foto: Arquivo pessoal

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