Talvez você já tenha assistido ao filme “Zootopia” ou, talvez por pensar ser uma animação infantil, nem tenha se interessado. Porém, embora seja apresentado como um filme infantil, Zootopia é praticamente uma alegoria sobre preconceito, discriminação e medo do diferente. É uma sociedade que acredita ter evoluído, onde animais (presas e predadores) vivem juntos em perfeita comunhão, todos podem trabalhar, estudar e ocupar diferentes posições, mas a verdade é que o preconceito não desapareceu, apenas ficou, digamos assim, mais sofisticado, e isso aparece de várias maneiras, ora mais sutil, ora mais escancarado.
Isso tudo acontece na nossa sociedade também, tanto nessa sociedade real quanto em uma “Humanotopia” que muitas vezes queremos enxergar ou que adorariam nos fazer enxergar, principalmente em épocas que antecedem as eleições. Precisamos ficar espertos, enxergar com outros olhos tudo aquilo que a grande jornalista e escritora Eliane Brum nos apresenta em “A vida que ninguém vê” e muito mais.
Quem sabe um dia poderemos ter, de fato, uma Humanotopia, não no sentido de uma sociedade perfeita, mas de um espaço sem polarização, onde quem for eleito governe para todos; onde esquerda e direita não se digladiem em prol de si mesmas, mas, pelo contrário, tragam harmonia pelo bem geral. Uma comunidade onde cores, etnias, gêneros e orientações não sejam um problema, onde não haja discrepância absurda entre classes sociais, onde haja saúde, educação e dignidade em cada lar. Um espaço em que possa haver discussões e discordâncias, mas que se abram possibilidades para um entendimento maior.
No último domingo, foi dia de o brasileiro ir às urnas escolher os governantes para os próximos quatro anos. Muitos pensaram em seus votos, discutiram entre seus pares; outros foram apenas por obrigação e movidos pelo desânimo de que nada vai mudar. Gostaria de lembrar que o fim que aparece na urna é apenas o começo. O processo de votação se encerra, a eleição apenas começa e a vida continua seguindo seu curso. Acredito que, de forma simbólica, o processo eleitoral significa um novo começo, independentemente de qualquer resultado, porém, nada muda. O governo que está no poder explica por que não conseguiu fazer tudo, lembra o que fez de bom e alfineta os concorrentes, principalmente os de ideologia oposta. O governo que chega aponta os erros do anterior e promete consertar o estrago, fazendo o melhor e, claro, sem deixar de alfinetar.
Entra ano, sai ano, a narrativa é a mesma, às vezes, trocam-se os personagens, alteram-se os discursos, renovam-se as fotografias oficiais, mas nós, sociedade, seguimos enfrentando muitos dos mesmos problemas, enquanto outros se somam. Podemos até trocar os moradores, mas, se não arrumarmos o telhado, as goteiras continuam no mesmo lugar e vão sempre respingar em alguém e isso não é uma crítica a um lado, mas uma constatação sobre todos os lados. Governantes e sociedade são humanos e, como humanos, jamais seremos uma coisa só, temos vários lados dentro de nós mesmos. Todos os governos erram e acertam, fazem escolhas boas e ruins, avançam em determinadas áreas e recuam em outras. O que falta é reconhecer isso, abraçar os acertos, consertar os erros e entender que podemos caminhar todos juntos.
Mesmo não gostando de determinado político e de sua ideologia, podemos e devemos reconhecer seus méritos. Da mesma forma, mesmo aqueles de quem gostamos, cujas ideologias combinam com as nossas, podem e devem ser reconhecidos quando erram, e devemos cobrar um posicionamento, uma retificação. Infelizmente, isso se vê pouco, e seguimos longe da nossa Humanotopia, divididos em espécies de torcidas organizadas, deixando de olhar para o que foi feito e passando a olhar apenas para quem fez. Se foi o “meu”, é bom: enaltecemos seus feitos e varremos para debaixo do tapete a sujeira. Já se foi o “outro”, é ruim: explanamos seus erros aos quatro ventos e escondemos seus feitos. E assim a política segue transformada em uma disputa de ideologias, de certo modo, em um mundo utópico e à parte, enquanto a vida real segue seu curso e as contas aumentam cada vez mais.
Claro que os governos importam, e muito. Escolher representantes é uma das grandes responsabilidades da sociedade. Cada voto ajuda a definir quem ocupará os principais cargos públicos do país e dos estados. Porém, o que muita gente esquece é que eles não governam sozinhos. Governo e sociedade devem atuar juntos em prol da nação. Como eu disse, o fim que aparece na urna é só o começo. Nós, como sociedade, precisamos fiscalizar e cobrar, independentemente de o governo eleito ter sido escolhido pelo nosso voto. O que temos que fazer valer são os nossos direitos, cumprindo os nossos deveres. Uma via de mão dupla.
Não adianta sonharmos com um país perfeito enquanto continuamos alimentando, em pequena escala, os mesmos comportamentos que criticamos nos grandes. Queremos políticos honestos, mas, em sociedade, achamos normal levar vantagem; queremos menos corrupção, mas buscamos um conhecido para furar uma fila ou conseguir um favor, mesmo que isso prejudique um terceiro; queremos respeito, mas transformamos quem pensa diferente em inimigo e o ofendemos de diferentes formas; queremos bons governantes, mas não os fiscalizamos após as eleições. Não fazemos a nossa parte enquanto sociedade, parte desse governo. E, sim, seremos parte de todo e qualquer governo, pois, mesmo quando não votamos em quem ganhou naquele momento, a nossa vida segue; ela não entra em stand-by até o próximo governo. E é aqui que a nossa fiscalização deve se manter ainda mais vigilante.
Creio que, em uma Humanotopia, não haja apenas espectadores, que o cidadão não entregue seu voto e, junto com ele, sua responsabilidade, pois a democracia não é uma procuração para quatro anos; é uma relação permanente, na qual, em um dia, escolhemos e, no outro, participamos e cobramos para, quando o próximo ciclo chegar, avaliarmos novamente.
Um dos maiores erros é esperar que o próximo governo resolva tudo, pois não existe governo capaz de transformar uma sociedade sozinho. Governos podem até mudar, mas o grande ponto é aquilo que ele conseguir fazer de diferente com uma sociedade que continua sendo exatamente a mesma. A urna pode trazer números de votação, mas não trará respostas. Por isso, independentemente do governo que virá, precisamos nos perguntar: “O que nós, como sociedade, faremos a partir desses resultados?”. Pois entra governo, sai governo, os problemas continuarão existindo, as comunidades continuarão precisando umas das outras, e nós, sociedade e governantes, continuaremos sendo humanos, com nossas virtudes, nossas contradições, nossos erros, nossos acertos e nossas esperanças.
A Humanotopia não deve ser um lugar perfeito, até porque uma cidade feita de humanos jamais será uma utopia, mas pode, sim, ser uma cidade melhor, e isso não começa no governo, começa em cada um de nós. Na hora em que a urna fecha, o governo pode seguir o mesmo ou mudar, mas a vida continua seu curso e precisa melhorar a cada dia.