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Expressão Plural

Odisseia: quem volta para casa?

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Gerson Egas Severo
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

Nas últimas semanas e dias, muito se voltou a falar da Odisseia, de Homero, em razão da adaptação cinematográfica de Christopher Nolan. O hype em torno disso me fez lembrar de um livro que li há alguns anos e que continua sendo uma das experiências de leitura mais intensas que tive: Circe, de Madeline Miller. Procurá-lo nas estantes hoje representou, também, o exercício de reencontrar uma pergunta antiga: afinal, tornamo-nos quem já somos ou nos inventamos ao longo do caminho? E mais (Nolan acrescentaria): quem exatamente volta para casa? 

A escritora estadunidense toma uma personagem relativamente desimportante da “Odisseia”, de Homero, e a desenvolve em todas as direções: reconta e inventa uma sua história. Um dos elementos dessa narrativa envolve o trabalho da titã, ninfa e bruxa em construção Circe, com a “essência” de certas flores que existem em solos em que o sangue de deuses/as foi derramado, e que, uma vez ingeridas, fazem com que a pessoa se torne quem ela é – seja este “quem se é” um “quem se é” essencial, ou um “quem se é” criado, inventado, cultivado. Circe faz coisas do arco da velha com essa feitiçaria (entre outras) em sua jornada, e, no fim da narrativa, ela mesma ingere um daqueles preparados, tornando-se humana. Há um jogo entre o que se é e o que se quer ser, ou o que se espera ser. 

Isso me remeteu a uma Grécia um pouco menos antiga, os tempos clássicos de Sófocles e de Sócrates, trançada ainda com as predições imperativas do destino que vinham do Oráculo de Delfos, cidade em que, em templo dedicado a Apolo, lia-se a célebre inscrição “Conhece-te a ti mesmo”. Vejam: a literatura de autoajuda tem atrapalhado bastante, mas estamos até hoje com isso de conhecer-nos a nós mesmos, seja como uma condição para que venhamos a conhecer ao outros/as e ao mundo, seja como um reconhecimento de que o conhecer-se a si mesmo é tudo o que, no melhor dos casos, é possível para fazer.

É interessante notar que em “Édipo-Rei”, de Sófocles, Jocasta, intuindo (ou sabendo, inconscientemente ou não) a desgraça, brada em desespero para um Édipo atônito: “Jamais saibas quem és!” – o que deixa a gente bem no meio de uma roda de samba, ou de capoeira, um tanto doida. E agora: é para eu conhecer-me a mim mesmo ou é para eu nunca saber quem eu sou? Conhecer é realizarmo-nos em nossas potencialidades humanas ou é um empreendimento de natureza trágica – o saber como tragédia, ruína?

Mestre Dogen, no Japão medieval, escreveu que “conhecer-se a si mesmo é esquecer-se de si mesmo”, produzindo, em clave budista, um deslocamento notável. E então? Como ficamos? No filme “Pérolas no Mar” (René Liu, 2018; mas pode ter sido também em “Stranger Things”, não anotei a referência e vi tudo meio junto), um personagem apresenta uma ideia, uma hipótese, uma proposição, um insight, um cutuco sobre o sentido da vida, o sentido de tudo: “Não é sobre você.” De certo modo, e sob certa mediação e qualificação, bate com o esquecer-se de si mesmo, não é? Por outro lado, muito antes de Mestre Dogen ter estado na China, os monges taoístas afirmavam que a obrigação de uma pessoa é completar a sua jornada com seu Tao, ou Caminho (odisseia?) pessoal. E voltamos a nos lembrar de nós mesmos: não é sobre nós e ao mesmo tempo é.

Como concluir este texto? Acho que vou fazê-lo com um outro brado, não o de Jocasta, mas o de Naruto, ele mesmo, o jovem ninja e futuro hokage da Vila da Folha: “O que estamos fazendo aqui? Ninguém sabe nada! Não dá para acreditaaar!!!” Um brado que, plausivelmente, algum marujo de Ulisses também deve ter dirigido à escuridão das noites gregas.

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