O aniversário de 10 anos da Exortação Apostólica Amoris laetitia, do Papa Francisco, acaba de ser lembrado no Vaticano com um encontro internacional que desafiou a Igreja a acompanhar os jovens e as famílias na busca por uma vocação matrimonial enraizada no amor.
O Pe. Maicon Malacarne, da diocese de Erexim/RS, contribui com a tese de Doutorado que reflete sobre a sexualidade à luz da fé cristã em meio aos desafios contemporâneos, entregue a Leão XIV no início de outubro.
Esta poderia ser mais uma história de um sacerdote que, após a formação de base e o envio à Itália para a vida acadêmica em Roma, volta ao país e à diocese de origem para dar continuidade ao trabalho pastoral.
No caso do Pe. Maicon André Malacarne, da diocese de Erexim/RS, a missão será dupla para dar continuidade à missão tanto como pároco da Paróquia São Cristóvão, como professor da Itepa Faculdades, de Passo Fundo/RS (o antigo Instituto de Teologia e Pastoral), que oferece formação ao clero, à Vida Consagrada e a leigos. O mais novo doutor em Teologia Moral também volta ao Brasil com uma valiosa contribuição à reflexão teológica, que inclusive chegou às mãos do Papa Leão XIV no início de outubro.
O encontro com o Papa
A tese de doutorado intitulada "A identidade sexual como «estilo relacional». Uma contribuição de Christoph Theobald para a ética sexual como «morada» da sexualidade" foi defendida em 23 de setembro, em Roma, aprovada com distinção máxima e indicada para publicação nas línguas italiana e portuguesa.
Uma "pesquisa inovadora e original, que abre novos horizontes no diálogo entre a teologia moral e a antropologia", descreveu a Pontifícia Academia Alfonsiana, onde foi defendida a tese, instituição reconhecida internacionalmente como centro de excelência em teologia moral, que recebe estudantes e religiosos de todos os continentes do mundo. Dez dias depois, em 3 de outubro, ela foi entregue pessoalmente ao Pontífice, durante uma audiência, no Palácio Apostólico:
"Eu estava com um grupo de padres do Colégio Pio Brasileiro e também dois bispos. E como eu tinha recém feito a defesa da tese, os meus colegas logo me apresentaram como novo doutor. E ele me chamou de 'doutor' e quis saber o tema, quis saber a faculdade que eu tinha estudado, o nome da universidade, leu o título da tese. Foi um momento bonito e singelo, de preocupação também do Papa sobre o tema, esse tema que nós abordamos. Senti ele muito acolhedor, me parabenizou pela defesa e o senti também preocupado com o tema da sexualidade, que foi o tema que eu abordei."
De fato, o tema da sexualidade voltou recentemente à reflexão no Vaticano, em encontro internacional pelos 10 anos da Exortação Apóstolica sobre o amor na família, Amoris laetitia, do Papa Francisco, realizado de 7 a 14 de outubro.
Na abertura do evento, Leão XIV pediu que a Igreja não se limite a observar as transformações culturais, mas tenha a coragem de se deixar questionar por elas. Uma das questões está na “distância crescente” que se verifica entre as formas como a sexualidade e a intimidade são vividas e a visão cristã do matrimônio: “os jovens continuam a desejar o amor, a fidelidade e o sentimento de pertencimento, mas muitos têm dificuldade em compreender como essa visão do amor pode se concretizar em suas próprias vidas ou em acreditar que um compromisso para toda a vida é a condição para alcançar aquilo que desejam".
Ao tratar sobre a vocação matrimonial, o bispo indiano, dom Stephen Fernandes, convidou a se falar “do amor como dom, da liberdade como doação de si mesmo, da sexualidade como capacidade da pessoa de amar e se doar, da fidelidade como fundamento da confiança e da estabilidade, e do casamento como aliança capaz de dar sentido à vida”.
Para o doutorado, "um texto bastante acadêmico" que pode dialogar com os magistérios dos Papas Francisco e Leão XIV, o Pe. Maicon Malacarne se valeu da contribuição do alemão Christoph Theobald que tem 80 anos e vive na França, é jesuíta, teólogo e professor emérito da matéria em Paris.
