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Opinião

Inventário e o outro lado das verdes verdades

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Alcides
Por Alcides Mandelli Stumpf – Médico - Presidente da Associação dos Amigos da Biblioteca Pública do Estado do RS - Membro da Academia Erechinense de Letras
Foto Alcides Mandelli Stumpf

Sala de espera, por exemplo. Autarquia. Banco digital quando a internet resolve não funcionar.  

Atraso de avião. Imposto de Renda, sobretudo quando não se tem renda pra pagar.  

A penúltima hora de qualquer viagem. Garçom malcriado. Uísque que não é uísque.  

Dormir às seis da tarde e acordar no meio da noite carregado de culpa.  

Anúncio na televisão. Bafo na nuca, dentro ou fora do elevador. Fila no elevador.  

Tinta que seca na hora errada. Na caneta, na impressora, na lápide da vida.  

Pobre bajulando rico. Rico bajulando pobre. Doença em gente da nossa idade.  

Cachorro mordendo a canela. Ser convidado pra dançar quando não se sabe.  

Falta d’água. E gente que não tomou banho por falta d’água.  

Esquecer a carteira. Esquecer o cartão.  

Não reconhecer alguém que já nos apresentaram duas vezes e ouvir: "Você não lembra de mim?"  

Mulher feia falando mal de mulher bonita. Restaurante no subsolo.  

Voz bonita demais. Gente irritante.

É muito, eu sei. Mas a vida é isso. Um acúmulo de muitas coisas e pessoas. Um pouco demais pra mim. Coisas que envelhecem mal.

Depois vem a volta, a refrega ao avesso. Vale listar:

Feriado. Chuvoso ou árido. Sim ou não.  

Internet que funciona.  

Tirar o sapato depois da formatura e jogar pra longe.  

Andar descalço na grama molhada.  

Canivete alemão. Passarinho colorido que pousa perto sem medo.  

Rasgar papel inútil. Dinheiro que aparece sem avisar pra gente rasgar também.  

Vento de montanha. Lareira em noite fria.  

Catedral gótica. Igreja barroca. Milho cozido.  

Foto em que a gente ficou menos feio.  

Viagem pra Europa, de graça, na primeira classe.   

Matar aula. Dia de feijoada. Caixa de ferramentas. Autorama.  

Achar semelhança entre gente e bicho em sonhos ou na rua.  

Cheirinho de capim molhado. Gente que imita os outros, igual aos bichos.  

Cachacinha antes da feijoada.

No fim é isso.  

A vida não é boa nem ruim. É uma lista.  

E a gente vai riscando.  

Algumas coisas com raiva. Outras com suavidade, ou saudade.

Ficamos mais secos, mais diretos. Temos pouco tempo a perder, zero poesia. Só resta observar.  

É assim que o meu amigo escritor fazia: pegava o banal e transformava em verdes verdades, nuas e cruas. Triviais como bife, batatinha e ovos.

Sim, não há tempo a perder.

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