Quando pensamos no retrato da imigração dos povos estrangeiros que auxiliaram na colonização do Alto Uruguai, a associação mais comum paira na imagem de italianos, alemães, poloneses e judeus. Muitas vezes, porém, o enfoque demasiado nestes ‘‘grandes grupos’’ pode obscurecer a percepção de trajetórias singulares que ajudaram a formar a própria história da região.
Este é o caso da família Asturian, de origem armênia, radicada em Viadutos. Ao chegar em Capo-Erê, em 1912, Mekitar, um jovem da cidade de Mush, não só estava à procura de um tio e irmão: estava também, sem saber, escapando do chamado ‘‘Genocídio Armênio’’, iniciado três anos depois, um plano de extermínio deliberado e orquestrado pelo Império Otomano e que dizimou cerca de 1,5 milhão de armênios. Após se reencontrar com seu tio ‘‘Martins’’, o antes ‘‘solitário’’ Mekitar construiria, dali em diante, sua trajetória na região do Alto Uruguai, galgando posições de responsabilidade na administração local: em 1927, foi nomeado pela Intendência Municipal de Erechim como comissário do ‘‘Povoado de Capo-Erê e seus arredores’’; dois anos depois, agente arrecadador de impostos; e em 1937, chegaria ao posto de subdelegado e subprefeito do 10º Distrito de Erechim, hoje Viadutos.
Sua naturalização como brasileiro viria em 1941: a carta de oficialização desta, portadora do nome do então Presidente da República, Getúlio Vargas, tornar-se-ia uma recordação de alta estima pela grande família que Asturian constituiria junto à descendente de italianos Ernestina Rigotti. Pode-se conjecturar que Mekitar teria ficado prostrado na região da ‘‘grande Erechim’’ durante toda a década de 1930, contudo este não aparenta ter sido o caso. Seu filho mais novo, Adilson (falecido em 2024), relatou em entrevista concedida em 2022 que, na altura da Revolução Constitucionalista de 1932, quando insurgentes paulistas se levantaram em armas contra o governo provisório de Vargas, seu pai foi nomeado segundo tenente do 8º Corpo Provisório da Brigada Militar, tendo recrutado cerca de 30 homens em Capo-Erê e dirigido-se, junto a estes, a São Paulo para combater as forças contrárias a Vargas.
Asturian faleceria em 1986, no local que escolheu para viver até o fim da vida: a já emancipada Viadutos. Seu legado deixaria uma marca na cidade que superaria sua própria existência e se materializaria na acepção mais literal do verbo: hoje, ‘‘Mekitar Asturian’’ é nome de rua municipal, como resultado de um projeto de lei aprovado em 1988 pela Câmara de Vereadores local. Contudo, sua trajetória representa mais que uma singularidade imigratória daquilo que compôs o mapa das etnias e nacionalidades que ajudaram a colonizar o Alto Uruguai. Ela se tornou parte inseparável da própria história política e administrativa da região, uma marca ainda mais profunda que o reconhecimento que Mekitar devidamente recebeu daqueles que, depois de tantas décadas, passaram a ser seus ‘‘conterrâneos’’.