A partir do primeiro contato com o curso de medicina, é perceptível que ele nos ensine, desde os primeiros passos a procurar diagnósticos, tratamentos e possibilidades de cura para a maioria das patologias, sejam elas físicas ou mentais. O curso direciona o aprendizado para combater doenças, prolongar vidas e buscar respostas, onde antes existiam muitas incertezas. Mesmo com os avanços da ciência, da tecnologia e dos fármacos, muitas inquietações, dúvidas e questionamentos ainda permanecem em aberto. Dentre eles, há uma interrogação incomum, que se torna objeto de questionamento para muitos profissionais da saúde: o que fazer quando não há mais a possibilidade de cura? É nesta hora que eles necessitam estar empoderados de conhecimentos de diferentes matizes para encontrar as melhores alternativas para cuidar das pessoas. Saberes estes que precisam ser adquiridos na formação acadêmica ou permanente.
A participação em Ligas é uma oportunidade e espaço para os acadêmicos fazerem esse exercício formativo. A Liga Interdisciplinar de Cuidados Paliativos – LAPALLIUM, do Curso de Medicina da URI Erechim, é um exemplo de como isso pode ocorrer. Constitui-se em um grupo de estudos, debates, pesquisa e reflexão destinado à aprendizagem das possibilidades dos cuidados paliativos como uma das formas mais profundas de compromisso com a vida.
Cuidar paliativamente é compreender que, mesmo quando a doença é incurável, o paciente ainda é digno de atenção e desvelo e deve ser atendido e respeitado, independente do diagnóstico. O cuidado paliativo surge na busca de aliviar a dor, acolher o medo, respeitar desejos, ouvir silêncios, anseios, declarações e segredos… verdadeiramente, esse cuidado visa devolver ao paciente aquilo que nenhuma tecnologia ou fármaco pode fazer: dignidade e cuidado humano.
Sobre o profissional da saúde, especialmente o médico, J.J. Camargo apreende a essência do processo ao afirmar que a pessoa em cuidado precisa ter a certeza de que “não estará nem ficará sozinho até o fim”. Talvez essa seja justamente a dimensão mais humana, difícil e uma das mais desafiadoras da medicina: deparar-se com nossas limitações, permanecer quando já não há mais recursos técnicos a utilizar, quando a prescrição deixa de ser suficiente e oferecer nossa presença em totalidade, plena adquire um sentido profundo de compreensão empática e acolhimento desvelando a face mais admirável do cuidar em saúde.
Ana Claudia Quintana Arantes também nos convida a ressignificar aquilo que aprendemos sobre a finitude. Para ela, o cuidado paliativo não significa escolher a morte, mas escolher viver com dignidade. Afinal, a morte não representa uma falha da medicina; faz parte da própria existência humana. A morte é um processo natural e atingirá a todos quando for o momento, mesmo que coloquemos toda nossa ciência, enquanto profissionais da saúde, para prolongar a estadia das pessoas na Terra. Entretanto, não somos os determinantes da vida. Somos reféns do tempo e, assim como todos os seres vivos, da caminhada à velhice.
Essa perspectiva também pode ser encontrada na literatura. No livro “A Cinco Passos de Você”, de Rachael Lippincott, que descreve dois jovens que convivem com uma doença chamada fibrose cística (doença genética e hereditária, onde pessoas com a mesma doença não devem manter contato próximo entre si devido ao alto risco de contaminação cruzada de bactérias perigosas) e têm suas vidas marcadas por tratamentos, hospitalizações, limitações e pela constante consciência da fragilidade da própria existência. Embora a obra não aborde propriamente o paliativismo, ela evidencia que por trás de toda doença existe uma pessoa que continua desejando viver, amar, escolher e construir significado.
Ter uma doença incurável, não pode ser impeditivo para que a pessoa prossiga em suas vontades e aspirações, abdicando da vida antecipadamente. Na LAPALLIUM acreditamos que a busca do sentido do viver se torna o maior ensinamento: que os cuidados paliativos podem oportunizar aos futuros profissionais da saúde a compreensão de que nem sempre podemos acrescentar dias à vida, mas é possível acrescentar vida aos dias ou até ao último dia da existência de alguém. Ser profissional da saúde não é apenas saber quando intervir. É também saber quando escutar, quando silenciar, quando aliviar e, principalmente, quando simplesmente permanecer.