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Economia

Venezuelanos no Brasil: da fuga da crise ao desafio de decidir entre permanecer ou voltar para casa

Rio Grande do Sul tornou-se um dos principais destinos e agora acompanha os primeiros movimentos de retorno à Venezuela, e Erechim não é diferente

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Por Carlos Silveira
Foto Ilustrativa

 A maior crise migratória da história recente da América Latina mudou a vida de milhões de venezuelanos. A partir de 2015, o agravamento da crise econômica, política e social na Venezuela provocou um intenso fluxo migratório para países vizinhos. O Brasil passou a ser uma das principais portas de entrada dessa população, especialmente pela fronteira entre o estado de Roraima e a cidade venezuelana de Santa Elena de Uairén.

 Segundo a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), mais de 7,7 milhões de venezuelanos deixaram seu país nos últimos anos, formando um dos maiores movimentos migratórios do mundo. A maioria buscou refúgio em países da América Latina e do Caribe, motivada pela escassez de alimentos e medicamentos, hiperinflação, desemprego e dificuldades de acesso aos serviços básicos.

 Diante desse cenário, o Governo Federal criou, em 2018, a Operação Acolhida, iniciativa coordenada com apoio das Forças Armadas, do ACNUR, da Organização Internacional para as Migrações (OIM) e diversas entidades parceiras. O programa foi estruturado em três etapas: recepção e documentação na fronteira, acolhimento temporário em Roraima e interiorização voluntária para diferentes estados brasileiros.

 Desde sua criação, a Operação Acolhida já promoveu a interiorização de mais de 157 mil venezuelanos, distribuídos em mais de 1.100 municípios brasileiros. A estratégia tornou-se referência internacional pela integração entre poder público, organismos internacionais e sociedade civil.

Rio Grande do Sul entre os estados que mais acolheram

 O Rio Grande do Sul destacou-se como um dos principais destinos dos venezuelanos. Entre 2018 e o início de 2026, aproximadamente 24 mil migrantes e refugiados foram encaminhados ao Estado por meio da interiorização, colocando o RS entre os líderes nacionais em acolhimento.

 A maioria encontrou oportunidades de trabalho na indústria, construção civil, comércio, serviços e agronegócio. Além do emprego, a adaptação contou com o apoio de prefeituras, universidades, entidades religiosas e organizações sociais, responsáveis por oferecer cursos de português, qualificação profissional, assistência social e orientação para inserção no mercado de trabalho.

Reconstruindo a vida

 Para milhares de famílias, chegar ao Brasil significou recomeçar praticamente do zero. Muitos cruzaram a fronteira levando apenas documentos e poucos pertences, deixando para trás familiares, casas, empregos e uma vida construída durante décadas.

 Dados do ACNUR indicam que a maioria dos venezuelanos interiorizados conseguiu ingressar no mercado de trabalho poucos meses após a mudança, fator considerado decisivo para a integração social e econômica das famílias. Crianças passaram a frequentar escolas brasileiras e muitos adultos retomaram estudos e capacitações profissionais.

O desejo de voltar

 Nos últimos meses, um novo movimento começa a chamar atenção. Com sinais de recuperação econômica em algumas regiões da Venezuela e o fortalecimento dos vínculos familiares, parte dos migrantes passou a considerar a possibilidade de retornar ao país de origem.

 Apesar desse movimento, especialistas ressaltam que não existem estatísticas oficiais consolidadas sobre quantos venezuelanos deixaram o Rio Grande do Sul para retornar à Venezuela. O retorno costuma ocorrer de forma espontânea, dificultando o acompanhamento por parte dos órgãos oficiais.

 Ainda assim, relatos de famílias que vivem em municípios gaúchos indicam que a decisão de voltar envolve fatores emocionais, culturais e familiares, além da expectativa de encontrar um cenário mais favorável em sua terra natal.

Uma pauta que também é local

 Em municípios do Norte do Rio Grande do Sul, como Erechim, diversos venezuelanos construíram novas histórias ao longo dos últimos anos. Alguns conquistaram emprego, estabilidade e integração à comunidade. Outros, porém, passaram a refletir sobre a possibilidade de regressar.

Para quem costumava ver uma grande leva de funcionários venezuelanos nos supermercados locais, já se depara com outra realidade, pois a debanda já está sendo sentida, colocação reforçada por funcionários locais, também venezuelanos, que pontuam que muitos estão voltando para casa. A situação é tão visível que não se vê mais empacotador nos caixas em mercado local, ficando esta tarefa para os próprios caixas ou o cliente. Quem quer ficar definitivamente, também conforme relatos, são os que formaram família em Erechim, ou seja, esposa e filhos.  

Poder Público

De acordo com o novo secretário da Assistência Social, Leandro Basso, esta volta não estaria ocorrendo, visto que ainda não haveria um censo migratório que permita definir o número exato de Venezuelanos. “Nossa análise sai do banco de dados cadastrados, que são os seguintes: Secretaria da saúde 7600 atendidos. Cadastro único 4000 cadastrados. Polícia Federal 3500. SINE  3500 trabalhadores formais. Assim a estimativa é 5500 a 6000 venezuelanos na cidade. Quanto ao retorno para a Venezuela, não percebemos esse movimento, e os que estão retornando é justamente para trazer a família para Erechim. Só se o movimento ocorreu nessas últimas duas semanas, porém os dados ainda não chegaram”, pontua Basso.

Legenda: Distrito Industrial concentra grande mão de obra venezuelana

Foto: Arquivo BD

 

 

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