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Opinião

As perdas e as escolhas

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Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

Além de outras questões, nossa vida é feita de escolhas que fazemos todos os dias. Algumas nem percebemos, outras são difíceis de serem tomadas, e há aquelas que são feitas por nós, sem pedir licença, tampouco opinião. Cada escolha tem um contexto, seja ele macro ou micro e nos afeta de diferentes formas, podendo mudar o curso da nossa vida. Quando falamos de perdas, podemos falar de inúmeros tipos, mas, diante delas, fazemos algumas escolhas. Já paramos para nos perguntar como essas perdas participam das decisões que tomamos e o quanto podem afetar toda a nossa vida e a de quem está próximo?

Até podemos nomear algumas dessas escolhas. Podemos dizer que fomos fortes ou fracos, prudentes ou até mesmo imprudentes, ou podemos, tanto para o bem quanto para o mal, colocar tudo na conta do destino, da necessidade, da maturidade ou da falta dela. Mas raramente olhamos verdadeiramente para toda aquela situação e paramos para perguntar o que estava acontecendo dentro de nós no instante em que tomamos tais decisões.

Uma perda nunca se encerra no momento em que alguém vai embora ou quando o jogo acaba, ela apenas muda de lugar, toma outros rumos e aparece sob outros pontos de vista. Perder não é só aquele jogo, não é apenas um objeto importante que deixou de estar ali, nem alguém que fisicamente deu adeus e pronto. A perda, uma hora ou outra, vai encontrar um espaço dentro de nós e influenciar, direta e indiretamente, nossas decisões, sem a menor cerimônia.

Quem passou por uma perda importante muito cedo, pode aprender a não precisar de ninguém e a ter um modus operandi para lidar com a frustração que, muitas vezes, não seria a forma mais adequada; quem foi abandonado pode transformar a autonomia em uma espécie de proteção permanente; quem conheceu a falta pode passar anos acumulando e quem perdeu alguém pode tentar evitar novas perdas com tamanha dedicação que acaba também evitando os riscos necessários para que a vida aconteça. E, quando perceber, pode ser tarde demais, pois a perda é inevitável e, então, perdeu-se também a chance de viver e deixar viver.

É difícil perceber quando isso começa, principalmente em perdas mais significativas, como a de um ente próximo. Existe, muitas vezes, uma linha tênue entre o quanto a perda e o medo de uma nova experiência influenciam nossas decisões e o momento em que evitamos ou postergamos escolhas por causa disso, mascarando o medo paralisante como cautela. Claro, precisamos ter cuidado, pensar nas nossas ações, calcular e, muitas vezes, até recalcular a rota, o que não podemos fazer é deixar de viver apenas para evitar novas perdas. Não devemos deixar de lado aquilo que desejamos em detrimento de algo que, na nossa cabeça, parece ser menos sofrido.

Toda e qualquer escolha tem consequências, por menores que sejam, e afeta quem toma a decisão, bem como aqueles que estão à sua volta. Assim, as pessoas que são parte da nossa história, também sentem os efeitos. Independentemente dos motivos e sentimentos, as decisões são tomadas com as ferramentas que temos no momento, ou seja, não devemos nos culpar ou nos condenar, mas precisamos observar e aprender com as situações. Também não podemos nos acostumar com aquilo e seguir aplicando determinadas estratégias quando as circunstâncias já mudaram. O que um dia foi proteção pode, agora, ser justamente o contrário e nos impedir de viver de uma forma saudável e, consequentemente, as perdas seguirão sendo grandes responsáveis pelas nossas tomadas de decisão.

Ter um tempo para o autoconhecimento é importante, não para que, como já foi mencionado, haja culpa, tampouco como forma de tentar mudar o que já aconteceu, mas para entender o quanto as perdas influenciam nossas decisões, seja para não passar por aquela dor novamente, seja para não descontar nas pessoas próximas os nossos medos, como se quem amamos fosse obrigado a ser nosso saco de pancadas e não carregasse em si suas próprias dores, medos e perdas. Uma boa dose de autoconhecimento, que pode advir de uma boa psicoterapia, é capaz de ajustar muitas coisas na nossa vida que talvez, olhando de fora, ninguém perceba, mas nós sabemos o quanto podem determinar o resto da nossa vida.

Acredito que nem todas as perdas são superáveis e, aqui, cito a perda de um filho. Sei que, desde o dia em que meu pequeno deixou este plano, minhas escolhas passam por essa dor. Eu ainda não superei e penso que nem irei. Faz quase cinco anos desde aquele dia que ficou marcado no peito a ferro e fogo. Alguns aprendizados vieram, e um deles é carregar essa dor, essa saudade que, volta e meia, aparece junto com o amor que nunca foi embora, e evitar permitir que a ausência dele determine todas as minhas escolhas, principalmente no que diz respeito ao caminho do meu outro filho.

As perdas pelas quais passamos fazem parte de quem somos e, querendo ou não, ajudam a nos moldar. E aí está o pulo do gato. Elas podem contribuir para nos formar, mas não devem nos definir como fatos únicos da nossa vida. Uma perda, uma ausência, não pode ocupar lugares que não pertencem a ela e, por isso também, o autoconhecimento é tão importante. Ele nos ajuda a distinguir lembrança de repetição, cuidado de vigilância, prudência de medo, independência de isolamento, reconhecendo que a perda faz parte da nossa história, mas não é a nossa história por inteiro.

Não existe uma maneira correta de viver depois de uma perda, quem dera existisse. Algumas, apesar de insuperáveis, nos ensinam muito. Podemos seguir lembrando e sentindo medo, mas precisamos evitar que isso paute todas as nossas escolhas, tolhendo nossa liberdade de viver e de viver com os nossos.

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