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Opinião

Animais benéficos ao ser humano: cobra muçurana (Parte II)

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Por Engº. Florestal Roberto M. Ferron – Consultor Florestal/Ambiental

“a cobra do bem que se alimenta de outras cobras”

Nesta matéria abordarei um réptil que a grande maioria das pessoas tem verdadeiro pavor – as cobras. Vale ressaltar que existem as cobras venenosas (serpentes peçonhentas) e as não venenosas, inofensivas ao ser humano. Mas, todas elas têm sua função ecológica, ajudam a controlar a população de roedores, anfíbios e invertebrados. Portanto, são aliadas no controle de doenças transmitidas por pequenos animais e colaboram para a estabilidade dos ecossistemas.

Em especial há uma cobra não venenosa, totalmente inofensiva ao homem, que caça e mata as demais para se alimentar (ofiofoga). Trata-se da muçuranacobra do bem, limpa-campo ou cobra preta, de nome científico Clelia clelia.

A muçurana foi descoberta pelo médico e cientista brasileiro Vital Brazil (1865-1950), um pesquisador do ofidismo (os efeitos nocivos causados pela picada de serpentes), referência em estudos de animais, bactérias e desenvolvimento de vacinas, sendo o criador do Instituto Butantã de São Paulo.

A primeira muçurana estudada por Vital Brazil matou e devorou, de julho de 1909 a agosto de 1910, dezessete (17) jararacas e uma (01) boipeva. Cientista apaixonado por cobras apresentou em uma conferência em 1915 um filme que mostrava a luta de uma muçurana contra uma jararaca.

A escolha do seu nome remete a presença indígena em nosso país, visto que muçurana deriva da palavra tupi-guarani “muçum” que tem como significado largo ou esguio, característica comum a espécie, e “rana”, que por sua significa “aparência de”. Ou seja, muçurana seria aparência larga, evidenciando assim a sua formação física.

É uma cobra que vive em sua maioria na América Central e do Sul, e no Brasil principalmente nos estados da Bahia, Paraíba, Pernambuco, Maranhão, Ceará e Minas Gerais. Mas, também habita o Rio Grande do Sul.

Sua coloração varia com a idade, quando jovem é rósea ou avermelhada, e quando adulta, azulada, negro-chumbo reluzente. Na parte ventral (barriga) tem uma coloração branco ou amarelada. Tem um tamanho assustador, medindo de 1,50 a 2,50 metros de comprimento. Possui olho redondo, e movimentos ágeis e rápidos. Estas são as principais características que as diferenciam das demais cobras. É uma cobra extremamente solitária que não costuma ser visto junto a outras cobras, inclusive para a caça, saindo sozinhas para tal atividade.

A muçurana é ofiófaga, seu alimento preferido são as jararacas, urutus e cascavéis, mas na falta delas ou de outras cobras, a serpente come também pequenos mamíferos, aves e lagartos. Como possui hábitos diurnos e noturnos, costuma viver nas matas, vegetação rasteira e fechada, perto de rios e lagos. O fato da agilidade se mostra ainda mais positivo, visto que na escuridão as presas não percebem facilmente sua chegada, colaborando para que encontrem seus alimentos na natureza.

Outro detalhe interessante é que a dentição também facilita o bote certeiro, uma vez que os dentes na parte inferior do maxilar são serrilhados, mantendo a presa devidamente segura sem chance de fuga. Na parte superior da mandíbula, possuem até 15 dentes, facilitando prender suas presas de forma firme, empurrando rapidamente para a garganta. Ataca suas vítimas prendendo-as pela boca com seus fortes dentes que medem entre 10 e 15 cm, cravando-os no terço anterior do corpo da vítima e enrola-se rapidamente nela, matando-a por constrição. Depois ingere sua presa, começando pela cabeça.

  Como se diz na “natureza tudo é perfeito e em sintonia”. E nesta cadeia alimentar, somente tem uma cobra que a muçurana não consegue comer por não conseguir neutralizar seu veneno, que é a cobra coral, aquela de cores branco, vermelho e preto, que os anéis coloridos circundam seu corpo.

A muçurana – cobra do bem, já foi muito famosa, chegou a inspirar os logotipos do Butantã. O símbolo é encontrado em alto relevo na fachada do primeiro prédio do instituto, que hoje é a Biblioteca, e durante muito tempo estampou o selo que lacrava as embalagens dos soros. Também, a cobra-preta foi parar até em cédulas de 10 mil cruzeiros, expedidas entre 1991 e 1994 em homenagem a Vital Brazil. As notas apresentavam, de um lado, uma foto do cientista e uma ilustração da extração de veneno, e no verso, a muçurana atacando a jararaca.

Divulgue e preserve a cobra do bem!

 

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