Encerrada a eleição, começa uma etapa que deveria ser tão importante quanto a campanha que é compreender o eleitor. Antes de comemorar vitórias ou lamentar derrotas, é necessário olhar para as urnas sem paixões partidárias. Ele também revela o momento vivido pelo país, as preocupações da população e a maneira como os brasileiros enxergam o próprio futuro.
O voto não é propriedade de nenhum partido
A primeira lição é que o eleitor não pode ser tratado como propriedade de nenhum partido. Seu voto não é um cheque em branco, tampouco uma declaração de fidelidade eterna. É uma decisão influenciada por experiências pessoais, condições econômicas, valores familiares, convicções ideológicas, informações recebidas e, sobretudo, pela percepção de que alguém pode representar suas expectativas.
Não dá para ignorar a complexidade do país
A economia pesa, mas não explica tudo. O preço dos alimentos, o emprego, a renda, os juros e o custo de vida influenciam a escolha. Entretanto, segurança pública, saúde, corrupção, costumes, liberdade e confiança nas instituições também ocupam espaço importante. Para alguns, a prioridade é colocar comida na mesa. Para outros, é combater privilégios, preservar valores ou encontrar respostas para a insegurança. O eleitor é plural, e tentar reduzi-lo a uma única motivação é ignorar a complexidade do país.
A polarização
Outra lição está na polarização. O debate político frequentemente transforma adversários em inimigos, como se discordar fosse sinônimo de falta de caráter. Nesse ambiente, muitos eleitores deixam de escolher exclusivamente por afinidade com um projeto e passam a votar também para impedir a vitória de quem rejeitam. O chamado voto de rejeição é tão determinante quanto a identificação com um candidato.
Democracia exige cobrança, transparência
Após o resultado das urnas, é o momento da responsabilidade dos eleitos e a vigilância dos cidadãos. O voto é um instrumento de escolha, não o fim da participação política. Democracia exige cobrança, transparência, respeito às instituições e disposição para reconhecer erros, inclusive os cometidos pelo lado em que se votou.
Entre a escolha individual e a realidade coletiva
O eleitor não deve ser analisado apenas pelo voto que depositou na urna, mas pelas razões que o levaram até ela. É nesse espaço entre a escolha individual e a realidade coletiva que o Brasil poderá encontrar caminhos para superar suas divisões e amadurecer sua democracia.