Muito preocupado também com as transformações do mundo, "com a perda, por exemplo, do estilo cristão que vai se esvaindo também, especialmente na Europa", Theobald acredita na força cotidiana de viver a fé "no dia a dia e em como tratamos uns aos outros", explica Pe. Maicon, ao acrescentar: "ele diz que nós precisamos mais do que nunca assumir um jeito de viver, que é um estilo cristão, um estilo de seguidor de Jesus Cristo".
Como viver uma "boa sexualidade"?
A questão da identidade sexual, "de nós sermos homens e mulheres diferentes por natureza", é feita de uma rede complexa que ajuda a compreender "quem nós somos e a nossa dinâmica também de sexualidade". Segundo a teologia recente, explica o Pe. Maicon ao reforçar o aprofundamento de Francisco em Amoris laetitia, "a sexualidade é um dom, é algo de muito positivo que nós recebemos de Deus e que precisamos amadurecer, nas escolhas que fazemos, no discernimento de cada um, nas relações que estabelecemos". É o desafio "da boa vivência da sexualidade", descreve o brasileiro, que depende "de amadurecer as relações uns com os outros". Quando há dominação perante o outro ou quando uma amizade se torna instrumental, muito se revela "daquilo que somos também nesse campo da sexualidade", afirma o Pe. Maicon, ao acrescentar:
"As relações saudáveis, harmoniosas, maduras, também traduzem aquilo que nós somos. E nesse sentido, eu penso que o Papa Leão nos ajuda a entrar nessa dinâmica relacional com muita dedicação. Ele tem nos alertado muito sobre vivermos boas relações uns com os outros. Isso, vamos dizer assim, de maneira macro, que é a vivência da paz, os apelos que o Papa tem feito pela paz no mundo, pelas relações diplomáticas; isso se traduz em vivências diárias, assim, com o vizinho, com o amigo, com o esposo, a esposa, os filhos, ou seja, essa experiência do encontro das boas relações é uma experiência de natureza humana e que nos ajuda certamente a viver bem a nossa sexualidade também."
Questionado como fazer para se viver uma "boa sexualidade", o Pe. Maicon devolve a pergunta com outro questionamento: "como a gente faz a experiência do amor na nossa vida?". Assim, ele desenvolve a resposta a partir da experiência do amor, que começa em casa, na família, porque "amor é coisa séria, é coisa que a gente precisa se debruçar, compreender, entender", ao contrário do que se vive hoje, numa "sociedade que muito facilmente banaliza o amor, as relações maduras e sérias, nos levando a banalizar a própria experiência da sexualidade, ou seja, nós corremos o risco de entrar em um vale-tudo também na experiência sexual". E o brasileiro complementa a reflexão:
"Então, eu experimento um pouco de tudo, sinto, sou um pouco manipulado por tantos desejos, por tantas formas de vontades que vão sendo estimuladas também, por tantas maneiras no mundo. E a experiência da sexualidade é desafiada por essa seriedade do amor, ou seja, aquilo que eu realizo, aquilo que eu faço, a maneira como eu me entrego, o desejo que eu tenho precisa ser sempre medido pela experiência do amor. Isso exige atravessar por boas relações, ser atravessado por boas relações. Uma experiência, por exemplo, de um casal que está se conhecendo, que está entendendo que há um amor que pode amadurecer, ou seja, a experiência da sexualidade, essa descoberta também um do outro, esse respeito um pelo outro, essa acolhida um pelo outro."
“Nessas experiências bem cotidianas a gente vai também entender como a sexualidade é de fato essa profundidade do amor da nossa vida.”
"E como a gente sabe, por causa de Jesus Cristo, o amor também enfrenta desafios. Jesus amou tanto que atravessou a cruz, precisou da cruz. Então, a sexualidade, essa dimensão importante da nossa vida, ela também vai ter desafios, que são aqueles desejos que a gente não consegue controlar, aquelas experiências que talvez são até traumáticas para a vida e que significam que esse amor precisa também atravessar: momentos de dor, de fragilidade, momentos de dificuldade, mas que nem por isso deixam de ser um amor que é convidado a amadurecer sempre mais."
