Quando alguém morre, não vai.
É mentira essa história de "se foi". Ficou.
Ficou no riso que a gente dá sozinho e depois se assusta. Ficou na mão que a gente estende no escuro e esquece que não tem mais ninguém pra segurar. Ficou na voz baixa às 3 da manhã, quando a casa resolve falar sozinha.
A morte é prática. Resolve o corpo e pronto. Mas, e o resto? O resto ela não dá conta, o manda de volta. Bondade não morre. Entrega não morre. Aquela mania de arrumar a mesa, de perguntar se você almoçou, de brigar por bobagem... isso fica rodando pela casa igual a um gato sem dono.
No começo dói. Dói porque a gente queria mais tempo. Não tenha pressa. Mais uma conversa. Mais um "te amo" dito sem tempo certo. Aí o tempo passa e a dor aprende a sentar no canto da varanda, se fazendo ouvir no canto dos passarinhos que voam, despedindo-se das aventuras. Quieta, vai embora, bate asas. Vai para onde a magia não mais acontece.
A gente reaprende a viver. Torna a caminhar. Agora anda em dois planos ao mesmo tempo: o da rua, com gente e semáforo, e o de dentro, onde essa pessoa continua do lado, bem pertinho, dando conselhos, franzindo a testa, fazendo caretas. Muitas vezes rindo, pois o riso é o elixir da vida, o limiar da solidão.
É por isso que não existe o adeus. Existe, sim, o "até breve".
Porque amor não tem prazo de validade e é infinito enquanto dura. E a saudade só passa recibo quando a gente sabe que amou direito.
A dor é o preço. E é barato perto do que se ganha.
Se amar dói, paciência. Não faça adivinhações: fatalmente serão erradas. Somente feche o livro na última página.