Otávio tinha vinte e dois anos quando decidiu que queria construir alguma coisa que fosse sua.
Não tinha investidores, sobrenome conhecido, grandes economias ou uma fila de pessoas esperando para apostar nele.
Tinha uma ideia.
E, algumas vezes, uma ideia pode ser a única coisa que uma pessoa possui antes de possuir alguma coisa.
Otávio queria criar uma empresa de produtos esportivos para atletas. Passava noites estudando fornecedores, desenhando produtos, calculando preços e imaginando aquilo que, naquele momento, somente ele conseguia enxergar.
Durante o dia, trabalhava para outra empresa.
Precisava pagar as contas.
À noite, trabalhava para o futuro que desejava.
Seu amigo Henry acompanhava tudo de perto.
Na frente de Otávio, dizia:
— Vai dar certo. Você tem uma ideia muito boa.
Mas bastava Otávio sair da sala para Henry mudar o tom.
— Ele tem vinte e dois anos. Está começando agora. Acha mesmo que vai conseguir construir uma empresa desse tamanho? Ele ainda tem muito o que aprender.
Talvez Henry não fosse uma pessoa ruim.
Talvez simplesmente não conseguisse enxergar uma estrada que nunca havia percorrido.
E esse é um dos problemas das pessoas:
às vezes, elas confundem os limites da própria visão com os limites da realidade.
Otávio continuou.
Ouviu muitos “nãos”.
Alguns educados.
Outros nem tanto.
Houve quem não respondesse suas mensagens.
Houve quem sorrisse enquanto ele apresentava sua empresa e nunca mais atendesse seu telefone.
Houve quem dissesse:
— Volte daqui a alguns anos.
Mas Otávio tinha compreendido uma coisa cedo demais para alguns e exatamente na hora certa para ele:
o tempo de uma pessoa não precisa obedecer ao relógio de outra.
Um ano se passou.
A empresa ainda era pequena.
Pequena de faturamento.
Pequena de estrutura.
Mas muito maior do que aquela ideia que, meses antes, existia apenas em sua cabeça.
Foi então que Otávio conseguiu uma reunião com Helena.
Helena tinha quarenta e poucos anos, dois filhos e muitos anos de experiência nos negócios. Sua empresa poderia comprar uma participação no empreendimento de Otávio e colocar seus produtos em lugares que ele levaria anos para alcançar sozinho.
Otávio preparou-se durante dias.
Chegou cedo.
Apresentou números.
Mostrou produtos.
Falou sobre mercado.
Explicou seus planos.
Helena ouviu tudo.
Quando ele terminou, ela recostou-se na cadeira, cruzou os braços e perguntou:
— Quantos anos você tem mesmo?
— Vinte e três.
Ela sorriu de lado.
— Otávio, você está chegando agora e já quer sentar na janela?
Ele ficou em silêncio.
Helena continuou:
— Todo mundo quer chegar aos melhores lugares. Mas primeiro você precisa começar de baixo. Trabalhar para os outros. Ganhar experiência. Esperar sua vez. Você ainda é muito novo.
Otávio olhou para a grande janela atrás dela.
Do outro lado, a cidade seguia acontecendo.
Carros.
Prédios.
Pessoas correndo de um lado para outro.
Durante alguns segundos, ele pensou em tudo o que havia feito no último ano.
Nas noites mal dormidas.
Nos “nãos”.
No emprego que mantinha para conseguir pagar as contas enquanto construía sua empresa.
Nas pessoas que diziam acreditar nele apenas quando ele estava por perto.
Então olhou para Helena.
— Talvez você esteja certa.
Ela pareceu surpresa.
Otávio continuou:
— Talvez eu realmente queira sentar na janela.
Helena levantou as sobrancelhas.
— Mas não porque eu queira tomar o lugar de alguém.
Ele apontou discretamente para a porta da sala.
— É que aprendi uma coisa. Se existe uma porta aberta, eu passo pela porta. Se existe uma oportunidade, eu aproveito. Se preciso aprender, eu aprendo.
Fez uma pequena pausa.
— Mas, se alguém trancar todas as portas e me disser que preciso permanecer dentro da sala esperando minha vez...
Otávio olhou novamente para a janela.
— ...então talvez eu tenha mesmo que sentar um pouco na janela.
Helena permaneceu em silêncio.
— Primeiro para olhar a vista — disse ele. — Depois, se for preciso, para pular.
Ela franziu a testa.
Otávio sorriu.
— Porque, se a porta estiver trancada, Helena, é pela janela que eu vou sair.
Pegou suas coisas, agradeceu pela reunião e foi embora.
Helena não investiu.
Nas semanas seguintes, nada extraordinário aconteceu.
Nem no primeiro mês.
Nem no segundo.
Nem no terceiro.
Henry começou a acreditar que talvez tivesse razão.
Otávio também teve seus momentos de dúvida.
No quarto mês, algumas vendas começaram a aparecer.
No quinto, algo mudou.
Um atleta publicou espontaneamente um dos produtos.
Outro comprou.
Depois outro.
Uma equipe fez um pedido.
Uma academia entrou em contato.
Em poucas semanas, os produtos que Otávio carregava no porta-malas do carro começaram a ser enviados para diferentes cidades.
As caixas se multiplicaram.
Os pedidos também.
Não foi um milagre.
Foi consequência.
Consequência de centenas de pequenas coisas que ninguém havia visto enquanto aconteciam.
Os telefonemas.
As noites.
Os erros.
Os testes.
Os “nãos”.
Os dias em que ele trabalhou sem qualquer garantia de que aquilo daria certo.
Anos depois, em um novo escritório, Otávio colocou sua mesa justamente ao lado de uma grande janela.
Um funcionário percebeu e perguntou:
— Por que você escolheu esse lugar?
Otávio sorriu.
Olhou para fora.
E respondeu:
— Porque algumas pessoas passam a vida esperando alguém lhes dar o melhor assento.
— E você?
— Eu descobri que não preciso tirar ninguém da janela para encontrar a minha.
Fez uma pausa.
— Posso construir outra.
E, desde então, sempre que alguém dizia que uma pessoa era jovem demais, nova demais ou ambiciosa demais para desejar alguma coisa, Otávio se lembrava daquela sala.
Porque há momentos em que devemos entrar pela porta.
Há momentos em que devemos esperar.
Há momentos em que precisamos aprender.
Mas também existem momentos em que esperar nossa vez é apenas uma maneira elegante de desistir da nossa própria vida.
Se houver uma porta, abra-a.
Se alguém puder ensinar, aprenda.
Se precisar começar pequeno, comece.
Mas, se todas as portas estiverem trancadas apenas porque alguém decidiu que ainda não chegou a sua vez...
procure a janela.
Sente-se nela.
Olhe a vista.
E descubra por onde continuar.
Não existe uma fila universal para viver. Cada pessoa possui seu próprio tempo, sua própria medida e sua própria construção. Você não precisa ocupar o lugar de ninguém para chegar onde deseja — mas também não deve entregar a outra pessoa o direito de decidir até onde você pode chegar.
Até breve, caro leitor.