O celibato e o sexo antes do casamento
Mesmo em sala de aula, explica o também professor Maicon em entrevista ao Vatican News, muitos são os questionamentos sobre a dinâmica da sexualidade - do sexo antes do casamento ao celibato. E, como a maioria dos alunos são seminaristas, preparando-se para uma possível ordenação, o tema do celibato sempre aparece:
"O celibato não é uma negação da sexualidade. Às vezes a gente fala sobre esse tema, ou nos corredores da vida, e a gente conversa sobre isso. Muitas vezes entendendo que o celibato é quase como um apagamento da dimensão sexual e não uma forma de vivência da sexualidade.
O padre que faz esse discernimento pelo celibato está abrindo mão de um elemento da sua vivência sexual, da sua experiência, da sua dinâmica de sexualidade; assim como um esposo, uma esposa precisa abrir mão; assim como um casal de namorados precisa abrir mão de algumas coisas; e o padre também abre mão, ou seja, o tema do celibato é um tema em sala de aula, um tema de muita curiosidade. Assim como o tema do sexo antes do casamento.
Como é que no mundo como nosso, num tempo como o nosso, tão desenvolvido, com tantas relações, inclusive com redes sociais que estimulam tantas coisas, como é que a gente ainda fala disso? Ou seja, não se trata só de a gente dizer: pode antes, não pode antes; não, é só depois. Não se trata só de um sim ou não, de um pode ou não pode, mas é justamente aquilo que nós dizíamos antes: qual é a maturidade que eu faço aquilo que eu faço, com quais intenções eu faço aquilo que eu faço."
É talmente desafiador, Pe. Maicon, inclusive porque falamos de jovens que talvez não tenham a maturidade para esse discernimento...
"Exatamente. Então, exige de fato um acompanhamento. E por isso que as reflexões - e é uma coisa que eu falo na tese - a gente precisa nas nossas comunidades também, ter mais espaços para conversar sobre esses temas, porque a gente geralmente fala isso muito escondido, numa conversa muito privada; e a gente sabe como é desafiador: às vezes tem casais, pessoas que sofrem com essa experiência, com coisas que gostariam de partilhar com outras pessoas, ou com um orientador espiritual, ou com um confessor. Enfim, é um tema que precisa entrar um pouquinho mais no nosso dia a dia para a gente ao menos se escutar, ao menos se compreender e ver, perceber como os problemas são muito parecidos ou como a gente tem questões que tocam a todos."
Na sua paróquia, já está acontecendo essa abertura para análise e reflexão desses casos?
"Sim, a gente sempre tem momentos de conversa. Eu falo isso da paróquia, mas na diocese, através também de formações de diferentes níveis, diocesanos e paroquiais. É um tema que a gente tenta abordar sempre, mas, assim, o desafio é que a gente crie espaços, especialmente com os jovens, com as novas gerações, com quem tem as grandes questões, mas não só, com todos nós. É uma dimensão que nos acompanha até o fim da vida. Mas especialmente as perguntas dos jovens, que a gente possa fomentar espaços de diálogo. Acho que isso é muito importante. Não é nem a questão de um ensinar o outro, mas que a gente possa ter espaços em que a partilha, as questões possam aparecer e a gente possa aprofundar as escolhas que serão, certamente, decisivas para toda a vida."
Para compreender a sexualidade através de um estilo relacional, com uma visão positiva e não de condenação ou domínio sobre o outro, finaliza o Pe. Maicon, é preciso "amadurecer as relações entre as pessoas, amadurecer a forma como nós vivemos", assumindo um jeito de ser "em que o outro seja parte da minha vida, seja parte daquilo que eu sou e me ajude a entender como eu sou. Então, é a experiência de um estilo de seguimento a Jesus Cristo também, através da minha sexualidade".